Como tornar a produção científica um terreno árido

Por Edmar M. Braga Filho

Fazer ciência em determinados contextos é extremamente desafiador, sobretudo levando-se em conta as comunidades científicas imersas em impasses de ordem geopolítica. É o caso das ciências sociais empreendidas no Irã, conforme nos mostra a socióloga Ladan Rahbari, em seu artigo Peripheral position in social theory. Limitations of social research and dissertation writing in Iran. (2015) A pesquisadora elenca vários fatores que tornam a produção científica iraniana periférica.

Com grande trânsito internacional, Rahbari é uma jovem socióloga inconformada com a situação atual da academia iraniana, impregnada print-brain50x70cmde teorias produzidas nos chamados centros (ou, alternativamente, Norte Global). Além disso, ela destaca o fato de que o Irã oferece pouca contribuição para a literatura internacional em termos de teorização. Falar em ciências sociais iranianas é, instiga a autora, falar de um material empírico de literatura produzido para testar teorias importadas, dentro das fronteiras de uma entidade política nomeada Irã.

 Muitos fatores contribuem para o subdesenvolvimento destas ciências no Irã. Rahbari os divide em dois grandes grupos: os internos e os externos. Estes últimos aprofundam o status periférico da produção científica iraniana. Primeiramente, temos o eurocentrismo e o imperialismo acadêmico, que produzem e reproduzem desigualdades na formulação e disseminação do conhecimento, especialmente de teoria social. Além deste fator, a prevalência do inglês como língua hegemônica da ciência dificulta o desenvolvimento de redes científicas além das fronteiras iranianas, dado o pouco domínio deste idioma no país. Este fato também contribui para beneficiar a produção científica ocidental, especialmente EUA e Reino Unido. Por fim, a autora destaca a situação política e econômica dos acadêmicos e do país, que tende a isolá-los internacionalmente. Prova disso é a dificuldade de viajar para outros países, sendo extremamente custoso, demorado e difícil se sua intenção é ir para um país desenvolvidoprint-brain50x70cm

Para construir seu argumento de que há fatores internos que contribuem para o status periférico da produção científica iraniana, Rahbari enfatiza o predomínio de abordagens metodológicas quantitativas, e o uso indiscriminado da análise estatística para a grande maioria das pesquisas. Consequentemente, as pesquisas de caráter mais interpretativo/qualitativo são fortemente desencorajadas, e são relativamente marginais. A principal razão para isso seria a afirmação de que apenas trabalhos quantitativos são generalizáveis. Em contrapartida, a autora elenca autores queprint-brain50x70cm defendem a possibilidade de generalização das pesquisas qualitativas, embora não seja o fim delas.

Esta recusa dos métodos qualitativos é extremamente danosa para o desenvolvimento teórico das ciências sociais iranianas. Como foi dito anteriormente, em termos de teorização a academia iraniana oferece pouca contribuição. A forma como a metodologia quantitativa é utilizada agrava essa situação, pois ela se empenha em produzir dados de segunda mão que não resultam numa grande mudança em teoria social. De encontro a essa situação, a autora afirma que abordagens qualitativas possuem um forte potencial de elaboração de novos conceitos e teorias, tendo o estudo aprofundado de realidades locais o seu ponto de partida.

Complementado o argumento sobre fatores internos, Rahbari relata o conservadorismo da academia iraniana. Acostumados à segurança dos métodos e teorias já familiarizados, os supervisores de programas de pós-graduação dificultam a formulação de novos tópicos de pesquisa que se distanciam de seus pontos de vista. O Irã, ressalta a socióloga, passa por rápidas e imensas transformações culturais e sociais – que demandam, consequentemente, teorias e métodos capazes de compreendê-las. Jovens cientistas, interessados nessas transformações, têm de lidar com muitos acadêmicos que estão preocupados em manter suas posições, por meio de tópicos seguros, fáceis, práticos e largamente aprovados, além do uso majoritário de metodologias estatísticas. Para agravar essa situação, as universidades públicas, que são em larga escala encarregadas do ensino superior no país, estão sob a supervisão direta do governo. Esta supervisão se dá por meio de comissões e instituições de segurança governamentais que previnem a emergência de novas pesquisas. Nesse contexto, questões problemáticas (politicamente) são evitadas, e a agência individual dos pesquisadores, negada.

A autora ilustra vários obstáculos que tornam a produção científica iraniana árida e estagnada. Fatores externos são responsáveis pelo isolamento da produção científica, como também pela pouca circulação de cientistas e a criação de redes. Os internos, como dito, impedem o desenvolvimento teórico da disciplina naquele país, imerso em profunda e frutífera transformação. O conservadorismo da comunidade acadêmica estabelecida, em sintonia com a supervisão estatal, dificulta a escolha dos jovens cientistas. Estes encontram muitas barreiras. Contudo, a partir do momento que há espaço para a crítica, também há para a mudança. Ladan Rahbari, jovem mulher cientista em um contexto periférico, talvez faz parte de uma nova geração de cientistas que irá contribuir para a internacionalização da ciência no Irã, como também para elaboração de teorias criativas e originais.

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