Sofrimento emocional na formação acadêmica

Por Vinícius Volcof Antunes

Escrevendo em seu blog pessoal, a PhD em Física Jennifer Walker apresenta um relato íntimo dos desafios psicológicos que enfrentou ao longo de sua trajetória acadêmica, quase a incapacitando de concluí-la, suportando à base de perigosas misturas de ansiolíticos com álcool e práticas de autoflagelação. Já tendo tratado da questão de saúde mental dos acadêmicos aqui no Circuito, esse artigo propõe retomar a matéria, incluindo novos elementos de discussão e indicando novas reflexões.

Ao pesquisar sobre o tema, notamos a invisibilidade que ainda o cerca por parte das mais diversas áreas do conhecimento, com exceção de estudos de casos da medicina e psicologia, geralmente voltados ao universo de suas instituições. Nos EUA, observa-se que a atenção sobre a questão cresce à medida que aumenta a recorrência de casos de suicídios entre estudantes, que muitas vezes têm como cenário o próprio campus universitário. Já no Brasil, ainda que estudos, como o da psicóloga Rachel Rubin da Silva (O Perfil da Saúde de Estudantes Universitários), apontem que entre 25% e 34% dos universitários experimentam algum tipo de sofrimento psíquico, como ansiedade e depressão, espanta que a questão ainda permaneça secundarizada, demandando discussões mais detidas, sobretudo pela sociologia.

A maioria do debate sobre esse tópico tem partido de blogs e relatos pessoais, como o de Jennifer Walker, e também das brasileiras Barbara Cruvinel e Marina Legroski. Essa última, em texto intitulado O Buraco Sem Fundo do Desespero Acadêmico, reflete sobre as pressões sofridas pelos estudantes de pós-graduação no Brasil, destacando a média de idade cada vez menor dos ingressantes desses programas. Além das pressões acadêmicas, esses jovens somatizam uma série de outros desafios em níveis pessoais (como a mudança de cidade), interpessoais (como o afastamento de amigos e familiares) e institucionais (como a peleja por conquistar e manter uma bolsa acadêmica) durante um estressante período de transição, como apontado pelo estudo já referido de Rachel da Silva.

Comparando diversas análises, nota-se que as duas linhas mais comuns na busca pelas causas do desequilíbrio psicológico entre universitários apontam ora para razões ligadas à produtividade, incluindo as pressões do ambiente competitivo e as incertezas da carreira, ora à estrutura meritocrática das instituições.

Em “Às vezes nos sentimos burras quando vemos quem nos cerca”, a estudante de física em Yale Barbara Cruvinel relata as pressões de um padrão comparativo elevado, especialmente por fazer parte de um time de notáveis: quem entra em uma das instituições da chamada Ivy League, o grupo das oito universidades mais prestigiadas dos EUA, já tem um histórico de conquistas notáveis, logo, ninguém quer se sentir inferior.

Segundo os relatos de quem passou por isso, um dos complexos que pode se desencadear a partir dessa experiência é a chamada “síndrome do impostor”, bem descrito no artigo já referido de Jennifer Walker: “A síndrome do impostor é um problema frequente entre estudantes altamente qualificados, quando se veem rodeados por outros iguais a eles”. Em geral, eles não se sentem digno de ocuparem o espaço que ocupam, tampouco de serem reconhecidos por seus feitos.

Cenário similar é desenhado por Holly Baxter no The Guardian. A jornalista se detém ao caso dos jovens britânicos e aponta que muitos deles se sentem “imprestáveis”, somando a isso a pressão por pagar os empréstimos estudantis, que tem levado muitas estudantes a conciliarem a formação com trabalhos em casas noturnas.

Outra questão apontada por Walker e outros autores é a aparente “cultura da aceitação” que sufoca um tratamento adequado desses problemas. Segundo a autora, “Nessa cultura quase darwiniana entre os estudantes (…) muitos assumem que os problemas psicológicos são só para os fracos”. Já o filósofo Jack Jackson, escrevendo no blog PhDisabled, destinado a refletir sobre patologias entre estudantes, pontua que “o estigma vergonhoso [que encobre essas doenças] precisa acabar. A Academia, particularmente a filosofia, já é um ambiente estressante o suficiente”.

As experiências correntes da trajetória acadêmica estão permeadas de episódios estressantes, de pressão e angústia, que podem causar naqueles que os vivenciam prejuízos emocionais que limitem a plena utilização de suas potencialidades ou até mesmo a desistência da jornada. Porém, ao refletir sobre a questão dos impactos emocionais ligados à vida acadêmica, deve-se também fazer o esforço de enxergar que essas práticas de pressão se reproduzem no universo maior da organização do mundo do trabalho, em que as condições tem se alterado rapidamente e a estabilidade é um fator cada vez mais raro quando se fala em carreira.

Especificamente quanto à vida estudantil, a maioria dos estudos estrangeiros aqui referenciados terminam indicando estruturas acadêmicas de amparo psicológico ou iniciativas formadas a partir dessas demandas. No caso brasileiro, pouco pode ser dito sobre isso. Embora algumas universidades ofereçam amparo psicológico (normalmente abertos à comunidade, sem enfoque a necessidades estudantis específicas), de modo geral elas ainda estão longe de oferecer um ambiente emocionalmente estável aos seus alunos.

*Imagem de capa: O Grito (1893), de Edvard Munch.

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Uma opinião sobre “Sofrimento emocional na formação acadêmica”

  1. Penso que está seja uma situação complicada mesmo. Já presenciei, inclusive na pele, a pressão psicológica por parte de alguns pesquisadores que se acham no direito de tornar a vida de seus alunos um inferno. Chega algumas vezes a situações de assédio moral. Esses “orientadores” podem saber muito dentro de suas áreas, mas para mim estão muito distantes da verdadeira representatividade como um orientador, sendo portador de ética e conduta moral.

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