A sociologia das questões ambientais

Por Anna Carolina Düppre,

Conciliar o meio social e o meio natural num debate teórico pode representar um desafio para muitos estudiosos das ciências sociais. As mudanças climáticas vêm sendo tema de especial interesse, mas nem sempre foram alvo de preocupação e investigação. O ponto de partida da fundamentação desse assunto como um tema para as ciências humanas é relativamente recente.

Apesar disso, vem sendo possível estabelecer uma série de conexões entre a sociologia e o meio ambiente, como nos mostra o artigo O ambiente como questão sociológica: conflitos ambientais em perspectiva de Lorena C. Fleury e Jalcione Almeida, ambos da UFRGS, e Adriano Premebida, da Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera/FDB.

Não é recorrente que se veja na graduação, por exemplo, disciplinas obrigatórias ou mesmo optativas que abordem a questão ambiental, a relação do homem e o meio ambiente e suas diversas possibilidades de desdobramentos. Sobre isso, os autores observam que o meio ambiente, analisado sob o prisma da sociologia, é ainda um campo de estudos em formação.

As pesquisas iniciais datam de aproximadamente 40 anos. Quando sociólogos precisaram recorrer a um arcabouço teórico para interpretar um período de emergente preocupação com o planeta que se deu nos Estados Unidos dos anos 1970, não encontraram estudos relacionados. Por conta disso, uma série de críticas foi feita ao legado antropocêntrico dos autores clássicos: Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim teriam distanciado a variável ambiental dos demais temas que a sociologia contemplava e, como consequência, teriam propagado uma lacuna naquele campo.

O conjunto de bibliografias que efetivamente deram início a uma abordagem sociológica do meio ambiente de forma interligada chamou-se de sociologia ambiental. Por forte influência dos movimentos ambientalista e ecologista, logo se tornou uma premissa para esse campo que a expansão da economia implicaria numa tendência ao desequilíbrio na relação sociedade-natureza.

A partir do final dos anos 1970, algumas correntes tentaram propor redefinições para a compreensão da sociologia ambiental como disciplina acadêmica. As novas formulações passaram pela releitura de Marx, Weber e Durkheim — na qual se defendeu, por exemplo, a contradição entre expansão econômica e equilíbrio ecológico (o “marxismo ambiental”) —, e pela análise dos problemas ambientais a partir de estratégias convencionais da sociologia — como exemplo, a “sociedade de risco” (Beck 1992; 1995).

Em meio a esse conjunto de discussões, ganharam força abordagens alinhadas ao construtivismo social: o foco da sociologia ambiental seria a percepção e construção coletiva do ambiente e seus significados comuns, visão que foi bastante utilizada em análises brasileiras sobre conflitos ambientais. Um dos desdobramentos mais influentes dessa corrente foi de que os problemas ambientais, como resultados de construção social, não existiriam por si mesmos — processo semelhante ao de problemas sociais em geral.

Entretanto, ponderam os autores, essas conclusões foram também criticadas, uma vez que continuavam a considerar uma primazia do social na análise. Mas seria realmente possível que fosse diferente? Uma das abordagens mais ousadas nesse sentido foi a de Bruno Latour, que procurou, a partir dos anos 1980, demonstrar que a divisão sociedade-natureza foi uma criação ocidental em busca pela distinção na modernidade.

Partindo dessa ideia, Latour demonstrou, não sem receber críticas, que tanto os objetos naturais quanto os sociais poderiam ser considerados atores associados (a Teoria Ator-Rede), que funcionam ora como agentes, ora como mediadores. Assim, o cientista social francês buscou romper com as ideias de sociedades modernas e não modernas, natureza como depósito externo de ações do homem e natureza como periferia distante, considerando que todos compõem um cosmos comum. Isso acabou por abrir espaço a novas abordagens que não pressupunham a separação sociedade-natureza. São de sua autoria as abordagens que mais se aproximaram de fato da análise de conflitos, indicam os autores.

Na América Latina, as relações entre sociologia e ambiente assumem contornos diferentes das discussões provenientes de Europa, Estados Unidos e Canadá. No foco das pesquisas estão as disputas pela biodiversidade das florestas tropicais, e já é possível perceber a centralização do ambiente na sociologia por meio dos debates sobre expropriação material, violência, lutas culturais e relações de poder entre grupos, consequência dos processos de desenvolvimento e do papel das comunidades.

Já no Brasil, a discussão ambiental em sociologia parece ter sido orientada pela sustentabilidade e, gradativamente, pela análise de conflitos. A partir dessa conclusão, os três pesquisadores traçam diálogos com autores que se utilizam da sociologia crítica de Pierre Bourdieu para observar os processos simbólicos e materiais da produção de conflitos ambientais, a exemplo de Henri Acselrad, que discute a questão territorial e acesso aos recursos naturais; José S. L. Lopes, sobre a legitimidade do discurso ambiental, e Andréa Zhouri, acerca do modelo de desenvolvimento econômico.

A sociologia ambiental, como disciplina, vem percorrendo um longo trajeto em busca de alicerces práticos e teóricos. Como bem definem os autores deste artigo, não se trata apenas de incorporação de um objeto a uma disciplina estabilizada. A demanda é por discussão e reelaboração constante. Como um tema de extrema relevância para a sociedade e a academia, e que perpassa ambas as esferas, é importante que seja incorporado cada vez mais às ciências humanas.

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