Onde se situa o tatame das ciências sociais?

Por Raphael Lebigre

Como funciona o campo das ciências sociais? O que os cientistas sociais mobilizam para disputar a hegemonia do que produzem? Até que ponto eles são autônomos diante das relações sociais em que se inserem?

No livro “Homo Academicus”, segundo Pierre Bourdieu (1984,p.106), faixa preta no combate sociológico, o campo das ciências humanas funciona pela concorrência entre os agentes do capital acadêmico (filiação institucional); e do científico, composto pelo capital do prestígio científico (pertencimento, por exemplo, ao comitê de redação de alguma revista) e pelo capital do poder político e econômico. 

O “capital” aqui é sinônimo de poder e não necessariamente de elemento econômico, como em Marx, por exemplo. Pois bem, para Bourdieu (1984, p.132), o capital acadêmico é geralmente independente do capital científico e do reconhecimento que ele traz. Ele aparece como uma forma inferior de poder. Os dois capitais diferentes são concorrentes e complementares. As chances que um grupo possui em se apropriar de bens “simbólicos”, ou seja, tudo que é produzido e circulado no mundo social depende em parte de sua posição social e do seu “habitus”. Segundo ele, o “habitus” (2007, p. 14) consiste nas classificações e práticas herdadas socialmente, isto faz os indivíduos não possuírem a consciência plena de suas classificações subjetivas e práticas que os movem na sociedade. Além do último, como é assinalado “Na Distinção” (ibid, p.136), os agentes se definem igualmente pelo capital econômico (bens materiais), cultural (bagagem intelectual) e social (rede de contatos). No “ringue” onde a ciência é produzida, os agentes se inserem já inicialmente com posições desiguais, pois são de classes diferentes e em consequência, possuem “habitus” diferentes.

Bourdieu (1976, p.117) aponta que na disputa pelo monopólio dos temas ou áreas em que atuam, os intelectuais se representam de acordo com o que produzem, o que os obriga a estarem atualizados com o que os seus concorrentes publicam em suas pesquisas afins. Senão, caso estejam ultrapassados nos debates mais atuais, eles correm o risco de ser desqualificados na disputa. Deste modo, somente os cientistas que estão no mesmo jogo detêm os meios para se apropriar simbolicamente da obra cientifica e avaliar seus méritos. Assim, o lucro simbólico, ou seja, o ganho significativo de qualquer tipo de capital por parte dos agentes no campo, leva ao interesse de determinados assuntos. Cada agente vai tentar impor seu trabalho diante de uma hierarquia social das disciplinas e dos objetos de tratamento.

A posição no campo pelo agente que ocupa uma instituição de prestigio influencia não somente no reconhecimento da qualidade e da quantidade de suas produções e contatos, mas nas virtudes que ele possui e que possibilitam suas chances objetivas de ascender ou manter-se em uma posição de privilégio no campo. Aqui, a posição de hegemonia no campo faz com que instituições dominantes possam estruturar as relações sociais para assegurar na ciência oficial sua legitimidade. Para o sociólogo  (1976, p. 124-127), a hegemonia no campo faz com que instituições dominantes possam estruturar as relações sociais para assegurar na ciência oficial sua legitimidade.

Ainda, segundo Bourdieu (1976, p.124-127), os interesses e os meios que os agentes se procuram dependem de sua posição no campo científico, isto é, do volume de seu capital científico e do poder que este lhes confere na produção e na circulação do que publicam. Os periódicos que estão vinculados a instituições acadêmicas de prestigio científico elegem o que seria um tipo de ciência legítima. Como é apontado na “Economia das trocas simbólicas” (2001, p.110), as ciências sociais ao possuírem uma autonomia relativa como qualquer campo, elas produzem e reproduzem em seu seio, de acordo com suas leis internas, os critérios que legitimam com especificidade a forma de como se produz os bens simbólicos existentes.

Bourdieu (2007, p.122) afirma que as leis presentes em cada espaço de luta são as relações sociais que estruturam a agencia dos indivíduos nos espaços de disputa. Ao agirem de acordo com o que é disputado em cada espaço de concorrência, as leis de cada campo também moldam o “habitus” dos concorrentes e o modo como devem se utilizar de determinados tipos de capital que são mais procurados do que outros. Para ele (2007, p.16), a posição dos indivíduos é igualmente estruturada pelas leis do campo científico. Assim, segundo Bourdieu (2001, p.160-161), os agentes elaboram suas estratégias de maneira semiconsciente entre eles e perante as instituições acadêmicas. Ao mesmo tempo, de acordo com o autor (2007, p.113), as leis que estruturam o processo produtivo e a publicação dos bens simbólicos, são moldadas pela posição que os agentes ocupam na estrutura do campo da produção intelectual. 

Parcialmente por essas vias, o sociólogo enxerga o tatame das ciências sociais como um espaço de tensão entre o individuo que se desloca no ringue com classificações e práticas desiguais já moldadas pelo suas condições de classe; e pelas leis de cada campo. Ao mesmo tempo, os agentes possuem a capacidade de mobilizar recursos herdados e novos. De acordo com suas posições na hierarquia do campo, eles podem modificar seu “habitus” e as leis do ringue.

Mesmo sem querer recair no velho debate da primazia entre o ovo e a galinha, arrisco dizer que para Bourdieu as estruturas antecedem as práticas particulares. Para quem quiser entrar nessa, o senhor Myiagi aconselha: “obstáculos são aquelas coisas medonhas que você vê quando tira os olhos do seu objetivo.”

Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre.(2007), “A distinção”. PortoAlegre, Zouk.

___________.(2001),“A Economia das Trocas Simbólicas”.Ed.Perspectiva, 5.ed

__________. (1984). “Homo Academicus”. Ed. Les éditions de Minuit, Paris

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