Morfologias da sociologia brasileira

Por Edmar M. Braga Filho

Uma das vantagens da sociologia é a sua capacidade de aplicar os seus princípios a si mesma, numa espécie de autorreflexão cognitiva. Atentos às configurações que constituem a vida em sociedade, os sociólogos frequentemente refletem sobre o estado da disciplina. Partindo de um ponto de vista privilegiado, a perspectiva sociológica pode apontar mais perguntas do que respostas, como tentarei mostrar neste texto ou, seguindo Dwyer, Barbosa e Braga (2013), neste “esboço de uma morfologia da sociologia brasileira”.

Neste artigo, os autores exploram algumas transformações pelas quais passa a sociologia brasileira. Para isso, eles utilizam dados mais gerais da série anual do Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudo e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), além daqueles extraídos de um survey aplicado pela diretoria da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) aos seus associados, no ano de 2009. Contrastando com estes, fazem uso de uma pesquisa empreendida por Eugenio Braga, na qual contém dados sobre diplomados de ciências sociais do estado de São Paulo. Aqui, a ênfase estará sobre o survey da SBS.

Importante associação de classe, a SBS agregava, na época do levantamento dos dados, 911 associados. Destes, 477 responderam o questionário de 34 questões, total ou parcialmente. Os autores estão cientes da limitação que essa escolha acarretará, uma vez que a maioria dos associados (70,7% dos respondentes) são professores universitários, o que não abarcaria a profissão como um todo. Contudo, é importante lembrar que a carreira acadêmica é ainda tida como principal horizonte profissional do graduado em ciências sociais, e cujas razões são históricas e sociais, conforme ilustrou Leonel Salgueiro, em artigo aqui no C/A .

A primeira informação que merece destaque, obtida pelo censo do Inep, é aquela referente aos estudantes de graduação em ciências sociais: a maioria está concentrada em instituições públicas. O crescimento foi bem expressivo. Em 2000, 53,8% dos matriculados e 36,8% dos concluintes eram de instituições públicas. Em 2011, esse número chegou a 85,5% e 76,4%, respectivamente. À primeira vista, esses números podem parecer paradoxais, já que o ensino em instituições privadas expandiu muito nos últimos anos. Todavia, isso pode gerar algumas reflexões sobre as peculiaridades (ou obstáculos?) de nosso curso em relação ao mercado de trabalho, e ao seu papel social.

Se tomarmos os dados do survey aplicado à SBS como representativos da comunidade acadêmica da sociologia brasileira (em 2009), podemos seguramente dizer que a sociologia acadêmica é uma profissão exercida por pessoas brancas, de classe média e com idade acima de 45 anos. Destaca-se também o fato de que há uma ligeira maioria de mulheres, muito diferente de outras ciências. Além disso, como que incorporando a noção de desencantamento de mundo weberiana, frisa-se a maioria de ateus, agnósticos ou sem religião. Em contrapartida, é importante ressaltar que, mesmo com essas características, a nossa comunidade abarca sociólogos (na época do survey) de origens sociais mais modestas, com pais possuindo pouca escolarização.

SBSreligiao

 

 

 

 

 

Se é verdade que um grupo profissional define a sua identidade inicialmente pelo processo de socialização, nas profissões que exigem cursos superiores ele se dá principalmente na formação universitária. No caso da identidade do sociólogo, essa socialização se concentra na pós-graduação. 73% dos membros que responderam ao survey possuem diploma de graduação em ciências sociais (ou numa das três subdisciplinas), o que ilustra a abertura de nossa profissão a graduados de outras áreas. Além disso, é interessante apontar que, de todos os respondentes, 42,3% realizaram o mestrado em uma destas seis instituições: Usp, UFRJ, UnB, Unicamp, UFPE e [antiga]Iuperj. No âmbito do doutorado esse número aumenta, chegando a 51,8%. Para os autores, a principal razão dessa centralização é devido ao histórico da institucionalização da disciplina no Brasil, o que não deixa de criar interrogações sobre os possíveis padrões de formação dos sociólogos.

Como dito anteriormente, a maioria dos associados são professores universitários. Depreende-se que estejam envolvidos com atividades de pesquisa e ensino. No que tange à pesquisa, ressalta-se a importante informação de que 76% trabalham em torno de uma temática preponderante. Essa superespecialização abre margens para algumas questões: seriam os sociólogos capazes de trabalhar com áreas que não aquelas nas quais são especialistas? Formam-se especialistas num tema específico, ou um cientista com habilidades generalistas? Por outro lado, essa especialização pode possibilitar ricas pesquisas interdisciplinares. Abaixo, os temas de trabalho preponderantes entre os associados

Temas

Por fim, os autores refletem brevemente sobre as hierarquias internas e aos valores entre os sociólogos. Ao serem questionados sobre a atividades que mais propiciariam prestígio, aquela que se vincula à política apareceu em primeiro lugar, algo que se pode chamar de “efeito Fernando Henrique Cardoso”. Em segundo e terceiro lugar destacam-se a figura do dono de empresa de pesquisa e empresário na área de opinião pública ou marketing. A atividade do professor universitário aparece apenas em 4º. Todavia, o que mais chama a atenção é para a última posição no ranking das hierarquias de prestígio (18 posições abaixo da de professor!): entrevistador, pesquisador de campo e coletor de dados. Por que será que o trabalho “braçal” é mais desqualificado? Em que medida este valor se diferencia (ou se assemelha) do conjunto das outras profissões?

Ressalta-se a urgência da atualização desses dados, por não captarem a entrada de grande contingente de pobres e negros na universidade nos últimos anos. Como refletiu Joanna Cassiano, essa entrada traduz-se em permanência? A morfologia da sociologia brasileira está em constante transformação. Será que deixaremos de ser uma profissão da classe média, de brancos e seniores?

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2 comentários em “Morfologias da sociologia brasileira”

  1. Bem interessante o artigo em questão, assim como a conclusão a que se chega através dele. Sendo a Sociologia brasileira praticada por pessoas de “classe média, brancas e seniores”, não estaríamos, portanto, diante do grande dilema de nossa área de atuação e do nosso campo do saber? Constatar a pouca representatividade das pessoas provenientes dos estratos mais desfavorecidos de nossa sociedade ao universo da Sociologia, vemos que o diploma de cientista social, além de não representar uma possibilidade no mercado de trabalho, talvez, também não atraia os jovens desses estratos sociais por não significar um possível instrumento de transformação social. Acredito que esse retrato nos dá boas possibilidades para repensarmos o papel das universidades brasileiras (e em particular os cursos de Ciências Sociais) e sua relação com nossa sociedade, bem como pensar a universidade como uma instituição propriamente, e seu papel na reprodução de assimetrias sociais. Ótimo post!

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