Produção científica na internet. Como e onde escrever seu texto?

Por Leonel Salgueiro,

     Quais as diferenças entre escrever um texto para revistas científicas e escrever para plataformas digitais, como blogs e sites? Há uma fórmula para o sucesso do seu texto em ambos os lugares? No seu artigo How to write a good article? a socióloga Eloísa Martín, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresenta alguns pontos que devem nos guiar na publicação de artigos em revistas científicas. Algumas destas dicas também podem, a meu ver, ser incorporadas às formas de publicação online. Levando em conta a importância de tais mídias, como afirma o filósofo irlandês John Danaher, hoje iremos contrastar as formas de escrever um bom texto nas plataformas online comparando as revistas científicas.

     No início do seu artigo, Martín argumenta que não existe o que se possa chamar de um bom artigo, pois ele não é somente evidenciado pelo conteúdo tratado. É necessária uma adequação da escrita ao lugar onde se deseja publicar. Segundo ela você precisa produzir um trabalho específico para uma revista específica. A estrutura textual, o conteúdo e o próprio desenvolvimento seguem um modelo para cada revista. Na minha opinião, essas diferenças também abrangem o universo virtual. Quando produzimos textos em blogs, sites ou até mesmo redes sociais, devemos nos adaptar ao universo em questão levando em conta o público que queremos alcançar.      Martín salienta que é importante: 1) decidirmos se queremos publicar em revistas regionais, nacionais ou internacionais; 2) prestar atenção ao escopo da revista, sendo generalistas, ou seja, com publicações de diferentes assuntos, ou especializadas, concentrando-se em algum; 3) utilizar o formato de texto próprio da revista, sendo IMRaD (Introduction, Methodology, Results and Discussion) ou IBC (Introduction, Body and Conclusion).

     Embora pareça surgir uma oposição entre produzir para revistas e para um público com resposta direta na rede, os textos publicados online, na minha opinião, passam por submissões parecidas, mesmo que manifestada de forma diferente. Não produzimos um texto sobre cultura pop para um blog de receitas culinárias, pois sabemos que são temas diferentes. Assim como nas revistas, as plataformas digitais também se enquadram em categorias generalistas ou especializadas. O “Facebook” e o “Twitter”, por exemplo, são ótimos ambientes para divulgação de material generalizado. Contudo, quando adaptamos o formato do texto para o público que desejamos atingir, a estrutura textual pode, ou não, respeitar a norma IMRaD e IBC. Por vezes recebemos no e-mail do Circuito textos com uma discussão científica relevante contendo meia lauda. Sendo assim, penso que a estrutura textual na internet está diretamente relacionada tanto ao público quanto a plataforma que irá transmiti-la.

     E o que devemos evitar? A socióloga ressalta alguns erros comuns que os pesquisadores podem cometer ao enviarem artigos para submissão em revistas. Segundo ela, devemos evitar o modelo de pesquisa escolar. Com marcadores copiados e colados do PowerPoint, textos separados por títulos como “Hipótese” e “Objetivos” e o próprio “ctrl+c / ctrl+v” como técnica textual. Assim como evitar artigos descritivos sem uma questão sociológica abrangente. Não aderindo às diretrizes de submissão, por vezes escrevendo além do máximo permitido. E submeter sem estar consciente das dinâmicas da revista ou de suas políticas editoriais, o que, segundo Martín, não só é uma falta de etiqueta como demonstra se você está, ou não, interessado em publicar naquela revista.

     Assim, comparando as ideias da autora, penso que quando publicamos online, além da preocupação em não produzir o modelo de pesquisa escolar, devemos nos preocupar em caminhar sem tombar para o lado da opinião particular e do “achismo” (senso comum), ou para a escrita rebuscada que não cria pares com os leitores. A linguagem acadêmica deve, por vezes, ser evitada no ambiente online. Devemos levar em consideração que produzimos para fora dos muros da instituição, sendo assim, a escrita didática será muito melhor aceita. Mas devemos prestar atenção na diferença entre o que é interessante e relevante.

     Segundo Martín, nenhum artigo se faz relevante por si só. Relevância tem a ver com o público que você pretende atingir, os autores com quem você está debatendo e com a bibliografia específica que serve como um terreno comum para as discussões entre você e seus leitores. A autora argumenta que a relevância repousa em três pilares: a construção de um debate abrangente sobre o tema; o desenvolvimento da ideia na revista (levando em consideração o que já foi discutido) e o impacto de suas ideias no público da revista.

     Enquanto que, a meu ver, nas plataformas virtuais, o caráter entre interessante e relevante por vezes se confunde e essa discussão aumenta a cada dia. Fazendo com que textos em redes sociais, blogs ou sites que não parecem ter relevância científica tenham proporções abissais de visualizações e discussões calorosas entre seus leitores. Mas vale ressaltar que embora não possuam relevância científica, segundo o modelo de Martín, tais textos possuem uma atratividade para seus membros, sendo entendidos e gerando discussões e debates de opiniões.

     Por fim, como afirma Danaher o ponto mais relevante na produção virtual é o crescimento do próprio saber individual. Quando escrevemos, produzimos e avaliamos textos, adquirimos uma prática que nos permite uma adaptação a diferentes modelos de escrita. Todavia, para isso não só a escrita, como também a leitura torna-se um elemento principal no desenvolvimento. Como afirma Martín, para ser um autor de sucesso, você deve ser um bom leitor e um revisor comprometido. Você precisa ser uma parte ativa do esforço sociológico coletivo.

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Uma consideração sobre “Produção científica na internet. Como e onde escrever seu texto?”

  1. É interessante isso. No Colunas Tortas, eu comecei a me tornar um leitor atento aos detalhes quando precisei revisar textos de outros e, a partir dessa tarefa, também comecei a ficar mais atento aos meus próprios textos, passando a revisá-los, coisa que eu pedia para amigos.

    Acredito tb qur nao devemoa só nos adequar ao meio, mas também, sempre que possível, devemos ditar algumas regras, afinal, o meio que nos adequamos eh sempre um campo de lutas, né?

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