A angústia acadêmica

Por Edmar M. Braga Filho

 

“— E como andam os estudos?

— Ah, puxado. Estou com pouco tempo livre agora.

— Não se esqueça de que isso foi uma escolha sua”.

 

Este é um fragmento de diálogo que estabeleci com um colega há um tempo. Não sabia o que dizer após sua fala. Talvez este seja o momento. Assim, gostaria de fazer uma breve reflexão sobre a escolha e a responsabilidade no cotidiano da vida acadêmica – que, valer dizer, estou apenas começando. Em seu pequeno, mas poderoso livro O existencialismo é um humanismo, o filósofo francêsjean-paul-sartre Jean-Paul Sartre (1905-1980) esclarece alguns conceitos de sua doutrina, o existencialismo. Ele será o grande mentor por trás de minhas palavras.

Em nossas vidas, defrontamo-nos com uma escolha que gera muitas crises: a da carreira profissional. Aquele que escolhe a carreira acadêmica (ou científica) encontra desafios nada animadores. Conforme nos lembra a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, a produção do conhecimento científico em nosso país carece de valorização: bolsas de pós-graduação insuficientes e baixas, ausência de direitos trabalhistas para o pós-graduando, mercado incipiente, inexistência de formalização da profissão de cientista e a incerteza de que haverá estabilidade financeira futura. Os corajosos que escolhem essa carreira estão conscientes desses problemas, mas aparentam confiança e segurança quando transitam pelos corredores da universidade.

Conforme o tempo passa, somos mais responsabilizados por nossas escolhas. Também somos mais cobrados. Por exemplo, engana-se quem pensa que os acadêmicos farão apenas pesquisa e publicarão seus resultados. Além dessas atividades, também ocupam cargos importantes em órgãos públicos de fomento à pesquisa e em associações de classe; realizam pareceres de projetos e artigos, além de editar livros e periódicos; dão aula para a graduação e pós-graduação, e compõem funções burocráticas em departamentos e1352766683-1632-rembrandt-philosophe-en-mgditation-philosopher-in-meditation-hsb-28x345-cm-prs institutos. Nas horas vagas, finalmente, fazem pesquisa.

Sartre lança mão do conceito de angústia para definir o sentimento que o ser humano tem ao se dar conta de que sua escolha não abarca apenas si próprio, mas também toda a humanidade, já que naquela está embutida uma concepção de bem. Não é exagero traçarmos um paralelo sociológico, se considerarmos nossa ação na sociedade como condicionada, em alguma medida, por estruturas que nos escapam o controle, mas que, também em certa medida, dependem de nossas ações para continuar atuando. Em outras palavras, não é possível pensar nossas ações desvinculadas da sociedade.

Quando ocupamos cargos importantes em órgãos públicos, conselhos ou em instituições universitárias, lidamos com questões estruturais do campo científico, que envolvem financiamento de projetos, critérios de relevância e áreas de interesse de pesquisa. Ao realizar pareceres, ou quando editamos revistas e livros, estamos operando diretamente sobre a circulação do conhecimento científico. Na atividade docente, escolhemos quais autores, escolas teóricas e metodologias trabalharemos em sala de aula. No âmbito anna-and-blind-tobitda pesquisa, selecionamos correntes teóricas, integramos determinadas redes de colaboração e utilizamos metodologias específicas.

Em todas essas práticas, estamos “conversando” com alguém. Martín (2014) faz uma distinção entre dois tipos de interlocutores: uma audiência (para quem se fala ou escreve) e uma referência (autores citados, conceitos e teorias utilizadas). A ciência é uma atividade essencialmente dialógica. Na escolha de nossos interlocutores, elegemos os que lemos, quais os níveis de hierarquia no interior dessas leituras, quais temas merecem atenção, quais teorias são centrais e quais metodologias serão utilizadas. E essas escolhas não são neutras, se levarmos em conta as suas consequências: na impossibilidade de abarcarmos toda a diversidade teórica, a escolha se torna questão central para a reprodução do estado da arte das ciências sociais.

Vale lembrar que escolha pressupõe liberdade. Assim, destaco a defesa de Sinha (2003) de uma ação engajada e individual de acadêmicos em seus campos de atuação – docência, pesquisa e em setores administrativos e burocráticos. Uma ação que questione e critique os cânones das ciências sociais, eurocentricamente construídos, e os critérios de relevância, geopoliticamente determinados.

Num contexto de mal-estar nas ciências humanas, em que a lógica do homo economicus solapa cada vez mais a do homo sociologicus, talvez seja ainda mais necessário a consciência de nossas escolhas e ações. Numa lógica de produção que hipervaloriza aspectos quantitativos do fazer científico, beneficiando contextos e atores específicos, no interior não só do campo científico, mas do sistema científico mundial, as atividades que exigem mais tempo e maior reflexão ficam comprometidas. Por mais problemática que possa ser a dicotomia teoria x empiria, em nossa atual lógica produtiva, a primeira é desvalorizada. Torna-se cada vez mais difícil a produção de novas teorias e meta-teorias, sobretudo entre aqueles cientistas que se encontram na periferia do mundo. Contudo, o aspecto mais danoso dessa lógica talvez seja o seu impacto na própria formação de novos cientistas sociais. Conforme questiona Costa Pinheiro (2015), o atual quadro de produção científica estimula posturas competitivas e egoístas, podendo colocar em risco a qualidade das aulas na graduação e pós-graduação, já que osKoninck_JMC professores estão cada vez mais preocupados em produzir artigos.

Importante frisar que não estou defendendo um ponto normativo das escolhas, mas  a compreensão de que elas, dentro das atuações anteriormente mencionadas, impactam, inexoravelmente, a própria comunidade científica, priorizando determinados interlocutores, em detrimento de outros. Em última análise, faço a apologia de uma “angústia acadêmica” – o sentimento que emerge da consciência de que nossas escolhas no cotidiano acadêmico abarcam toda a comunidade na qual estamos inseridos. Que essa nova geração, da qual faço parte, esteja consciente de que suas escolhas, em todos os âmbitos acadêmicos, não são neutras – e possuem consequências.

Referência

COSTA PINHEIRO, Claudio. Apresentação. in COSTA PINHEIRO, C; BUARQUE DE HOLLANDA, B;  MAIA, J.  (Org.) Ateliê do Pensamento Social. Práticas e Textualidades. Pensando a Pesquisa e a Publicação em Ciências Sociais. Rio de Janeiro: FGV, 2015. pp 7 – 18 

 

*Imagem de capa: Sartre caminhando em Nida, Lituânia. Foto de Antanas Suktus.

*Quadros no corpo do texto. Em ordem: Filósofo em meditação, e Anna e o Tobit cego, de Rembrandt.  Filósofo com um livro aberto, de Salomon Koninck.

 

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