Porque Seguimos? A Psicologia e a Permanência no Ensino Superior.

Por Leonel Salgueiro,

Quais são os fatores que podem contribuir para a permanência dos estudantes universitários nos cursos escolhidos? De que forma podemos falar de adaptação a vivencia universitária? Diferentes áreas do conhecimento têm se dedicado a entender os motivos que contribuem, ou impedem, a permanência no ensino superior. Os contextos sociais e culturais da relação aluno e instituição têm sido debatido(s) por diversos autores da sociologia, e discutidos algumas vezes aqui no Circuito. Hoje, porém, pretendo trazer uma análise psicológica sobre o assunto. Os autores Marco Antônio Pereira Texeira, Graciele Dotto Castro e Luciane da Rosa Piccolo, discutem no artigo “Adaptação à universidade em estudantes universitários: Um estudo correlacional” cinco dimensões psicossociais sobre a adaptação ao ensino superior.

O estudo, realizado em 2007, contou com a participação de 342 estudantes universitários em três cursos de graduação (Direito, Psicologia e Veterinária) da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. O objetivo era correlacionar cinco dimensões de adaptação (carreira, pessoal, interpessoal, estudo e institucional) com as seguintes variáveis: nível de participação em atividades extracurriculares, apoio familiar em relação à escolha profissional realizada, apoio familiar emocional, nível de interação extraclasse com professores e nível de comportamento exploratório vocacional.

Os autores afirmam que o trabalho de conhecer melhor a realidade vivida por estes jovens pode auxiliar os gestores em educação a identificar fatores associados não apenas à evasão escolar, mas também à outros aspectos do desenvolvimento psicossocial dos estudantes. De fato, penso que políticas de permanência estudantil, por exemplo, só são possíveis se nos dedicarmos a conhecer qual o perfil dos alunos que evadem, sejam graduandos ou pós-graduandos.

Segundo a análise dos dados estatísticos, os autores apresentam as seguintes hipóteses ¹:

Participação em atividades Extracurriculares: Embora parta de uma relação estatística fraca, os autores afirmam que tais atividades possivelmente propiciam o desenvolvimento da auto-eficácia profissional e auxiliam, dessa forma, a consolidar um sentimento de satisfação com a profissão e o curso escolhidos. Como já discutimos aqui no Circuito, a pratica de iniciação científica, por exemplo, tem contribuído na aproximação do estudante com o campo científico.

Apoio familiar: Os autores dividem este ponto em outros dois, o apoio familiar em relação à escolha profissional e o apoio emocional. Sendo assim, a família exerce um fator importante na carreira do aluno e nas suas relações pessoais e interpessoais. A família tem a função de estimular o aluno a envolver-se com o curso, e pode também exercer um papel contrário caso o curso não seja do agrado familiar. O diálogo é de fundamental importância para a permanência do estudante e para o suporte emocional. A reciprocidade e as frequentes trocas de ideias com os pais são fatores que se mostraram, segundo os autores, associados a menores índices de estresse e de depressão nos estudantes.

Interação extraclasse com os professores: O contato com os professores fora da sala de aula exerce um papel estimulante para a permanência estudantil. Os autores apontam que a simples percepção dos estudantes acerca do interesse e da disponibilidade dos professores já é suficiente para aumentar a adesão ao curso. Embora os autores salientem que a iniciativa ao contato deva partir do estudante, acredito que é necessário também, por parte dos professores criarem um vínculo com seus alunos. Atividades como eventos, palestras, debates, a meu ver, são ótimos lugares para discutir ideias e criar vínculos sem a pressão de uma aplicação de conteúdo em sala de aula.

Comportamento exploratório vocacional: Os autores discutem a possibilidade de que os alunos que demonstram um caráter mais exploratório (desenvolto, extrovertido, desinibido) se relacionam mais com professores fora da sala de aula e sentem-se mais satisfeitos com suas interações sociais no âmbito da universidade. É possível que os estudantes mais exploradores e que interagem informalmente com os professores sejam também mais motivados para o cumprimento das atividades escolares.

Para concluir, os autores argumentam que, ainda que criada as hipóteses, é necessário um longo trabalho para desenvolver ligações mais diretas entre elas. Assim, poderemos saber, por exemplo, até que ponto a proximidade afetiva percebida pelos alunos em relação aos professores contribui para essa adaptação, se conversas sobre assuntos não relacionados ao curso ou profissão são também importantes, ou de que forma e em que medida essa reflexão leva a uma consolidação da identidade profissional. Mesmo assim, tal estudo nos faz perceber que a relação pessoal entre aluno e instituição tem tanta importância quanto as relações sociais que surgem a partir dela. Da mesma forma que sofremos pressão do meio social para permanecer ou evadir, também somos frutos de nossas decisões e ações perante ele.

 

 

¹ É importante ressaltar, que como argumentam os autores, a análise estatística não mostrou-se como uma forte relação causal entre as variáveis, mas é possível a partir dela discutir conjecturas e hipóteses a respeito do tema.

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