A não exemplaridade na sociologia: entrevista com Marcelo Rosa

Por Edmar M. Braga Filho

Por mais de dez anos, o sociólogo Marcelo Rosa dedicou suas pesquisas à  compreensão do MST, sindicalismo rural e outros movimentos de sem-terras, analisando tanto suas relações internas quanto com o Estado. Porém, após entrar em contato com os movimentos sem-terra da África do Sul, o pesquisador notou que as referências teóricas consagradas não eram capazes de compreender a complexidade das lutas e dos processos que encontrou. Desde então, ele se dedica a buscar alternativas teóricas que não possuem como referencial os cânones da sociologia exemplar,  e que procurem compreender fenômenos sociais de contextos periféricos, ou do chamado Sul Global.  Confira abaixo a entrevista que o Circuito realizou com ele!

De que forma o intercâmbio acadêmico entre países do Sul Global estimularia a criação de perspectivas teóricas criativas e alternativas àquelas produzidas pelo Norte?

Na minha opinião, as iniciativas nas quais estamos envolvidos até o momento sofrem justamente com a falta de uma forma inovadora para a produção de conhecimento. Temos insistido em congressos e encontros curtos que, na melhor das hipóteses, resultam em coletâneas que isolam os autores e autoras por região.

Nas minhas andanças tenho percebido que a vida acadêmica é muito diversa, que as condições de trabalho, de pesquisa, o lugar das ciências sociais na comunidade científica e no debate político são muito diferentes. Isso impacta fortemente o sentido daquilo que fazemos e buscamos. Uma das principais questões é que assim como no Brasil, nas outras partes do Sul aquilo que você chama de perspectivas criativas e alternativas são extremamente residuais em suas próprias comunidades acadêmicas e não poderiam ser vistas como representantes de um movimento regional e nem do que acontece com o Sul. Não acho que no Brasil se faça muita coisa de alternativo nos cursos de ciências sociais em geral (temos indivíduos que tentam isso de forma esporádica). Faz dez anos que sou professor visitante em algumas universidades na África do Sul e nunca tive oportunidade de discutir esses temas com colegas da sociologia lá, por exemplo.

Nesses contextos, ser criativo e alternativo tende a ser visto comoarticleweber pouco rigoroso, como aventureiro, pois é uma postura que escancara a dúvida e as incertezas que desapareceram da teoria social hegemônica faz tempo. O lema tem sido: na dúvida, chame o Weber!

A única de forma de vencermos essas barreiras seria por meio conexões mais longas e estáveis e de debates acadêmicos que não busquem respostas definitivas a qualquer custo. Temos que nos conhecer melhor, que conversar mais sobre as razões de (poucos de nós) hoje não estarmos satisfeitos com a sociologia que está ai.

Das coisas que vi, penso que uma das possibilidades é o compartilhamento de cursos acadêmicos entre dois ou mais colegas de diferentes países e universidades. Nesses cursos poderíamos pensar como lemos a bibliografia emergente sobre os limites da sociologia e a adaptarmos a cada contexto específico. Não temos um problema de produção, mas principalmente de distribuição e circulação de conhecimento. A única forma que vejo é associar essas duas últimas questões com a formação de um público leitor em nossos cursos de graduação e pós-graduação. Por isso precisamos desse contato mais longo.

Outro ponto importante é que essa ou outras plataformas encorajem quem faz sociologia a pensar sobre teoria. No Brasil, diferentemente de outras partes do mundo (nas quais a sociologia é um curso empírico), o curso de ciências sociais é um curso de leitura aplicada de teorias. Isso nos leva a ser aplicadores inveterados de conceitos que não contestamos. Não ensinamos a pensar que fazer sociologia é fazer também teoria e método. Isso parece ter sido reservado para esnobes. Se as pessoas não pensarem que podem fazer teoria, também não pensarão em propor alternativas teóricas.

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Na sua opinião, é possível uma sociologia universal? 

Pessoalmente nunca gostei do adjetivo, pois ele na prática sempre vem carregado de pretensões de hegemonia ocidental e branca, não apenas na sociologia. Nos dias de hoje ainda é muito difícil para mim escutar a palavra e não associá-la com imagens de intelectuais homens erguendo suas vozes,  seu corpos e seus dedos indicadores (como eu mesmo faço de vez em quando) para nos dar a última lição sobre a necessidade de perpetramos os universalismos consagrados pela modernidade ou corremos o risco de… (sempre uma ameaça). Para piorar, nas poucas vezes que são confrontados, essas figuras tendem a lançar mão do cinismo e de arquétipos ridicularizados de possíveis alternativas teóricas.

Nos anos noventa, Dipesh Chakrabarty ganhou prestígio nas ciências sociais ao propor sistematicamente a provincianização da812NnF6jWHL._SL1500_ Europa e de sua teoria como forma de remediar esse dilema intelectual. No entanto, a maioria dos intelectuais em países como o Brasil ainda encontra conforto ao se afirmar como parte de um sistema teórico “universal europeu” sacralizado. Isso é compreensível pois grande parte dos e das intelectuais do Sul que poderiam debater teoria têm mais contato social com o Norte (em termos de valores), do que com as fatias menos ocidentais da população local (sua empatia com esses grupos se dá apenas quando transformados em objetos científicos). Há uma mistura de identidade teórica com identidade social que se aplica na vida acadêmica de forma violenta e que transforma a sociologia, por vezes, em discurso civilizatório universalista.

Neste tipo de universalismo não tenho a menor crença, prefiro que a sociologia seja mais diversa e menos pretensiosa, que tenhamos mais mulheres e pessoas não brancas de todas as partes do mundo fazendo teorias e métodos que possam ser lidos em nossos cursos.

Poderia nos contar o processo de criação da revista Agrarian South: journal of political economy? Qual a sua importância num contexto de dependência acadêmica e relações desiguais globais de circulação do conhecimento científico?

Cada um dos fundadores da revista tem certamente uma versão sobre a sua criação. Eu posso contar um pouco como eu vejo a fundação do Agrarian South a partir do meu lugar nesse grupo.

Em 2005 um encontrei o prof. Sam Moyo (AIAS/Zimbabwe) que acabava de lançar com o prof. Paris Yeros (hoje na UFABC) um livro sobre a reemergência dos movimentos sociais de luta por terra no Sul (Reclaiming the Land). O livro reunia colegas de vários países home_cover(inclusive do Brasil) e apresentava uma visão contra-hegemônica (otimista) sobre o lugar dos campesinatos em nossos países. Na época convidei o prof. Sam Moyo para dar um curso comigo na Universidade Federal Fluminense sobre a questão da terra. Foi a primeira vez que um professor africano, residente na África, participou de um curso na ciências sociais da UFF. Em seguida fundamos uma escola de verão anual agora também chamada de Agrarian South Summer School que acontece em Harare.

A ideia específica da revista surgiu durante um encontro em Nova Delhi, que reuniu diversos pesquisadores que participavam da escola de verão. Começamos a falar sobre textos nossos que haviam sido rejeitados em uma das principais revistas em língua inglesa da área. Nada de mais em ter textos rejeitados. Acredito que todos nós já tivemos e teremos. Nessa troca de ideias percebemos que, na época, a maioria dos textos publicados sobre nossos países naquela revista eram de residentes europeus e americanos que tinham o monopólio internacional da interpretação de fenômenos que nós mesmos já investigávamos fazia tempo. Eles e elas liam nossas realidades com suas próprias lentes, teorias e, sobretudo, visão normativa. Essas versões internacionais, em muitos casos, eram o único acesso que pesquisadores africanos e indianos tinha as informações acadêmicas sobre movimentos rurais no Brasil. O mais interessante de tudo isso é que campesinato e questão agrária são questões que empiricamente só fazem sentido no Sul.

Nosso desafio maior era divulgar, em língua inglesa, a produção local sobre estudos rurais feitas primordialmente por acadêmicos e acadêmicas baseados/as no Sul. A segunda questão era romper com a hegemonia das duas ou três revistas sediadas na Europa que controlavam a circulação da produção científica internacional. Nós queremos intervir no debate com nossa própria agenda, selecionando temas, teorias e perspectivas que sejam pertinentes em nossos lugares de origem, ampliando as opções para leitores e pesquisadores.

Me parece que nossa maior diferença é a proposta editorial. Diferentemente das outras revistas, aceitamos textos em todas as línguas ocidentais para parecer, e somente depois de aceito o texto é passado ao inglês. A revista tem investido também na formação de um novo púbico de colaboradores que privilegia em seus textos os diálogos com o Sul. Assim, quando recebemos textos que são (principalmente no caso Brasil) incompreensíveis para autores estrangeiros, solicitamos aos autores que dediquem parte de seu trabalho a um pequeno diálogo com outras produções do Sul que torne o contexto local inteligível.

Sobre o entrevistado

Marcelo Rosa é professor de sociologia filiado ao departamento de IMG_0092sociologia da Universidade de Brasília. Coordena o núcleo de pesquisa Laboratório de Sociologia Não Exemplar, cuja questão central é “construir formas narrativas novas por meio de objetos também novos, que forneçam alternativas claras a conceitos como periferia, atraso, desenvolvimento, clientelismo, populismo, sociedade civil, Estado, rural, urbano, cultura entre outras.” É pesquisador visitante no Centre for African Studies da Universidade de Cape Town. O Circuito possui uma resenha de um de seus textos.

*Foto de capa: Rosa na Índia. Foto de seu acervo http://www.naoexemplar.com/?page_id=344

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