Perspectivas críticas em diálogo

Por Edmar M. Braga Filho

As ciências sociais hegemônicas foram confrontadas por duas perspectivas críticas nas últimas décadas: a crítica pós-colonial e a crítica decolonial. Além de diferenças teóricas, ambas se distinguem quanto à localidade de suas reflexões e à extensão de seus quadros cronológicos. Contudo, é possível estabelecer um frutífero diálogo entre as duas tradições de pensamento, como faz a socióloga Gurminder Bhambra, em seu artigo Postcolonial and decolonial dialogues, 2014

Fruto do trabalho de acadêmicos diaspóricos do Oriente Médio e do Sul Asiático, a crítica pós-colonial faz referência a essas localidades e seus interlocutores imperiais (Europa e o “Ocidente”), e seu quadro analítico remonta ao século XIX, firmando-se no XX. Bhambra menciona três obras essenciais desta corrente heterogênea do pensamento crítico: Orientalismo, de Edward Said; O Local da Cultura, de Homi Bhabha, e Pode o Subalterno Falar?, de Gayatri Spivak.

Fazendo breve referência a essas obras, pode-se dizer que Said  inaugurou a reflexão sobre a produção do conhecimento numa perspectiva global, chamando a atenção para a dicotomia “Oriental/Ocidental”, argumentando como tal bifurcação foi possível através de uma elisão do “outro” colonizado na História. Já Bhabha propõe romper com o discurso hegemônico de modernidade por meio de narrativas subalternas e “pós-escravistas”, bem como por meio das perspectivas teóricas críticas que elas engendram. Ele chama atenção para o local de enunciação dos discursos hegemônicos sobre história e cultura, e os processos subjacentes a essa enunciação. Por fim, Spivak oferece uma análise da relação entre discursos ocidentais e a possibilidade de falar do (e pelo) sujeito subalterno (feminino), chamando a atenção para a violência epistêmica que pode surgir nesse processo.

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A outra tradição teórica, identificada como decolonialidade, possui como principais expoentes intelectuais latino-americanos, entre os quais Aníbal Quijano, María Lugones e Walter Mignolo. Focada no processo de colonização europeia nas terras que vieram a se chamar Américas, os autores alargam o quadro de análise para o século XV, com as grandes navegações. Suas influências passam pela teoria do sistema-mundo e a escola de teoria crítica de Frankfurt. Quijano forja a expressão modernidade/colonialidade, numa tentativa teórica de relacionar o processo conhecido como modernidade com a prática colonial empreendida pela Europa. E mais: para o autor, esses processos são indissociáveis. Para o autor, a ideia de uma Europa moderna só foi possível numa relação de diferenciação com o Outro colonizado.

Mignolo e Lugones desenvolvem a ideia de modernidade/colonialidade, alargando o escopo de análise. Mignolo faz uma crítica à epistemologia moderna, tida como a-histórica. O autor reivindica que, pelo contrário, ela deve ser geograficamente e historicamente localizada, bem como situada no bojo de um processo de imposição sobre outros saberes, e suas consequências para a construção de imaginários. Lugones, por sua vez, faz uma releitura da obra de Quijano, afirmando que a modernidade/colonialidade deve ser compreendida num contexto de formações  específicas de raça, gênero e sexualidade, e relaciona essas três categorias ao imaginário propriamente moderno, por meio da colonização dos outros povos.

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Bhambra conclui fazendo aproximações entre as duas tradições. Ambas, pós-colonialismo e decolonialidade são desenvolvidos dentro de uma política de produção do conhecimento mais ampla, a um nível global, e ambas também emergem de uma atitude de contestação da ordem colonial estabelecida por impérios europeus. Elas só se fizeram necessárias como uma consequência da marca do colonialismo. Todavia, nessa resistência intelectual em associar formar de dominação epistemológica, eles oferecem mais do que oposição. Eles oferecem uma nova geopolítica do conhecimento.

Sobre a autora:

ixYK9hh9_400x400Gurminder K Bhambra é socióloga e professora da University of Warwick e Visiting Fellow do Department of Sociology, Princeton University. Seus interesses de pesquisa versam sobre história das ciências sociais, modernidade, pós-colonialismo e teorias sociais numa perspectiva global. É autora do livro Connected Sociologies, e dos artigos  Sociology and Postcolonialism: Another “Missing” Revolution? e A Sociological Dilemma: Race, Segregation, and US Sociology

A foto de capa deste texto é parte da capa de seu livro, Connected Sociologies

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