Utopia e Imaginação Sociológica

Por Raphael Lebigre

Em 2011 ocorreu o G8 em Deauville, na França. Como em cada ano, o conselho das potências que estão na vanguarda do capitalismo se reuniu para discutir e traçar entre si as diretrizes de cooperação política, econômica e cultural. Nos dias do encontro, foi surpreendente como as redes televisivas europeias enfatizaram o discurso do presidente dos EUA, Barack Obama, segundo o qual “o Ocidente deveria se sobrepor novamente ao mundo”.

Naquele momento, ficou clara a insegurança da Europa/EUA em manter suas posições de hegemonia diante de um tabuleiro global profundamente reformulado. E esta demarcação geopolítica se estende, claro, à esfera das ciências sociais.

No passar das páginas da história colonial, intelectuais de países periféricos denunciaram a dominação vigente de seus locais geográficos. Tais sujeitos propuseram remodelar as bases do conhecimento humanístico local com os de fora, como no século XIX, Afghani no Irã e no início do XX, Carlos Mariátegui no Peru e Frantz Fanon na guerra da Argélia.

Hoje, sociólogos do Sul Global, tais como Raewyn Connell e Jean Commarroff defendem uma narrativa sociológica global aberta também às experiências dos países periféricos. Os autores compreendem que os resíduos da dominação política entre as potências e as “colônias” permaneceram. Tal visão reabre as vias alternativas de uma mudança não somente da nossa “imaginação sociológica”, como dizia Wright Mills, mas igualmente de projetos políticos diferentes daqueles do Norte Atlântico.

Mas, até que ponto é viável pensarmos alternativas da nossa imaginação sociológica periférica, que sugiram um modelo de sociedade diferente, na esfera do capitalismo, daquele criado na Europa/América do Norte?

No século XVI, Thomas Morus concebeu o ideal de sociedade como a “utopia” ou “lugar nenhum”, em grego. Durante a Revolução Francesa, Saint Simon, em sua “religião da ciência”, idealizou um projeto político modernizante que daria prioridade ao “social”. Karl Marx, no seu embate conhecido contra os neo-hegelianos, sugeriu que não é a consciência social que determina a prática do homem sobre a realidade, mas o inverso. Para ele, se as ciências sociais representam uma atividade de apreender o mundo que é pensado, não haveria, portanto, uma separação entre o ato de pensar e a atividade política, mas uma síntese. Pela via da “práxis”, os seres humanos seriam dotados da capacidade de mudar o presente. Tal alteração mundana consistiria em desvencilhar as amarras da exploração dos trabalhadores laborais e criar um projeto de sociedade novo, que incluísse a todos.

Por sinal, é curioso como na Academia estamos tão acostumados em tratar “objetivamente” os autores, que por reflexo, tendemos a fazer uma cisão, talvez pós-positivista, do que seria “o lado sociológico” e o “lado político”  ou “ideológico” de cada um. Nessa discussão, é comum  levarmos em conta o primeiro, enquanto que o outro é velado. O que na prática não deixa de ser problemático, visto que cada intelectual é no fundo o mesmo, seja na Universidade ou fora dela.

Émile Durkheim, por exemplo, apesar de não ter se exposto aos movimentos sociais, ele já denunciava a necessidade de domesticar a economia pelo Estado. Era o que o mesmo chamava de “socialismo”. Contemporâneo de Durkheim, Max Weber, na Alemanha, convergia na defesa pelo que chamamos hoje de “social democracia”, e contribuiu na redação da constituição de Weimar, em 1919. Apesar de ambos terem acreditado que o capitalismo era o sistema mais viável, os dois eram pessimistas em relação a ele, e não deixaram de pensar como adestrá-lo criativamente.

Assim, levando-se em conta os cânones da disciplina, é fato que as ciências sociais foram criadas na Europa como ferramentas intelectuais para tentar alterar os caminhos do processo de pauperização, ou “moinho satânico”, como dizia Karl Polanyi, que a industrialização trouxe.

Edgardo Lander, em seu artigo “A colonialidade do poder”, aponta que o fenômeno de dominação histórica do Norte Atlântico diante do Sul Global traz em si uma disciplina sociológica criada no seio do liberalismo. O autor desvela os pilares fictícios da universalidade desse tipo de pensamento ao enxergarmos nossa realidade como diferente da do centro dominante.

Ele, ao viver na Venezuela, país apoderado historicamente por oligarquias estreitamente vinculadas à dominação estadunidense, visa uma descontinuidade com o “status quo”. Lander nos abre alguns caminhos para um projeto político e intelectual novo e “emancipado” de sociedade.

Porém, se o autor consegue atingir algumas raízes do saber sociológico moderno, e desnaturalizar algumas das amarras das ciências sociais, ele não consegue delimitar o que seria “colonizador” e o que não seria “imperialista” nas bases do pensamento ocidental.

Embasado no malaio Hussein Alatas, creio que seja não somente viável como imprescindível reformularmos o pensamento estrangeiro com o local, para que não fiquemos “cativos” do mesmo.  Como aponta Marshall Sahlins, em seu belo artigo “O pessimismo sentimental”, no mundo globalizado é fundamental concebermos as narrativas daqueles que foram e ainda são colonizados, porém que também são capazes de se reinventarem, como sujeitos de sua própria história.

Atualmente, uma disciplina sociológica aberta à pluralidade de vozes dos países periféricos tende a se tornar mais presente. Não é a toa que, por exemplo, a “International Sociological Association” tem agora pela primeira vez uma socióloga mulher e do Sul Global como presidente, Margharet Abraham.

Se, oriundos dos países periféricos, não deixamos de fazer um esforço em alterar nossa “imaginação sociológica”, proponho, no presente, como o fez Florestan Fernandes em seu tempo, pensarmos igualmente em projetos políticos autônomos, enraízados nas nossas necessidades culturais.

Talvez, no final das contas, a “utopia” não esteja tão longe quanto nos parece do Norte…

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