Os desafios das ciências sociais na periferia. Entrevista com Ladan Rahbari, socióloga iraniana

Tradução por Edmar M. Braga Filho

 

Um dos temas caros para o Circuito Acadêmico é a produção e circulação desiguais do conhecimento científico no mundo. No ano passado, a socióloga iraniana Ladan Rahbari publicou um artigo na revista Civitas, Peripheral position in social theory. Limitations of social research and dissertation writing in Iranresenhado pelo C/A. A autora nos concedeu uma entrevista por e-mail, esclarecendo alguns temas abordados no artigo, como as limitações externas à academia iraniana e a articulação global/local. Você pode acessar a versão original aqui. Confira abaixo e participe!

Você poderia nos contar um pouco sobre a sua trajetória acadêmica e quais são as questões de sua pesquisa e de seu interesse?

As ciências sociais não são disciplinas muito populares no Irã. Isso é devido principalmente ao mercado de trabalho instável para os graduados, como também pela falta de um conhecimento sobre o significado deste ramo do saber na sociedade. Espera-se que os estudantes bem-sucedidos que concluíram o ensino médio estudem uma das várias áreas de engenharia, ou que prossigam os estudos nas ciências médicas. Eu me rebelei contra o sistema e estudei literatura italiana na Universidade do Teerã, e depois eu mudei para antropologia no mestrado, na mesma universidade. Eu amei antropologia, mas como no tempo em que concluí não havia programa de doutorado nesta área, tive que mudar para a sociologia.

Iniciei meus estudos em gênero desde quando eu era estudante do bacharelado, e continuei trabalhando principalmente em políticas de gênero e violência contra mulheres desde então. Algumas questões de políticas de gênero são comuns com questões enfrentadas por outros ramos das ciências sociais. Por exemplo, há muitos limites criados pelas estruturas sociais e políticas do país que impedem essas disciplinas de se desenvolverem. As ciências sociais criticam e questionam a atual ordem social, e isso as faz alvo de ataques pelos que se beneficiam da ordem. Geralmente, pesquisadores iranianos são funcionários do governo, servos do sistema, já que universidades e centros de pesquisa na maior parte das vezes pertencem ao setor público. Isto tem dramaticamente afetado a qualidade das pesquisas. A ciência social iraniana também sofre um atraso em relação às correntes globais. Isto é devido tanto a fatores internos, quanto aos externos, sobre os quais eu discuti em meu artigo. Estudos sobre gênero, e especialmente políticas de gênero, enfrentam as mesmas dificuldades; mas pelo fato de eles estarem relacionados com o discurso religioso predominante no país, são considerados questões socioculturais ainda mais sensíveis.

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Então, há questões relativas a publicar seu trabalho fora da comunidade científica iraniana. O problema da língua é importante. Dominar outro idioma não é sempre fácil, e as deficiências linguísticas que surgem quando você quer traduzir seu trabalho da sua língua nativa para o inglês sempre existem.  A abordagem positivista é muito forte no Irã, e fazer pesquisa social é geralmente definido pela metodologia positivista, enquanto isso não é necessariamente o caso fora do país. Então, tem sido bem difícil fazer o tipo de pesquisa que seja adequado para ser publicado dentro e fora do país.

Em seu artigo “Peripheral position in social theory” você mencionou três fatores externos que contribuem para o status periférico das associações iranianas. A última se refere à situação política e econômica dos acadêmicos e do próprio país. A esse respeito, quão importante você acha que seria a criação de redes científicas e comunidades científicas com outros países periféricos?

 

Como você sabe, o último fator se refere às limitações políticas dominantes que não são necessariamente relacionadas, em sua gênese, ao conhecimento e à academia. Contudo, elas afetam a posição na academia, tais como restrições sobre o deslocamento de iranianos, ou a imagem distorcida dos representantes da academia iraniana, pela razão de que tudo é político. Eu discuti anteriormente, e também em meu artigo, que a academia iraniana sofre certas questões internas. Contudo, há bom trabalho sendo feito também, e me parece que as limitações externas também tornam as questões internas difíceis de serem resolvidas. Como nós podemos nos conformar às tendências globais se nós somos privados de acesso às comunidades globais? É por isso que acadêmicos iranianos se tornam bem-sucedidos quando começam a trabalhar no exterior.

Eu acredito que redes e comunidades criadas com outros países periféricos poderiam formar uma nova tendência de pesquisa – e essa literatura já existe. As periferias sempre lidaram com sociologia global, mesmo antes dos centros começarem a se darem conta de que tal conceito existe. Os centros sempre tiveram suas abordagens hegemônicas, que se concentraram na produção do conhecimento de acordo com seus contextos e, mesmo hoje, com todos os debates sobre sociologia global, ainda há vozes que chamam pelo “empoderamento” das periferias. Ironicamente, as periferias sempre tiveram que utilizar uma abordagem mais global que os centros, porque elas importaram as teorias e conceitos criados por eles; elas leram seus artigos e livros, traduziram-nos, e sempre tiveram que ver o mundo antes de ver suas próprias sociedades e sua posição nela. Isto é uma base importante para a formação de tais comunidades. Essas comunidades também nos ajudariam a articular nossas técnicas de diálogo com os países centrais, já que nós somos todos cidadãos de segunda classe nesta comunidade global, como também para reivindicar nosso lugar nela.

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As tendências de produção do conhecimento nas periferias são diferentes das do centro. Nós não temos as marcas best-seller no mercado do conhecimento. Contudo, também é essencial manter o diálogo e canais de interação com os centros para construir uma sociologia global. A sociologia global é possível se nós vermos o local e compreendermos sua posição no mundo, que inclui tanto centros quanto periferias. Formar um diálogo entre acadêmicos dos centros e das periferias fortaleceria as compreensões locais e globais das realidades sociais, uma vez que local e global são compreensíveis somente em relação um com o outro.

É possível fazer com que teorias e conceitos inspirados localmente possam se tornar globais? Como articular, neste caso, global e local?

Muitas teorias e conceitos globalmente situados, testados e aplicados se inspiraram por questões locais. Muitos projetos que começaram como locais transformaram-se em projetos globais, acima de objetivos nacionais ou locais. Como Burawoy sugere, três fatores podem ajudar a unir a sociologia e formar uma sociologia global: projeto comum, uma comunidade e uma língua comum. Até aqui, tudo bem. O problema, contudo, das percepções atuais da sociologia global é que os projetos, comunidades e língua já foram estabelecidos sob a hegemonia dos centros. Agora, provar a existência dessa hegemonia dos centros é similar a provar que o racismo existe para aqueles que não o sofrem. Eu tive algumas conversas interessantes com sociólogos que vieram dos centros, e que não sentem a existência desta hegemonia.

Só porque coletivamente pretendemos descartar uma ideia, ela não vai desaparecer. E certamente necessitará mais do que apenas a realização de eventos nas periferias ou tornar nossos grupos de pesquisa multinacionais. Nós normalmente chamamos uma associação de global quando ela cobre diversas localizações geográficas. O problema é que os debates sobre sociologia global começaram nos países ricos, e por acadêmicos vindos dos centros. A ideia da formação de uma sociologia global é, portanto, outro constructo dos centros se estendendo pelos mesmos canais de conhecimento pré-existentes. Enquanto a abordagem global foi anteriormente sendo praticada pelos países periféricos sem serem nomeadas como sociologia global, agora que os centros têm demonstrado atenção pelo conceito, ele está sendo ouvido, debatido e testado pelos acadêmicos periféricos, que tem seguido a liderança dos teóricos centrais.

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Como eu discuti em meu artigo, o que define o global/local hoje é a geopolítica do espaço, ao invés de realidades e diferenças empiricamente testáveis. Embora estes possam existir, eles não são a base de tal distinção. Não é acidental o fato de que países pobres são as periferias na geografia do conhecimento. Novamente, eu reconheço a importância da qualidade do conhecimento produzido nos centros, mas eu também enfatizo que o conhecimento produzido nas periferias é tão desconhecido por eles para ser avaliados como fracos. O global é formado pela constante comunicação entre diversas unidades políticas – e esta comunicação não é, contudo, necessariamente na forma de diálogo.

 

Como você avalia o desenvolvimento das ciências sociais iranianas? Você prevê uma ciência social autônoma, criativa e original em seu país num futuro próximo? Qual o papel da nova geração de cientistas sociais neste processo?

Tem havido um aumento no número de estudantes universitários nas últimas décadas no Irã. Esta crescente quantidade não trouxe melhorias para a qualidade da educação, e há especulações de que ocorreu o contrário. Após a Revolução Islâmica no Irã, universidades foram desenvolvidas para atrasar o ingresso de jovens no mercado de trabalho num país devastado pela guerra. O atraso não ajudou, porque a enorme população jovem educada agora exige melhores condições. O desemprego é um problema real. Em 2012, em 22% das famílias iranianas, todos os membros familiares estavam desempregados. Também é estimado que 20% dos graduados em ciências sociais estejam desempregados. Com um mercado de trabalho inconstante, as pesquisas estão cada vez mais propensas a se conformarem com os discursos sociais e políticos predominantes. Como Burawoy sugeriu, espera-se que as pesquisas dos “funcionários públicos” [civil servant] sejam compatíveis com objetivos governamentais pré-determinados.DSC_0098

As ciências sociais estão se desenvolvendo no Irã, sobretudo em seus aspectos quantitativos. Todavia, o desenvolvimento das disciplinas exige mais que o aumento de estudantes e número de pesquisas. Uma mudança significativa requer tanto transformações no sistema educacional em larga escala, quanto estabelecer comunicação contínua com as comunidades científicas globais. Para as novas gerações de cientistas sociais, o papel é o que sempre tem sido durante décadas de história das ciências sociais iranianas: tentar permanecer fiel à sociologia, apesar das crescentes limitações no país. As novas gerações já trouxeram a mudança das estruturas sócio-políticas, principalmente resistindo contra a ideologia conformista. Sobre as questões externas, é a mesma coisa. Claro que a esse respeito, recai menos sobre os indivíduos em um certo país tentar mudar o sistema internacionalmente estabelecido. Há questões que podem apenas ser resolvidas coletivamente e demandam vontade coletiva e esforços, tanto dos centros quanto das periferias.

Algumas publicações de Ladan Rahbari:

Challenges of a Global Sociology: Centers and Peripheries in Geopolitics of Sociological Theory

FEMINISM AND HISTORICAL CHALLENGES IN ANTHROPOLOGY

IRANIAN WOMEN’S ROLE AND POSITION IN SCIENCE AND EDUCATION; A HISTOTICAL STUDY

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