Ciências, no plural

Por Edmar M. Braga Filho

A ciência, enquanto atividade social, deve ser vista de forma singular ou plural? Será ela homogênea em sua produção, circulação, consumo e finalidade? Para Terry Shinn, pesquisador da Maison des Sciences de l’Homme, Paris, a ciência é uma atividade plural, que comporta modos de produção e difusão heterogêneos, os quais o autor denomina regimes de produção e difusão de ciência.

Cada regime é historicamente datado, e sua gênese corresponde, para Shinn, a contextos políticos, econômicos e cognitivos específicos. Desta forma, a ciência é uma prática heterogênea, composta de múltiplos regimes, com fronteiras internas (entre os próprios regimes), e externas (com a sociedade mais ampla). A travessia entre fronteiras não é só possível, como é constante. Isso, contudo, não afeta a autonomia de cada regime de produção e difusão. Para Shinn, cada regime possui uma divisão de trabalho específica, uma organização própria, bem como regras, hierarquias, empregos, clientela e resultados distintos.

A disciplina é um regime que remonta ao século XIX, e continua em

Newton: exemplo de gênio que precede o surgimento das disciplinas.
Newton: exemplo de gênio que precede o surgimento das disciplinas.

expansão nos dias de hoje, apesar do recente apelo à chamada interdisciplinaridade. Produtos da modernidade, as disciplinas são acompanhadas de processos de burocratização da autoridade, das hierarquias, do trabalho e de produção. Em sua forma dual, a disciplina reproduz o conhecimento na forma de ensino, por um lado, e produz conhecimento original por meio de pesquisa, por outro. Elas são, além disso, sólida e historicamente assentadas nas universidades, bem como em institutos dedicados à pesquisa pura. Auto-referente, a disciplina se retroalimenta endogenamente, e seu produto é avaliado e consumido entre e por pares.

Distinto em muitos aspectos do anterior, o regime utilitário não é auto-referente, sendo seus produtos artefatos tecnicamente válidos, úteis e vendáveis. Tendo sua gênese ligada às escolas de

École polytechnique: um dos lugares em que nasceu tal regime.
École polytechnique, Paris: um dos lugares em que nasceu tal regime.

engenharias, sua produção e difusão são mais contingentes a fatores exógenos, como a economia. Há uma convergência com o regime disciplinar, uma vez que este é a referência daquele (por exemplo, nos âmbitos da física e química). Além disso, não é restrito às universidades e aos institutos de pesquisa, embora possa ser visto sob algumas formas disciplinares, como departamentos universitários e sistema de avaliação e consumo por pares.

O regime transitório é uma espécie de fusão entre os dois regimes anteriores, destacando-se não só pela convergência, mas também pelo trânsito de características disciplinares e utilitárias. Isso

William Thomson, também Lorde Kelvin: uma figura pioneira, na visão do autor, do regime transitório.
William Thomson, também Lorde Kelvin: uma figura pioneira, na visão do autor, do regime transitório.

possibilita a emergência da figura do cientista empreendedor, cuja vida profissional é permeada pela interface vida acadêmica x mercado. Vale destacar que não é apenas uma questão de trajetória profissional, ou união de regimes distintos. É um modo de se fazer ciência que se beneficia de características dos dois regimes, criando um modo de produção e difusão específico. O autor destaca que, na opinião da maioria dos sociólogos da ciência, este é o regime que mais está ganhando espaço na sociedade, sobretudo nos EUA.

Por fim, o regime transversal. Neste, o autor chama a atenção para a forte convergência com os outros regimes. Sua produção está voltada para as “divisas genéricas”, ou seja, instrumentos capazes de se adaptarem aos mais diferentes usos, seja para o mercado, para a pesquisa científica, forças armadas, entre outros. A produção é denominada pelo autor como “tecnologia de pesquisa”, e, ao contrário do que ocorre no regime utilitário e disciplinar, o foco se dá nas “leis de instrumentação”, sendo o artefato produzido adaptável a múltiplos contextos (e não, como no utilitário, a uma necessidade restrita). O caráter genérico e os princípios da instrumentação constituem seu padrão de realização, e não as leis da natureza e as distintas disciplinas.

A cibernética é considerada por muitos autores como um instrumento conceitual genérico.
A cibernética é considerada por muitos autores como um instrumento conceitual genérico.

Com o exposto, constata-se que há, nos termos de Shinn, distintas formas de ciência, em que tanto a produção, quanto a circulação funcionam diferentemente. Cada regime possui sua autonomia, o que não implica uma segregação. Antes, conforme o argumento central do autor, o observado é que tanto a diferenciação quanto a integração são faces da mesma moeda.

Excursos

O tema do surgimento das disciplinas foi tratado, também, por Foucault (A ordem do discurso), em termos muito parecidos com os de Shinn (embora não faça referência). A diferença é que o último o trata sob aspectos mais sociológicos, ao passo que o primeiro vê as disciplinas como uma operação interna de controle discursivo, também historicamente datada.

Será a disciplina tão autônoma e auto-referente conforme aponta Shinn? Embora não demonstre fazer, seria possível considerar, metodologicamente, o regime disciplinar enquanto tipo ideal, o que permitiria dizer que há gradações de autonomia, de forma a compreender como o fenômeno acontece em sociedade. Como não o menciona, fica a dúvida: a autonomia da disciplina efetivamente ocorre, dada a configuração da atividade científica disciplinar cada vez mais estruturada sob os ditames de produtividade, “utilidade social” e outras características do mercado?

Sua análise é centrada nos limites do Estado-nação (tanto no surgimento dos regimes, quanto em suas configurações atuais), unicamente nos países que eu chamarei de centrais (Inglaterra, EUA, França e Alemanha). Seria interessante um olhar globalizado (se levarmos em conta a formação dos regimes), como também transnacionalizado (se levarmos em consideração contextos periféricos mundias, e seu papel num provável sistema científico mundial). Como serão os arranjos desses regimes num contexto de (inter)dependência de produção e circulação da(s) ciências(s)?

*Obra da capa: An experiment on a bird in the Air Pump (1768), de Joseph Wright of Derby. Representa o alvorecer do pensamento científico.

Anúncios

3 opiniões sobre “Ciências, no plural”

  1. Vou procurar este livro do Terry Shinn. Na verdade, tenho bagagem na análise de Foucault, da ciência como discurso de verdade do século XVIII pra frente.

    Você até consegue reparar que todas as obras de Foucault tratam da emergência das ciências mais ou menos na época da revolução francesa.

    Aliás, quando você fala da disciplna, “A disciplina é um regime que remonta ao século XIX, e continua em expansão nos dias de hoje, apesar do recente apelo à chamada interdisciplinaridade. Produtos da modernidade, as disciplinas são acompanhadas de processos de burocratização da autoridade, das hierarquias, do trabalho e de produção.”, me faz lembrar de Bourdieu e da análise do próprio “modo de produção” da ciência. Terry Shinn bebe de Bourdieu ou essa aproximação é distante?

    1. Olá, Vinicius. Obrigado pelo comentário.
      Você tem toda razão. Ele tem um forte diálogo com Bourdieu. Inclusive, ele começa o artigo afirmando “Este artigo é uma contribuição à perspectiva crítica da sociologia da ciência, introduzida e desenvolvida por Pierre Bourdieu”. Ele procura desenvolver uma ideia de heterogeneidade do campo científico, insuficiente na análise de Bourdieu.

      O artigo dele está no link do seu nome no primeiro parágrafo. Descobri outras coisas dele no scielo, incluindo entrevistas. Vale dar uma olhada.

      Abraços,
      Ed

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s