A parentalidade na academia.

Por Leonel Salgueiro,

Quando pensamos no universo acadêmico, qual o impacto da maternidade e da paternidade sobre os profissionais do meio? Filhos são benefícios ou malefícios à carreira profissional? Seria a falta deles uma lógica direta da dedicação exclusiva e do crescimento profissional? O tema permeia o artigo da socióloga Lucila Scavone, “A maternidade e o feminismo: diálogo com as ciências sociais”, além de aparecer em outros textos já citados no Circuito, como a tese da socióloga Marina de Carvalho Cordeiro “Você tem tempo?” e no artigo de Léa Velho e Elena León “A construção social da produção científica por mulheres”. De fato, o tema tem tamanha influência na discussão de gênero e meio acadêmico que me parece mais do que na hora de discutirmos suas repercussões e as maneiras que os cientistas sociais estão lidando até o momento.

Segundo Scavone, as teorias da filósofa Simone de Beauvoir no livro “O Segundo Sexo” foram de grande importância para as discussões sobre maternidade. Nas palavras da autora, as teses deste livro sobre liberdade sexual e liberação das práticas de contracepção e de aborto podem ser consideradas um marco da passagem do feminismo igualitarista para a fase do feminismo “centrado na mulher como sujeito”, dando os elementos necessários para a politização das questões privadas, que eclodiram com o feminismo contemporâneo. Um dos elementos radicais desta politização relacionava-se à maternidade, isto é, refutar o determinismo biológico que reservava às mulheres um destino social de mães. A maternidade começava, então, a ser compreendida como uma construção social, que designava o lugar das mulheres na família e na sociedade, isto é, a causa principal da dominação do sexo masculino sobre o sexo feminino.

Outro evento orientador na desconstrução da dominação masculina são as novas tecnologias reprodutivas e os métodos contraceptivos. As analises antropológicas de autoras como Naara Luna, Rosely Costa e Fabíola Rohden a respeito do tema articulam a noção do que é natural e biológico com o que construímos como cultural e social, abrindo espaço para a discussão de novas formas familiares. Com o tempo saímos do modelo único de família nuclear, constituído por um pai, uma mãe e um casal de filhos para convivermos hoje com uma diversidade familiar. Diversidade essa que já carrega em si, nos conceitos durkheimianos, suas próprias representações coletivas a respeito dos papeis de seus membros, desempenhados nas diferentes esferas sociais.

Neste sentido as ideias de Émile Durkheim sobre fatos sociais e representações coletivas desempenham, ao meu ver, um papel principal no debate dos textos. Porque aplicamos atributos e estigmas a sujeitos de forma inconsciente, coletiva, criando diferentes formas de coerção aos que fogem do molde nuclear e patriarcal. São eles (fatos sociais) que permitem, por exemplo, aos entrevistados da socióloga Marina Cordeiro atribuírem o sucesso profissional de uma mulher solteira e sem filhos a comportamentos masculinos (esfera pública) – sendo ríspida, decidida, insensível e centrada no trabalho – e estigmatizar o sucesso de uma mulher casada e com filhos, pela má administração do lar (esfera privada).

Partindo desta ideia, em todos os textos, tanto nas falas dos entrevistados como nos tipos ideais dos sujeitos tratados, determinadas situações na realidade dos acadêmicos despertam atenção a forma como estes profissionais entendem o sucesso na carreira. Tanto na tese de Cordeiro como no artigo de Velho e León, o alcance do sucesso na academia deriva de uma administração do seu tempo – profissional e pessoal – colocando dois fatores inversamente proporcionais: família e profissão. Sendo assim, quanto mais tempo dedica-se ao trabalho, menos terá para a família e vice-versa.

Ora, quando pensamos que a inserção da mulher na vida pública e o questionamento de um determinismo biológico apresentaria um impacto em suas realidades, entendemos que no processo algo não se concretizou. A representação coletiva do que é ser mulher ainda luta por desvencilhar-se da esfera privada. Assim, a lógica de dedicação inversa entre trabalho e família quando aplicada às mulheres também é acompanhada da reprodução de que seu desempenho profissional não deve interferir no familiar. Enquanto que aos homens tal proximidade da esfera pública é cobrada do todo social, levando Cordeiro a ressaltar que segundo o PNAD de 2009 os homens gastam 9,5 horas por semana em afazeres domésticos enquanto as mulheres ocupam 22 horas.O dispêndio de horas femininas nesses afazeres é ainda maior segundo a presença e idade dos filhos: são 31,9 horas por semana entre mulheres com filhos e 18,2 horas entre aquelas que não os têm; e o número tende a ser maior quanto mais jovem for a criança, sendo mais alto entre as mães com filhos até 2 anos de idade,correspondendo a 34,7 horas semanais.

Se tal lógica para o sucesso profissional beneficia os homens, exerce por outro lado um grau de competitividade e hierarquia entre as mulheres. Diferentes são as categorias de ser mulher, tratadas nos textos, que obedecem uma lógica de menor ou maior proximidade com a esfera privada. Sendo assim, mulheres solteiras, solteiras com filhos, casadas e casadas com filhos batalham entre si para angariar títulos na academia ou estagnar-se em determinado setor que lhe garanta uma jornada dupla entre família e pesquisa. E mesmo que assim optem, como afirma algumas entrevistadas por Cordeiro, a atribuição de cuidado a família e aos filhos passa a ser um suicídio acadêmico enquanto que a falta deles é vista como a incompletude amorosa e sentimental.

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