A Persistência da Colonialidade na Academia – parte 1

Por Mayara Abrahão,

Aimé Césaire (1913-2008) foi um intelectual nascido na Martinica, colônia francesa na América Central, muito representativo no movimento da negritude na literatura francófona, bem como em relação ao pensamento pós-colonial e de-colonial.

Sua ação política e cultural inclui em 1935 a revista literária L’Étudiant Noir, em Paris e, em 1941, de volta à Martinica, a criação da revista literária Tropiques, fundada em parceria com Suzanne Roussi – com quem era casado – e outros intelectuais martiniquenhos, com o intuito de produzir e reforçar uma identidade própria, livre do eurocentrismo colonial.

Após a Segunda Guerra Mundial, Césaire exerce funções públicas na Martinica com apoio do Partido Comunista Francês e leciona francês e literatura no Liceu Schoelcher de Port-de-France, onde se estabelece na década de 1940, ali conhece e serve de inspiração ao teórico marxista Frantz Fanon, um de seus jovens alunos.

Seu texto Discurso sobre o Colonialismo (1978 [1950]), é um tratado político, uma crítica ao colonialismo europeu e uma convocação à valorização da identidade cultural dos povos colonizados, em especial dos africanos. O que Césaire sugere é que se façam ouvir as vozes silenciadas durante os séculos de exploração colonial, compreendendo que apenas a memória e a cultura poderiam produzir modelos de justiça social, unindo as pessoas em torno de um ideal de Nação, livre e justo.

Aimé Césaire aponta para a violência da colonização cultural, pela qual, além da ocupação de territórios, há também a negação da cultura tradicional, o apagamento da memória autóctone. Para ele, a colonização do continente deixou uma marca de destruição da identidade africana. Césaire questiona as “culturas obrigatórias”, que invisibilizam a pluralidade dos grupos africanos: com a política colonial de assimilação, a sobrevivência nas colônias dependia, de fato, da europeização dos colonizados. Assim, o “esquecimento compulsório” da própria identidade transformava indivíduos numa massa disforme e apática, que não se reconhecia como africanos (ou martiniquenhos, americanos, latinos, etc.) nem como europeus e, dessa forma, eram incapazes de se rebelar contra o poder colonial.

A ciência produzida na Europa foi, durante o longo tempo de dominação colonial, uma ferramenta ideológica, que não apenas legitimava a dominação por meios biologicistas (nas teorias raciais e racistas), mas de maneira geral. Em todos os campos do conhecimento a Ciência era europeia, branca e civilizada. A negação de que os primeiros conhecimentos matemáticos surgiram de cientistas não europeus, o apagamento da produção do Oriente Médio durante a Idade Média europeia, são exemplos dessa política colonial.

Os saques de toda riqueza material e cultural das terras colonizadas tiveram uma função de apagamento. Muito mais do que roubar o ouro dos templos, os colonizadores retiraram referências culturais daqueles que agora se tornavam “o outro”. A hierarquia cultural seguiu a lógica colonial racista e os museus passaram a ter como função apresentar o exótico, vitrines que reforçavam a grandeza europeia.

Com essas críticas, Aimé Césaire critica não só o colonialismo europeu dos séculos XIX e XX, mas a lógica colonialista (e burguesa) ainda atual. A “Europa indefensável” se mantém hegemônica, em disputa com outras potências, pela manutenção de seu lugar privilegiado no campo científico, cultural e político. Essa “culpa histórica” não só persiste como parece aumentar.

Por isso, o tema d’O Discurso parece tão familiar, tanto em relação às culturas colonizadas, mas também em relação às “minorias” de forma geral. Reivindicar um espaço em meio a uma hegemonia é também tarefa nossa, enquanto cientistas sociais periféricos, buscando espaços na produção e distribuição do conhecimento. Quando pensamos em colonialidades e eurocentrismo, podemos claramente nos enxergar em conflito com saberes e sistemas feitos por e para um grupo privilegiado de países do “norte”.

As resistências anticoloniais se fazem necessárias no meio acadêmico do século XXI. Produzir conhecimento e pensar no tipo de conhecimento que desejamos produzir, por que meios, para quais fins. O texto de Aimé Césaire permite refletir sobre a importância da ciência e da cultura nas mais diversas esferas sociais e nos faz compreender a necessidade de buscar novas formas e novos conteúdos para o debate acadêmico.

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