A posição do conhecimento

Por Edmar M. Braga Filho

Todo posicionamento envolve algum tipo de relacionamento. Seja para localizar-se em um debate, ou para demarcar diferenças. Para Patrick Baert, não há muito espaço para ingenuidade. Em seu artigo Positioning Theory and Intellectual Interventions, o sociólogo delineia a estrutura básica do que ele denomina teoria do posicionamento, aplicada aos estudos da sociologia dos intelectuais.

Baert parte de dois pressupostos. O primeiro é a visão de que a recepção, sobrevivência e disseminação de produtos intelectuaisprogramas de pesquisa, teorias, conceitos ou proposições – dependem não apenas de sua qualidade intrínseca dos seus argumentos, mas também dos dispositivos que o autor emprega para se posicionar dentro de um campo intelectual. O segundo pressuposto fundamenta-se sobre uma concepção contextual e relacional daqueles produtos intelectuais. Em outras palavras, uma intervenção intelectuallivros, artigos, blogs, discursos – faz sentido apenas num contexto social e político particular.

Com isso, para Baert toda forma de intervenção intelectual é potencialmente um posicionamento: ela localiza o autor dentro de um campo intelectual, ao mesmo tempo que situa outros intelectuais, retratando-os como aliados, antecessores numa tradição, ou opondo-se a eles. Esse posicionamento pode ocorrer sutilmente, por meio de textos em periódicos específicos, editoras de determinado tema e escolha das referências. Mas também pode ocorrer de forma explícita. Baert, por exemplo, reserva uma parte de seu próprio texto para desqualificar o que ele chama de “nova sociologia das ideias”, desenvolvida por outros pesquisadores. Os rótulos também são uma forma de posicionamento explícito, pois expressam fidelidade a alguma tradição (“marxistas”, “estruturalistas”), facilitando a disseminação e perpetuação de ideias, além de incriminar outras posições.

Com isso, todo posicionamento envolve um agente, podendo ser

O lançamento de Les Temps Modernes , 1945, possibilitou os seus editores, especialmente Sartre, posicionarem-se como intelectuais engajados
O lançamento de Les Temps Modernes , 1945, possibilitou os seus editores, especialmente Sartre, posicionarem-se como intelectuais engajados

indivíduos ou grupos, e um “posicionado”, também indivíduos, entidades sociais, tradições ou disciplinas acadêmicas. Além disso, ele pode ser tanto de natureza intelectual, posicionando-se numa tradição ou literatura mais ampla, quanto de natureza ético-política, quando o que está em jogo é uma intervenção que ultrapassa os muros da universidade

Contudo, uma intervenção intelectual por si só não garante a efetividade do posicionamento. Afinal, há a possibilidade de ningém ler ou escutar o texto ou discurso. O caráter relacional e contextual é de importância capital no processo. Assim, para que produzam efeitos de posicionamento, as intervenções intelectuais dependem:

1) de uma audiência e do status do agente;

2) da extensão e da natureza de um padrão anterior de intervenções;

3) do contexto sócio-político ou intelectual nos quais a intervenção é feita.

Para Baert, o orientalismo de Said é um rótulo que o posiciona diante de outros autores por ele "incriminados".
Para Baert, o orientalismo de Said é um rótulo que o posiciona diante de outros autores por ele “incriminados”.

Desta forma, depreende-se que a mesma intervenção intelectual pode produzir diferentes posicionamentos, quando transpostos para diferentes contextos. As relações sociais são de grande importância, na medida em que as redes estabelecidas por um intelectual podem favorecer determinado posicionamento, além de constituírem um público reconhecedor e reprodutor das intervenções. O posicionamento é sempre uma conquista social e contínua, já que envolve o reconhecimento, alianças e disputas.

Baert reforça que a ênfase da análise não deve centrar-se nas motivações por trás das intervenções intelectuais, mas nos seus efeitos. Analisá-los pode ser uma tarefa árdua, pois exige a compreensão do ambiente político e social, além das instituições e

A "sociologia pública" de Burawoy é possível graças a um posicionamento ético-político
A “sociologia pública” de Burawoy é possível graças a um posicionamento ético-político

atores envolvidos com elas. Por fim, vale frisar que o autor não nega sua dimensão substancial. De fato, a sua validade também pode estar em sua originalidade, criatividade ou contribuição. Contundo, uma análise sociológica requer que seja levada em conta a dimensão performativa dos textos e discursos, além da dimensão material do contexto, para explicar os mecanismos do reconhecimento simbólico e institucional, como também a sua difusão no campo intelectual.

Exercitando a imaginação sociológica

Pensemos que a intervenção intelectual de Baert materializada neste artigo depende de certas circunstâncias para o seu posicionamento no campo dos estudos da sociologia dos intelectuais e das ideias. Primeiramente, a teoria pode ser vista como herdeira de uma perspectiva centrada nos atos de fala e na performatividade. Ele também faz uso de desenvolvimentos teóricos nas disciplinas de psicologia social, marketing e até estudos militares. Ou seja, sua intervenção intelectual depende da natureza e extensão de outros padrões anteriormente posicionados, diferenciando-se deles por meio do posicionamento.

É possível juntar a teoria aqui proposta com as reflexões de dependência acadêmica e geopolítica do conhecimento para entender a apropriação do conhecimento num contexto de circulação desigual no âmbito internacional. Martín (2014) refletiu, em outros termos, sobre o caráter dialógico da ciência, e de como, em nossas atividades acadêmicas, escolhemos uma audiência e uma referência. As escolhas presentes nessa interlocução não só contribuem para a (re)produção de metodologias e conceitos, como também inviabilizam que outras perspectivas sejam conhecidas. Em seu texto, mostrou como o cânone da sociologia da religião ensinada nos cursos no Brasil ignora autores e realidades regionais, e prioriza a literatura europeia, com efeitos para a teorização e imaginário.

Se Baert nos alerta para a importância do contexto, isso implica reconhecer que a circulação do conhecimento se dá de forma desigual, em parte por causa da própria ideia de um sistema científico mundial, nos termos de Beigel (2013). Para ela, esse sistema é estruturado com base na “universalização” da bibliometria como ferramenta de avaliação científica, na supremacia do inglês, e na concentração do capital acadêmico em determinados polos. De fato, como confirmam Mosbah-Natanson e Gingras (2014), após análise quantitativa de 30 anos de produção, colaboração e citações nas ciências sociais em periódicos alocados nas bases mainstreams (logo, os mais reconhecidos internacionalmente), há um privilégio de comunidades científicas da América do Norte e Europa, evidenciando a atualidade da chave analítica centro-periferia. Os cientistas sociais das regiões periféricas, atestam, têm uma tendência a priorizar referências de jornais alocados nas regiões centrais, em detrimento de referências locais e regionais. O fato de que Baert esteja assentado na Universidade de Cambridge, e tenha publicado no Journal for the Theory of Social Behavior não é um mero acaso. Sua teoria é melhor posicionada, disseminada e se torna mais relevante.

Referência sem link:

MARTÍN, ELOÍSA. El karma de vivir al Sur. Interlocuciones y dependencia académica en las ciencias sociales de America Latina. in SUAREZ, Hugo; PIRKER, Cristina (org.) Sociólogos y su sociología. Experiencias en el ejercicio del oficio en México.  DF: Editora da UNAM, 2014, p. 45 – 67

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s