Fast-food? Não, obrigado.

Por Edmar M. Braga Filho

O conhecimento científico, em sua forma acabada e material, é publicação (seja ela papel ou virtual). Como tal, é consumida sobretudo por pesquisadores, em escala regional, nacional ou global. Espera-se, dessa forma, que a ciência progrida, já que o produto do trabalho científico é compartilhado – dados analisados, teorias corroboradas, questionadas ou descartadas. Contudo, em termos de circulação e consumo, há conhecimento científico mais relevante do que outro, se levarmos em conta o contexto geopolítico em que é produzido? Essa questão pode ser vista basicamente de duas maneiras: uma constatação que seja fruto de pesquisa prévia, logo desmistificadora e crítica; ou de forma ideológica, em que há a defesa de uma suposta universalidade, escondendo interesses particulares.

Neste mês de agosto fomos agraciados com a controversa opinião de um bibliotecário, relativamente conhecido nos mundos acadêmico e virtual estadunidenses, sobre a produção e circulação científica brasileiras. Conhecido por criar uma lista de periódicos pouco confiáveis para um pesquisador publicar (a confiabilidade dessa lista é inversamente proporcional ao número de revistas nela contida – todas open access ), o ilustre Jeffrey Beall voltou sua atenção para o portal SciELO. Em seu site, o crítico redigiu o texto “Is SciELO a Publication Favela?”  (O SciELO é uma Favela de Publicações?”).

Conhecido por sua defesa de grandes editoras comerciais de periódicos científicos, Beall afirma que periódicos open-access possuem pouco valor quando são “escondidos” e “quase não lidos por ninguém”. Sua definição de “escondido” e “ninguém” é revelada posteriormente.

“Many North American scholars have never even heard of these meta-publishers or the journals they aggregate. Their content is largely hidden, the neighborhood remote and unfamiliar.”

Dois pontos podem ser inferidos da opinião de nosso ilustre crítico: 1) o conhecimento regional não é de grande importância, pois o foco deve sempre ser internacional; 2) a concepção de internacional do autor é, evidentemente, restrita a acadêmicos norte-americanos. Além dessas questões, há outros equívocos por ele cometidos. Para ele, o SciELO não oferecere visibilidade para a pesquisa publicada. Todavia, basta dizer que o portal está indexado à SCOPUS , além de ter em média um milhão de downloads por dia. Recentemente, em parceria com a Web of Science, também foi criado o SciELO Citation Index.

À parte esses equívocos (ou cinismo), o ilustre crítico usa o termo “favela” para desmerecer a produção científica e os meios periféricos de circulação do conhecimento. Seu preconceito revela talvez sua faceta ideológica mais sinistra, e que, de alguma forma, eu diria ser reflexo de uma estrutura imperialista (para usar os termos de Hussein Alatas) de ciência empreendida no âmbito internacional. Lembremos que este autor malaio faz uma forte crítica do estado da arte das ciências sociais dos países periféricos, relatando nosso papel subalterno na produção e circulação do conhecimento científico. Ele constata a necessidade da tutela dos grandes centros para que nossa ciência se desenvolva, ressaltando o quanto esse mecanismo é danoso. Essas questões ganharam uma robustez sociológica sob o rótulo de dependência acadêmica, tendo como um de seus teóricos o seu filho, Farid Alatas. À luz dessa forma de dependência, dependeríamos, entre outras coisas, dos meios centrais nos quais o conhecimento deve ser difundido, para assim termos algum reconhecimento “internacional” (leia-se provinciano e particularista, pois esses meios são geopoliticamente restritos). Alguma ligação com nosso ilustre crítico?

Várias foram as respostas ao texto de Beall. O site da SciELO lançou uma nota, como também a Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Muitos editores de periódicos nacionais também se manifestaram (como a revista Sociologias, da UFRGS, em sua página no facebook).

Por fim, eu diria que o pensamento de Beall é uma caricatura. Enquanto tal, trata-se de um exagero de determinadas características existentes em algo – um objeto, uma pessoa, ou, no caso, de um sistema internacional de produção e circulação do conhecimento científico que privilegia determinados contextos geopolíticos e meios de circulação. Se para Beall o nosso sistema é uma “favela” (sic) de publicações, podemos dizer que por aqui não apreciamos muito fast-food enlatado. 

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6 opiniões sobre “Fast-food? Não, obrigado.”

  1. Edmar Machado, in your case, we prefer that you NOT publish in any journals from the large commercial publishers (in the unlikely event that they would accept anything from you). Please limit your work to SciELO journals where it will remain, thankfully, hidden.

    Not all of the SciELO journals are included in Scopus. Also, searches in Web of Science that include citations from the SciELO citation index receive unfavorable treatment from the ranking algorithms. That is to say, the SciELO citations almost never appear on the first page of search results — they are many pages down, hidden from the vast majority of searchers.

    1. Dear Mr. Beall,

      I was thinking about answering you in English, but I realised that you understand Portuguese (since you were able to read my text and replied it). Dessa forma, como este é um site cujo principal público é brasileiro, responderei no meu idioma.
      Primeiramente, convido-o a fazer um exercício de sair de sua província, a que o senhor refere como “boa vizinhança”, e voltar seus olhos para a produção científica que é produzida globalmente. Acredite, há vida (e muita!) fora de suas cercanias e a experiência pode ser iluminadora. O senhor pode tentar até publicar em um de nossos periódicos! Fica o convite.
      Certamente o portal SciELO possui suas limitações – na verdade desafios, que estão sendo superados a partir das críticas internas, também. Da mesma maneira, eu espero, os indexadores e editoriais comercias da sua lista estão lidando com as críticas que também recebem, constantemente, dos cientistas do mundo todo. Afinal, disso se trata a produção do conhecimento, não é verdade?

      Sincerely,
      Edmar Machado

      1. Dear Edmar:
        Thank you for your very nice response. I wish you success in all your research endeavors. If I can help in any way, please let me know.
        Sincerely,
        Jeffrey Beall

  2. Muito bacana.

    Eu lembro que o Scielo foi o site em que comecei minhas pesquisas na graduação. Se não fosse pelo Scielo, nunca conseguiria aprender a fazer pesquisas, procurar fontes, procurar bons artigos e etc.

    Aliás, sempre que algum acadêmico estadounidense vem falar sobre a falta de internacionalismo na academia brasileira, é incrível como ele se acha o centro do universo.

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