A EMERGÊNCIA DE OUTRAS NARRATIVAS: VARIAÇÕES DA SOCIOLOGIA NA MODERNIDADE

Por Camillo Alvarenga,

Sob a forma de um relatório, proposto pela Fundação Calouste Gulbenkian, no contexto do projeto “Portugal 2000”, uma comissão formada por cientistas da África, Estados Unidos, Alemanha, Japão, França e Bélgica começa a pensar a trajetória das Ciências Sociais sob a hegemonia do Ocidente. Observa-se o reconhecimento do papel da Sociologia e demais humanidades a partir dos anos 60 como abertura a uma “ciência do complexo” em um diálogo cultural, enquanto no início dos anos 90, a expansão da universidade em suas formas de estrutura e organização social permitiu um processo de redefinição disciplinar, é o que nos diz, Immanuel Wallerstein, que assina como organizador da obra, Para abrir as Ciências Sociais, publicado pela Editora Cortez, aqui no Brasil. Ao considerar interpretações sobre os rumos da sociologia na modernidade, este ensaio quer demonstrar como a obra aborda e discuti os limites das fronteiras nas transformações da razão sociológica e da imaginação conceitual e teórica. É assim, a leitura deste estudo interdisciplinar e complexo serve para pensar e refletir os processos em que se envolvem as Ciências Sociais no decurso da modernidade.

Ainda no século 19, a luta epistemológica leva o pensamento social à hierarquização entre ciência e a imaginação, na distinção entre os resultados práticos imediatamente utilizados e aplicados pela sociedade e o mundo imaginário. A linguística atua sob a forma de uma legitimação sócio-intelectual e assim constituem-se as Ciências do Espírito, as Ciências Humanas, Letras e Humanidades.

A História então feita entre a investigação empírica de arquivos documentais e a especulação ou dedução filosófica, abria espaço entre a matemática, a física, a química, a biologia além das humanidades, artes e letras. As práticas artísticas formais (literatura, música e artes plásticas) e a História das artes, compõem um cenário no qual em ruptura com a metafísica aristotélica permitiram o enfrentamento entre as Humanidades e as Ciências Naturais sob o conflito entre a imaginação e a determinação social (ou do meio).

A preocupação com o funcionamento das instituições políticas macroeconômicas dos Estados-Nação, as regras das relações interestatais, a descrição de sistemas sociais não europeus e a noção de “desvio social” de Beccaria vão, aos poucos, contornando o conhecimento objetivo do real, sempre cindido entre empiria e estipulação, entre o aprendizado e a invenção da intuição, ainda que se reconheça uma unidade disciplinar numa multiplicidade epistemológica. Wolff Leipenies ao propor a “terceira cultura”, como definição para as Ciências Sociais e, em especial, para Sociologia, indica uma forma de um conhecimento “entre a ciência e a literatura”, o que nos faz considerar com mais atenção o enunciado de Leopold Von Ranke, que diz:

O que aconteceu efetivamente?

Logo, a busca por compreender esta questão ante os exageros da imaginação, a partir do conhecimento moderno e não mais medieval, postula a existência do mundo real enquanto objeto cognoscível passível de uma prova empírica partindo do pressuposto da neutralidade científica do estudioso. Os arquivos dados à investigação permitiram a formação de esquemas gerais para o trabalho empírico, seja ele ideológico ou nomotético. Por exemplo, a história nacional passou a representar o espaço ocupado no tempo presente pelo povo no aprofundamento da cultura no universo da investigação historiográfica. Assim que desenvolve-se a Antropologia colonial com estudos de sociedades tradicionais, não modernas, com a instauração do “sistema mundo”, sob a dominação dos europeus “versus” as tribos e grupos sociais não-ocidentais.

Como afirma Wallerstein, “tal como a Sociologia tinha, em grande medida, começando por ser uma atividade das organizações para a reforma da sociedade levada a cabo fora das universidades, assim também a Antropologia começou. Sobretudo fora das paredes da instituição universitária” (WALLERSTEIN, 1996, p.38). E antes de qualquer coisa, como uma prática de exploradores, viajantes e funcionários dos serviços coloniais das potências europeias e, a exemplo da Sociologia, a Antropologia viria a ser mais tarde institucionalizada como disciplina universitária, embora segregada das demais ciências sociais dedicadas ao estudo do mundo ocidental (idem. Ibidem). Daí que a etnografia ou a arte de dominar as colônias, em consonância com o ethos científico, estrutura sua metodologia sob a égide da observação participante para o estudo da diferença das moralidades não europeia. As linguagens, os estados políticos e as religiões distinguiam-se das encontradas em estudos antigos da cultura clássica, basicamente literárias.

A hegemonia militar europeia, através de uma metaconstrução sobre a dominação orientada pelo êxito e pela competição política e econômica, encontra na dimensão epistemológica seu estatuto de verdade nas narrativas nacionais através da História, da Antropologia e da Sociologia. Em busca de criar interpretações – chaves hermenêuticas – para identificar as leis dos comportamentos humanos, atuando na identificação de fenômenos sociais como objetos de estudo na observação da realidade humana por um prisma metodologicamente orientado.

Assim, hipóteses científicas (teóricas), em regime de testes proporcionando provas disponíveis, dados quantitativos sistematizados e observação controlada ou, o “eurocentrismo científico” de fundo moral e ético, com bases intelectuais ideológicas e políticas, voltadas para a previsibilidade (como no caso da História), age para o controle das dissidências e à quantificação do saber produzido. Parte-se então, no contemporâneo à uma desmontagem do poder e uma descolonização da identidade das Ciências Sociais.

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