A contribuição dos núcleos de estudos de gênero e o papel do feminismo na academia.

Por Leonel Salgueiro,

Qual a importância dos núcleos de estudo e pesquisa sobre gênero para pensarmos o feminismo na academia? A socióloga Ana Alice Alcântara Costa e a antropóloga Cecília Maria Bacellar Sardenberg procuram analisar, em seu artigo “Teoria e Práxis Feministas na Academia: Os núcleos de estudos sobre a mulher nas universidades brasileiras”, o papel desses grupos e as contribuições para o diálogo entre o movimento feminista e o desenvolvimento de pesquisas na área de gênero e direito da mulher.

O artigo, escrito em 1994, traz consigo questões de relevância atuais no que diz respeito à desigualdade de gênero na academia. Segundo as autoras, a análise sobre essa questão se desenvolve em diferentes contextos ao redor do mundo e, no caso Brasil, demanda uma perspectiva histórica e política sobre o papel do movimento feminista na academia, a formação dos núcleos de estudo e a inserção das pesquisas de gênero.

Até a data do artigo, já haviam sido criados mais de quarenta núcleos de estudo sobre a mulher e/ou relações de gênero em instituições de ensino superior no Brasil. As autoras entendem que para analisar os núcleos é preciso compreender três pontos em sua formação: a conquista e legitimação de um espaço de reflexão e ação específico; a disseminação da produção de conhecimentos e incorporação de uma perspectiva feminista de gênero na produção e transmissão dos saberes científicos; as contribuições e perspectivas dessa práxis (prática) para o avanço do projeto feminista na sociedade, e na transformação do cotidiano da própria vida acadêmica.

As autoras entendem que na criação dos núcleos, teoria e práxis se complementam, ou seja, tais estudos contribuíram para o avanço do movimento das mulheres, da mesma forma que as discussões destes trabalhos em associações científicas se fez através da luta do movimento feminista pelo reconhecimento da problemática da mulher como objeto de reflexão e análise. Contudo, as autoras ressaltam que as exigências das práticas políticas do movimento distinguiram-se das práticas teóricas, científicas e acadêmicas, como veremos mais a frente.

No Brasil, a conquista do espaço de estudo sobre a situação das mulheres tem início nos anos 60, com o trabalho de Heleieth Saffioti, A Mulher na Sociedade de Classes. Porém, as autoras salientam que é somente nos anos 70, com a comemoração do Ano Internacional da Mulher, que estes trabalhos começam a ganhar impulso. Surge assim demandas feministas que procuram contestar o papel tradicional da mulher em diferentes contextos sociais (família, trabalho, politica, religião). Isso possibilitou o desenvolvimento de pesquisas sobre os assuntos e um interesse sobre à mulher. Em 1979, como afirmam as autoras, temos a criação do Grupo de Trabalho Mulher e Força de Trabalho na ANPOCS e, em 1980, a criação do GT Mulher e Política.

A partir de 1990, quando o termo gênero passa a ser uma categoria de análise científica, a criação dos núcleos sofre forte impulso e intensidade nos trabalhos sobre o tema. Nesse sentido, os núcleos formados por professores e pesquisadores surgem como uma forma de circulação de informação e aprofundamento de questões teóricas e metodológicas que contribuem para pensar a problemática da mulher e das relações de gênero. Essas propostas atravessaram os anos de políticas de contenção de verbas para as universidades e o fomento à pesquisa, enfrentando diferentes obstáculos para a criação de um apoio institucional. Isso faz pensar nos cortes nas áreas de educação e ciência atuais e o impacto que eles podem acarretar nessas pesquisas acadêmicas. Seriam, atualmente, os núcleos consolidados e autossuficientes, ou devemos pensar em medidas atuais para o fortalecimento das pesquisas frente à crise existente?

As críticas que se voltaram contra os núcleos ocorreram no 1º Encontro Nacional de Núcleos de Estudos sobre a Mulher nas Universidades Brasileiras, promovido pelo NEMGE/USP, em São Paulo (março de 1991), quando verificou-se que estes centros criam guetos femininos dentro das universidades, pois, como afirmam as autoras, as pesquisas são desenvolvidas por mulheres, sobre mulheres e para mulheres. Daí a utilização do termo gênero que é construído como um objeto formal na relação binária, mas que não surge efeito no rompimento deste isolamento acadêmico.

Segundo as autoras, as análises das relações de gênero passam a figurar uma outra forma de estudar a mulher. Surtindo efeito, inclusive, na própria militância em que as reivindicações de gênero ganham força. O que leva mais uma vez as mulheres a tornarem-se invisíveis e isoladas. A consequência imediata foi o distanciamento entre os núcleos, agora essencialmente acadêmicos, e a militância, criando barreiras que não permitiam o diálogo entre ambos.

As autoras ressaltam que a tendência às desigualdades de gênero analisadas pelos núcleos e criticadas pelo movimento não se limitam ao nível das representações, pois também se manifestam no cotidiano das práticas científicas e da vida acadêmica. No Brasil questões de acesso e permanência são motivos de pauta, assim como o tempo médio para a formação, a distinção entre carreiras “femininas” e “masculinas”, o acesso das mulheres a títulos e cargos de liderança nas instituições superiores e outros fatos que contribuem para a desigualdade.

As autoras entendem que conforme distanciamos a práxis feminista da acadêmica e dos núcleos nos tornamos omissos na transformação da própria academia. Para concluir, argumentam que a tarefa dos núcleos e sua relação com o movimento feminista é essencial para a consolidação de uma academia mais igualitária e justa.

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