A sina sociológica

Por Edmar M. Braga Filho

A sociologia é frequentemente associada a um papel de desmistificação da sociedade. É no clássico livro Perspectivas Sociológicas, de Peter Berger, que essa vocação é brilhantemente provocada no leitor. Por meio de sua leitura, somos instigados a enxergar a realidade imersa em relações sociais. Uma radicalização dessa perspectiva possibilita à própria sociologia analisar-se reflexivamente. Ciência em constante mutação, dada a especificidade de seu objeto, a sociologia encontra sempre novos desafios epistemológicos, teóricos e empíricos que a atormentam. Eis a sina sociológica.

Com isso em mente, gostaria de fazer uma breve reflexão sobre alguns desafios atuais de nossa disciplina, entendida como um empreendimento coletivo e global. Paradoxalmente, comunidades científicas de inúmeros países se encontram interconectadas, mas com abismos cada vez mais profundos. Parto de dois pressupostos: a existência de um sistema acadêmico mundial, e de desigualdades intrínsecas a esse sistema, com consequências distintas para comunidades científicas de diferentes partes do mundo.

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Segundo Beigel (2013), novas tensões surgiram nas últimas décadas neste sistema acadêmico mundial, configurado com base na “universalização” da bibliometria como instrumento de avaliação científica, na supremacia do inglês, na mercantilização do conhecimento científico e na concentração do capital acadêmico em determinados polos. Essencial para o entendimento desse sistema é a noção de dependência acadêmica. Essa forma de dependência se refere à estrutura desigual de produção e circulação do conhecimento científico, e como comunidades periféricas se desenvolvem imersas nessas estruturas.

Contudo, a autora enfatiza o fato de ainda reinar uma crença “pela qual se supõe que dependência acadêmica implica heteronímia completa, de um lado, e autonomia total, de outro”. A saída para esse impasse seria a desconexão com o pensamento ocidental. Essa visão, além de maniqueísta, é ingênua, e pressupõe que teríamos sido objeto de uma “aculturação massiva”, “receptores passivos” de modelos estrangeiros. Não é o caso, como aponta a autora, e há evidencias que demonstram um florescimento teórico desenvolvido em comunidades periféricas.

Contudo, ainda sofremos com a estrutura desse sistema acadêmico mundial. A universalização de índices bibliométricos, que têm origem nos países centrais, se realiza por meio da avaliação de publicações acadêmicas, gerando o que a autora chama de “acreditação universitária”, além de ser requisito de promoção de pesquisadores de comunidades periféricas, já que os ditames da “internacionalização” são cada vez maiores, havendo pressão dos órgãos de fomento para que pesquisadores “internacionalizem” suas publicações.

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Internacionalizar significa, entre outras coisas, publicar em revistas internacionais, especialmente aquelas mais bem cotadas pelos índices bibliométricos mainstream. O problema é que se consideram internacionais muitas revistas americanas e inglesas, e que na verdade são revistas nacionais. É como se a Revista Brasileira de Ciências Sociais fosse cotada como revista internacional. Não deixa de haver uma dimensão psicológica, que faz com que os qualitativos American ou British sejam imediatamente associados com internacional e de excelência. O problema desse padrão de internacionalização é a grande quantidade de pesquisas e publicações que procuram se adequar aos parâmetros de muitas dessas revistas, cujos critérios de relevância são específicos, não levando em conta a realidade social de países periféricos.

Inúmeros trabalhos têm refletido sobre as consequências da “universalização” bibliométrica, sobretudo a tensão “local” versus “internacional”, que emergiu como um problema não só prático, mas também teórico entre as comunidades científicas periféricas. Por exemplo, Hanafi (2011) e Omobowale (2014) mostram como a pressão para publicação em revistas internacionais bem cotadas pelos índices bibliométricos mainstream têm levado acadêmicos do Oriente Árabe e da Nigéria, respectivamente, a enfraquecer suas comunidades acadêmicas, seus sistemas locais de circulação de conhecimento e a integração das ciências sociais com suas realidades locais. Além deles, Rahbari (2015) reflete sobre como as ciências sociais iranianas se estagnaram ao adotar critérios de relevância “internacionais” e padrões metodológicos e teóricos que são alheios às transformações que vivem a sociedade iraniana.

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Outro fator a ser levado em conta são as redes de colaboração científicas. Elas podem ser entendidas genericamente como o trabalho de dois ou mais cientistas, departamentos ou instituições que compartilham recursos intelectuais, tecnológicos ou financeiros. Inclui-se aqui as coautorias, mas não só. Há também os convênios interinstitucionais e as redes de pesquisa internacionais. Essa imagem, extraída do World Social Science Report (WSSR) de 2010, nos dá uma ideia do vetor das redes de coautoria de artigos publicados no Social Science Citation Index (SSCI), revelando o grau de colaboração Sul-Norte. Podemos nos questionar se os outros tipos de redes de colaboração não acentuariam as ligações da imagem.

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Figura 1 extraído de Frenken, Hoekman e Hardeman, WSSR, 2010. Pg 146

Muro (2009) menciona algumas relações de poder que revelam possíveis desigualdades entre as redes de colaboração. Transformo-as em questões. Quem coordena a rede? Quem define os parâmetros científicos e tecnológicos? Os papéis dos envolvidos? Quem possui maior nível de desenvolvimento científico e tecnológico? As reflexões sobre dependência acadêmica talvez apontem para as respostas.

Uma das consequências da globalização foi o crescimento das comunidades científicas de todo o mundo e o intercâmbio entre elas. Mesmo privilegiando certos contextos locais em detrimentos de outros, esse processo possibilitou que mais gente entrasse para o jogo das definições dos critérios de relevância, das teorias válidas, dos métodos prestigiados e da natureza do conhecimento científico. No âmbito mundial, talvez seja o caso de nos atentarmos para uma maior heterogeneidade dos sistemas de circulação do conhecimento e uma polifonia de definições de ciência. Estes são, a meu ver, alguns dos principais desafios que as atuais transformações sociais impõem à sociologia.

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