Mulheres na Ciência – a discussão pela ordem social.

Por Leonel Salgueiro,

É possível falar em igualdade de gênero no campo científico atual? Em seu artigo “A construção social da produção científica por mulheres”, as autoras Léa Velho e Elena León questionam, em 1998, a premissa de que em diferentes áreas do conhecimento científico as mulheres não são reconhecidas por produzirem menos que os homens. Para isso as autoras coletaram dados e entrevistas de pesquisadores(as) em quatro áreas da Unicamp: Biologia, Física, Química e Ciências Sociais.

É inegável alguma mudança, pelo menos do ponto de vista das ciências sociais, sobre as conquistas femininas ao longo destas quase duas décadas pós-escrita do artigo. Mas como argumentam as autoras em um prognóstico, a tendência, segundo os dados coletados, é a estagnação da maioria das mulheres em posições inferiores aliada ao pensamento de que para conseguir o sucesso é necessária uma dedicação maior e mais qualificada que qualquer homem.

Analisando a construção social que envolve a sociedade atual, é impossível deixar de ressaltar que o modelo de sociedade patriarcal em que vivemos têm impacto nas escolhas dos jovens que optam pelo ensino superior. As autoras argumentam que são atitudes de pais e professores, por exemplo, que vão desde cedo alocar homens e mulheres em seus determinados papeis sociais. Sendo os homens mais elogiados e encorajados a seguir as ciências exatas, medicina, física e química, enquanto as mulheres são doutrinadas ao espaço privado e a educação. O que penso ser a própria discussão do contrato sexual (PATEMAN, 1995) que direciona os homens para a esfera pública e as mulheres para a esfera privada que continua funcional no sistema social.

De fato, as autoras encontraram que destas quatro disciplinas, há uma tendência a que as mulheres se voltem às ciências sociais e à biologia e estejam em uma escala bem menor na física e química. A biologia por sua vez, vista por uma das entrevistadas como uma solução para as mulheres que queiram cursar medicina, mas que não se sentem capazes para tal curso. Enquanto que as ciências sociais receberam pelas autoras a pior categorização no que diz respeito à formação das professoras, pois do seu total de docentes, 24% delas haviam sequer conseguido seu título de doutorado na época da coleta dos dados.

No que diz respeito ao espaço e títulos ocupados pelas mulheres na Unicamp, as autoras averiguaram que em todos os cursos os homens ocupam em maior número as posições de titulares e as mulheres tendiam a estabilizar-se em posições adjuntas ou áreas administrativas. Embora os dados revelem esta diferença, a premissa da pouca produção científica como definidor de sua posição nos cursos se faz verdadeira? As autoras entendem que tal pergunta foi bastante relativizada por teóricos que procuram entender as motivações e os contextos destas produções. Tais estudos apontam a importância de considerar fatores como processos de socialização de papéis sexuais, conflitos entre família e trabalho, níveis de investimento na educação feminina, além de mecanismos, alguns claros e outros sutis, de descriminação.

Em meu trabalho “Diferenças de gênero nas publicações acadêmicas: desafios para a internacionalização da Sociologia brasileira” foi possível constatar que atualmente, mesmo que afetadas por uma pressão familiar e outros diferentes conflitos, as mulheres tendem a publicar tanto quanto os homens, apresentando uma diferença estatística pouco considerável, derrubando a tese de pouca produção na sua própria formulação estatística. Enfatizo que tais dados são referentes à área de Sociologia.

publicaçõesSobre as três áreas – Física, Química e Biologia – as autoras argumentam que as mulheres não apresentam tendência de publicar nos canais de comunicação científica “menos nobres”. Pelo contrário, tanto na física como na química, as mulheres participam da produção de artigos em periódicos internacionais – indexados pelo SCI (Science Citation Index) e, portanto, considerados como o tipo de produção científica mais relevante – em proporções significativamente maiores do que seria esperado.

Como ressaltam algumas entrevistadas, a tarefa dupla entre família e trabalho é um dos responsáveis pela estagnação. A produção fica por conta de uma “disciplina” em saber administrar as duas funções. Enquanto que aos homens é atribuído, ou subtraído, as tarefas do lar. De fato, entende-se a função do homem no lar como uma “ajuda”, o que significa que suas tarefas não são de sua obrigação, mas sim atos de boa vontade e que o fazem porque são “bondosos”. E me parece que por serem tratados pelo meio social de tal forma é fácil aos homens a dedicação exclusiva ao trabalho (público).

Por fim, analisar a participação das mulheres na vida acadêmica não é uma tarefa que pode ser mensurada exclusivamente por comparações estatísticas. Para isso devemos levar em consideração a construção social e as dificuldades formadas para enquadrá-las em posições ou áreas especificas. Tantas são as variáveis interagindo – área do conhecimento, país, tipo de instituição, idade das mulheres, sorte, tipo de criação – que é difícil chegar a alguma conclusão definitiva. Mesmo assim, as autoras entendem que é fundamental questionar por quais meios são realizadas tais mudanças na perspectiva de gênero.

BIBLIOGRAFIA:

PATEMAN, Carole. The sexual contract. Stanford University Press, 1988.

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s