Qual o significado da dependência acadêmica na atualidade?

Por Raphael Lebigre

O que significa, em pleno século XXI, a dependência acadêmica nas ciências sociais? Procuro no presente texto apresentar sucintamente este tema pouco discutido e relativamente novo na disciplina. Para tanto, tento dialogar dois autores que se complementam, Sayed Farid Alatas e Wiebke Keim.

O sociólogo malaio, Farid Alatas (2003, p.603)., no seu artigo “Academic dependence and the global division of labor in the social sciences”, nos sugere que a dependência acadêmica está, em seu intimo, vinculada com uma relação histórica de cunho colonial. Hoje, haveria, segundo ele, um novo tipo de dominação “imperial”, que tornaria as academias do Sul Global direta/indiretamente subordinadas ao direito internacional, ao poder do mercado, financeiro e político de vários países na vanguarda do capitalismo. Para ele, a dependência acadêmica consiste na subordinação que torna as ciências sociais de alguns países à margem da Europa/América do Norte estarem condicionadas pelo desenvolvimento do centro hegemônico. 

Para ele (2003, p.604), este tipo de relação desigual seria produto da divisão do trabalho intelectual entre o Norte Atlântico e o Sul Global. O último seria produtor de conhecimento mais empírico, ou “data”, e o primeiro responsável por criar teoria de “longo alcance”, de teor mais universal.  A dependência se faria nos aspectos materiais, abrangendo as mídias (revistas, livros, etc), tecnologias e o lado financeiro (ajuda de fundações, tais a Ford e a Rockefeller); e igualmente no âmbito das ideias, isto é, intelectuais de países periféricos que necessitam ir para o estrangeiro fazer seus estudos ou pesquisas afins e por consequência, incorporarem, às vezes, por coerção de financiamento, autores e teorias do Norte Atlântico.

Alatas (2003, p.609-610) propõe que haja mais pesquisas teóricas e empíricas sobre os problemas que a dependência acadêmica traz consigo, fazendo com que tais pesquisas sejam divulgadas aos alunos e acadêmicos em geral, na sala de aula, publicações e conferencias.  Ademais, o sociólogo sugere que os cientistas sociais considerem o problema da dependência acadêmica na esfera da história intelectual da disciplina sociológica, ou seja, retomando para si, para além dos “três mosqueteiros”, Marx, Weber e Durkheim, autores não europeus, como o cientista social filipino José Rizal (1861–96) e o indiano Kumar Sarkar (1887–1949). Por fim, tais esforços devem ser, em sua visão, articulados entre os intelectuais do Sul Global, sendo necessária a formação de associações regionais. 

A cientista social francesa, Wiebke Keim, na sua publicação, “Pour un modèle centre-périphérie dans les sciences sociales.” (2008), também segue o fio condutor de Farid Alatas. Segundo ela, perante os padrões de produtividade internacional, os cientistas sociais periféricos são levados a valorizar prioritariamente as comunidades de sociólogos estrangeiros e não as locais, redes estruturadas por moldes dos países centrais. Keim aponta que até mesmo as pesquisas de países periféricos beneficiadas com programas de cooperação são submetidas a agendas estreitas. No exemplo dos professores palestrantes, convidados pela instituição francesa EHESS (“Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais”), no período 2001-2003, entre eles, a maioria dos pesquisadores africanos eram especialistas regionais e não cientistas sociais que tratavam de temas abrangendo igualmente outros contextos, além da África. Por outro lado, os demais pesquisadores, principalmente do Norte Atlântico, abordaram temas mais gerais. A socióloga francesa, assim, complementa e atualiza o texto do autor malaio ao apontar que tentativas recentes de internacionalizar as ciências sociais repousam, em sua essência, no projeto do Norte Atlântico manter sua hegemonia intelectual num mundo cada vez mais repartido e, ao mesmo tempo, conectado.

Wiebke Keim e Farid Alatas convergem no reconhecimento de que o problema da dependência acadêmica entre os países centrais na geopolítica do capitalismo e aqueles à margem não representa somente um obstáculo para o desenvolvimento autônomo das ciências sociais no Sul Global, mas um problema epistemológico no núcleo da disciplina. Provocador e tema ainda sensível nos dias de hoje, haja pano na manga para ser explorado nas ciências sociais….

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