Em defesa da escrita simples

Por Edmar M. Braga Filho

Escrever é uma prática essencial na carreira dos cientistas sociais. É por meio da escrita que transmitimos nossas ideias e descobertas. Desta forma, saber expressar de forma clara o que você quer dizer é central. Contudo, costumamos cometer alguns vícios de escrita, e esse é um dos temas que Howard Becker trata em seu livro Truques da Escrita, recentemente lançado no Brasil. Além disso, o sociólogo fala de muitos outros assuntos concernentes ao processo de elaboração de artigos, teses e algumas dicas sobre a composição textual, e que não me deterei aqui. Este texto enfatizará o capítulo “Persona e autoridade”.

Em algum momento de nossa formação, seja na graduação ou pós-graduação, nós passamos a incorporar uma personagem: o intelectual que escreve de modo rebuscado. Seja nos atuais “textões” em redes sociais, artigos ou qualquer outro texto que possa vir a ter grande circulação, muitos de nós nos esforçamos para manter uma linguagem pomposa, às vezes beirando o ininteligível. Esse hábito ocorre não só com um público mais amplo, mas também entre pares. A que isso se deve?

Becker afirma que “a sintaxe e o vocabulário abstruso da prosa acadêmica estereotipada fazem uma clara distinção entre leigos e intelectuais profissionais”. Ou seja, escrevemos dessa forma porque pensamos que esse estilo faz parte do convencimento, esperando que o argumento fique mais persuasivo.

“Viver como intelectual ou acadêmico faz com que a pessoa queira se mostrar inteligente para si mesma e para os outros. Mas não só inteligente. Também quer se mostrar informada, traquejada, sofisticada, informal, profissional – os mais variados tipos de coisas, muitas das quais o escritor pode insinuar nos detalhes de sua escrita”.(p.57)

Becker utiliza o conceito de persona para caracterizar essa personagem. Ele destaca que a escrita dessa persona é um vício reproduzido geração após geração, com alunos imitando

O intelectual que salva o mundo
O intelectual que salva o mundo

professores em seus estilos textuais, encontrados em artigos, livros ou até em sala de aula. O lema parece ser: quanto mais difícil, melhor. E o que seria um intelectual de “classe” para um jovem cientista? Becker faz algumas caracterizações: alguém que usa paletó tweed com reforços de couro nos cotovelos, fuma cachimbo (pelo menos os homens) e se senta na sala dos professores tomando uma taça de vinho e discutindo algum texto de crítica literária. Obviamente, esse é um estereótipo, representado de forma sarcástica por ele.

Há também uma postura de arrogância quando essa persona é incorporada pelos autores. O intelectual performático adora corrigir os erros dos leigos, oferecendo respostas para todo problema que assola o planeta. Neste percurso, ele faz uma clara distinção entre “eu, o iluminado” e “vocês, pessoas sem pensamento crítico” (essa distinção é ainda maior nos almoços de família, certamente…). Eu acrescentaria que, com o grande uso das redes sociais, essa postura “classuda” e pretensiosa toma proporções de larga escala. Olhando os textões e as acuradas análises sociais na internet, dá a impressão de que se formar em ciências sociais é fácil e não envolveria esforço, tempo, dedicação e muita, muita leitura.

Além desses pontos, gostaria de dar atenção a outros, não explorados pelo autor. Primeiramente, acho essencial que haja uma distinção clara entre ser cientista e ser intelectual, e que há diferentes momentos para que a mesma pessoa seja um dos dois. Por intelectual, refiro-me àquela pessoa pública, formadora de opinião e que participa dos debates caros aos problemas de sua cidade, estado ou país. Um sociólogo pode ser um intelectual, assim como um músico. O curso de ciências sociais forma cientistas sociais, e não intelectuais.

Outro ponto que gostaria de salientar é que, se o cientista social (ou o aspirante a tal profissão) decidir participar dos debates públicos (que é, enfatizo, totalmente legítimo), creio que ele deve se despojar das características da persona anteriormente descritas – ininteligível, pomposo, fanfarrão. Agindo de acordo com o estereótipo da persona não só criamos antipatia do público em geral, como também afastamos possíveis interessados em ingressar em nossa carreira. Podemos perder, inclusive, para profissionais de outras áreas, que são chamados para opinar sobre um tema que, por excelência, seria mais bem articulado por cientistas sociais.

Não é muito necessário reafirmar que essa persona é danosa para a própria prática científica em si. Ela dificulta a transmissão das ideias, torna o texto pesado e desinteressante. Ciência combina com simplicidade, e é aí que está sua elegância. É totalmente possível uma escrita fluida e simples, preservando os termos técnicos.

Para finalizar, uma citação importantíssima de Wright Mills, sociólogo estadunidense que defendeu uma postura simples e despretensiosa por parte dos cientistas sociais:

“Para superar a prosa acadêmica, primeiro você precisa superar a pose acadêmica” (The Sociological Imagination, 1959, p. 219)

MillsMotorcycle

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s