Pesquisar para quem? A disputa entre professores e pesquisadores.

Por Leonel Salgueiro,

“Professores não veem muito valor nos trabalhos de pesquisadores acadêmicos e estes não veem valor na pesquisa de professores.” É o que afirma o professor de educação Kenneth M. Zeichner da Universidade de Wisconsin–Madison nos Estados Unidos. Em seu artigo Para além da divisão entre professor-pesquisador e professor-acadêmicoo educador analisa as diferentes formas com que os acadêmicos desenvolvem pesquisa científica sobre o ensino e quais são os reais impactos que essas pesquisas apresentam na vida dos sujeitos analisados.

O artigo do autor, escrito em 1998, apesar de antigo, traz consigo questionamentos atuais sobre a forma de produzir pesquisa cientifica, não somente no Norte, como também a que estamos acostumados no Sul. O autor critica a forma como os pesquisadores acadêmicos têm desenvolvido pesquisas educacionais, afirmando que são desenvolvidas para “ensinar aos professores como ensinar”, e não para levar o conhecimento adquirido nessas pesquisas para a sociedade. Segundo Zeichner, apesar da chamada revolução mundial em torno do professor como pesquisador, na qual se fala muito sobre professores como produtores de conhecimentos, é ainda dominante, no meio dos professores, uma visão de pesquisa como uma atividade conduzida por pesquisadores de fora da sala de aula.

Esse afastamento dos professores nos diferentes níveis educacionais sobre a forma de fazer pesquisa acontece por diferentes fatores. Segundo ele, uma das principais razões é o uso de uma linguagem especializada no meio dos acadêmicos, que faz sentido somente para os membros de comunidades particulares de pesquisadores acadêmicos. O que demonstra um status para aqueles que a desenvolvem, mas que afasta os sujeitos analisados e não dialoga com o restante da sociedade.

Zeichner argumenta que outra razão é a frequência com que os professores se veem descritos de forma negativa nessas pesquisas. Segundo ele, é comum ler na literatura acadêmica descrições de ações que prejudicam as crianças e as mantêm oprimidas. Professores têm sido referidos como tecnocratas, sexistas, racistas, incompetentes e mediocremente superficiais. Lendo este artigo de Zeichner, refleti sobre os textos que leio em minha graduação de Licenciatura em Ciências Sociais, principalmente nas aulas de educação. É cotidiano o contato com pesquisas que apresentem citações e exemplos de condutas de professores do ensino médio e primário apresentados de forma negativa. As pesquisas, na maioria das vezes, apresentam as condutas dos professores como exemplos do que não devemos fazer quando estivermos em seu lugar. Mas que, como afirmaria Zeichner, não desenvolvem sequer um diálogo com o professor que apresentou o comportamento julgado no trabalho. Entre outras palavras, analisa-se o sujeito, mas não se dialoga com ele.

Zeichner afirma que a falta de diálogo também se explica pela maneira que se produz pesquisa no mundo. Tanto em 1998, quanto ainda hoje as carreiras acadêmicas estão centradas nas publicações das pesquisas, muitos pesquisadores consideram finalizados os seus trabalhos quando enviam seus relatórios técnicos às agências financiadoras ou quando recebem o “aceite” de publicação de alguma revista especializada. Para a carreira do pesquisador, uma ou ambas as situações descritas sinalizam o encerramento da pesquisa e o momento de começar outra. O autor discute que esta forma de produção visa somente o crescimento pessoal do pesquisador e que por muitas das vezes esconde o papel social e coletivo da pesquisa.

O educador questiona a produção científica de seus colegas pesquisadores, que, apesar de ser reconhecidos internacionalmente pelos seus trabalhos sobre igualdade, justiça social e permanência na escola, não exercem impactos reais para a melhoria na educação. Enquanto que a pesquisa de professores é tolerada na academia somente como uma forma interessante e menos opressiva de desenvolvimento profissional do professor, mas poucos tomam conhecimento do que os professores produzem com suas pesquisas e reconhecem seus resultados como conhecimento educacional a ser analisado e discutido.

Embora a análise sobre as pesquisas educacionais pareça, como diria Zeichner, anti-educativa, o autor argumenta que muito se tem feito para contribuição no diálogo entre os polos de ensino e pesquisa. O projeto “Instrução em Matemática Cognitivamente Guiada”, dirigido por Elizabeth Fennema e Tom Carpenter, por exemplo, começou no final dos anos oitenta com workshops colaborativos entre pesquisadores e professores. O conhecimento, baseado na pesquisa sobre como as crianças resolvem problemas de matemática, deu aos professores um corpo de conhecimentos que os habilitaram a realizar melhor as avaliações de seus alunos. Neste programa não se fornecia ao professor receitas ou materiais específicos, mas o tratava como individuo autônomo e capaz de tomar decisões positivas em sala.

Para finalizar, Zeichner acredita que o investimento em pesquisas colaborativas entre pesquisadores e professores só contribuiriam para o crescimento mútuo dos profissionais e para a formulação de políticas de ensino que não negativam o professor, mas que apresentem propostas e caminhos para uma educação de qualidade. Segundo o educador, tais políticas formuladas por ambos têm levantado nos Estados Unidos questões importantes relacionadas ao ensino sobre AIDS e questões de sexualidade em sala de aula, ao racismo e sexismo, ao ensino de língua para estudantes de grupos minoritários e ao multiculturalismo no currículo.

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