Um breve balanço do 39 Congresso da ANPOCS e do GT: Teorias e Relações Sul-Sul

Por Raphael Lebigre

Entre os dias 26-30, realizou-se o encontro anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e de Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) em Caxambu, MG. Precisamente, nos dias 28 e 29 ocorreu o grupo de trabalho vinculado às relações internacionais, “Teorias e Relações Sul-Sul”. Infelizmente, devido à conjuntura de crise, estiveram ausentes três apresentadores e dois autores de painéis. Além do grupo em questão, foi notória a ausência de palestrantes no encontro, como um todo.

O grupo de estudos foi coordenado pelo professor Marcos Lima (UFPE). Mesmo se houve alguns trabalhos envolvendo as ciências sociais, dentre eles, a maior parte teve como área de estudos as relações internacionais. No primeiro dia foram apresentados quatro trabalhos. O primeiro, “Teoria das Relações Internacionais na China” da autoria de Renan Montenegro (UFPE), procurou refletir sobre o florescimento do pensamento chinês vinculado às relações internacionais e até que ponto tal pensamento poderia ser visto como autônomo. O segundo seminário, “Política externa brasileira, patrimônio cultural e relações Sul-Sul”, de Mayra Goulart (UFRRJ), procurou questionar o fazer das políticas patrimoniais brasileiras enquanto elemento-chave na integração latino-americana. O terceiro, “Emergentes convergentes: o papel potencial das novas instituições intergovernamentais para a ordem global em formação” de Gustavo Rocha (UFPE), buscou analisar a convergência de atores internacionais emergentes com as instituições internacionais criadas pelos mesmos, tais o Novo Banco de Desenvolvimento. Por fim, o trabalho “South-South Collaboration in Intellectual Property Rights” da autoria de Henrique Zeferino (UFPB), propôs questionar algumas estratégias de colaboração sul-sul para as negociações em propriedade intelectual contemporâneas.

A segunda seção, no dia 29, contou com cinco exposições e a apresentação de dois painéis. A palestra, “Cooperação sul-sul Brasil-África: uma visão a partir da interface entre antropologia do desenvolvimento e estudos pós-coloniais” de Letícia Maria Costa da Nóbrega Cesarino (UFSC), tratou de maneira original a cooperação técnica brasileira com base na pesquisa de campo envolvendo projetos oferecidos ao continente africano, com ênfase na Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a partir do segundo governo Lula. Com efeito, o trabalho se apoiou em dois eixos: nas produções etnográficas sobre cooperação internacional para o desenvolvimento e na literatura acadêmica sobre o auxilio dos países emergentes entre si. Para tanto, o mesmo contou, como base teórica, com a antropologia do desenvolvimento, os estudos pós-coloniais e aqueles sobre ciência e tecnologia. A segunda apresentação, “Impactos da cooperação? Os bancos de desenvolvimento do Brasil e de Angola” da autoria de Sarah Morganna Marinho e Patricia Mello (FGV-SP), tratou de investigar como a criação do Banco de Desenvolvimento de Angola trouxe ganhos importantes aos dois países do Sul Global. A terceira palestra, “Agendas de política externa e o processo de definição de diretrizes estratégicas para a Cooperação Sul-Sul do Brasil”, de Adriana Bueno (UERJ), buscou compreender a presença da cooperação internacional na Política Externa Brasileira, a partir do primeiro governo Lula. Em complemento, o trabalho “Cooperação Sul/Sul e os novos sentidos para a cooperação internacional”, de Chyara Pereira, propôs estudar a cooperação internacional do Brasil com os países em desenvolvimento, pauta que surge no pós-segunda guerra.

A apresentação, “Políticas públicas movidas por interesses privados? Uma análise da cooperação brasileira em Moçambique a partir do Corredor de Nacala”, exibido por Karina Kato (UFRRJ), abordou a presença empresarial brasileira em Moçambique, sob a ótica do tripé cooperação-investimento-financiamento; envolvendo a mineração, a agricultura e o corredor logístico que permite o escoamento dos últimos.

Igualmente, houve a apresentação do painel de Isabela Andrade (UFPEL), “O comitê especial sobre a descolonização da ONU”. Nele, o tema do pós-colonialismo flertado com as ciências sociais se fez bastante presente. De fato, foi proposto ver até que ponto historicamente o tema do pós-colonialismo, dividido, segundo a autora, em três fases – anticolonial, pós-colonial e decolonial – foi bem sucedido em criticar os novos laços de dominação entre os países centrais e os (semi) periféricos. Para tanto, buscou-se fazer o histórico do desempenho do Comitê da ONU, entre 1962 e 1991, período que abrange a criação do Comitê até o programa da Organização Internacional em erradicar o colonialismo. Por fim, houve a apresentação de Raphael Lebigre (UFRJ). Com ênfase na sociologia e nos estudos sobre dependência acadêmica, o autor analisou quantitativamente a circulação de artigos do Sul Global (1950-80) em duas revistas francesas-chave de ciências sociais: “Cahiers Internationaux de Sociologie” e a “Revue Tiers Monde”.

Junto ao trabalho mencionado de Letícia Nobrega (UFSC), a apresentação de Isabela Andrade (UFPEL) e a de Raphael Lebigre (UFRJ) suscitaram a problematização de algumas questões. Entre elas, o que define, de fato, os países do Sul Global? E, afinal, como poderíamos tratar da dependência e do pós-colonialismo entre as nações do mesmo bloco?

A ANPOCS, como é tradição, representou uma oportunidade única para conhecer novos acadêmicos, seja da graduação como da pós, oriundos do Brasil e dos países estrangeiros. Ademais, o encontro permitiu ao seu público, graças à pluralidade de mesas redondas, simpósios e grupos de trabalho, ficar a par de discussões em voga em escala nacional e internacional. Porém, apesar de o grupo de trabalho ter sido frutífero para os apresentadores que estiveram presentes, assim como para os demais, faltou a meu ver uma provocação maior por parte daqueles que lá participaram, como um todo. Isto talvez se deve ao número excessivo de apresentações em um período curto. Por fim, vale frisar que não deixa de ser problemático o evento estar concentrado historicamente no eixo sudeste, sem circular em um país de dimensão continental, que é o Brasil.

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