A crítica da crítica: será o pós-colonialismo suficiente?

Por Edmar M. Braga Filho

O pós-colonialismo pode ser sinteticamente definido como uma matriz teórica crítica heterogênea que atenta para as relações entre produção do conhecimento e dominação política. Essa corrente teórica faz uma crítica epistemológica contundente às categorias ocidentais, revelando suas imbricações com o colonialismo europeu empreendido na Ásia e na África. Contudo, em que medida a crítica pós-colonial é suficiente para o contexto latino-americano, tendo como referência nossas especificidades sociais e históricas?

Para Gustavo Lins Ribeiro (2014), é preciso um diálogo crítico com o pós-colonialismo. O autor identifica essa matriz teórica como sendo uma cosmopolítica contra-hegemônica. Cosmopolíticas são definidas por Ribeiro como “discursos e modos de fazer política que se preocupam com seus alcances e impactos globais”. Neste sentido, ele considera problemática a utilização acrítica do pós-colonialismo como rótulo por autores latino-americanos, uma vez que podem gerar categorizações que “implicam uma essencialização ou uniformização do outro”. É necessário, com isso, analisar as condições de produção, disseminação e recepção do pós-colonialismo, de forma a julgar sua validade para nosso contexto.

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Posição teórica e política partilhada sobretudo por intelectuais advindos das antigas colônias britânicas, o pós-colonialismo teve sua origem nos estudos literários, por meio dos quais se desenvolveu e ganhou visibilidade global, já que de língua inglesa. Dois pontos problemáticos são levantados pelo autor aqui. O primeiro diz respeito à forma literária de tais estudos, baseados no potencial hermenêutico das metáforas, substituto da “realidade social e da pesquisa metodológica concreta no âmbito das ciências sociais”. Outro ponto problemático para o autor reside no fato de o pós-colonialismo ter ganhado visibilidade mundial, e na América Latina em particular, após sua recepção e consumo nos países anglo-americanos.

“Se a análise do discurso colonial e a teoria pós-colonial são vistas como ‘críticas do processo de produção do conhecimento sobre o Outro’ […] seria no mínimo irônico que o pós-colonialismo, com sua trajetória marcada por seu crescimento e por sua proliferação na academia de língua inglesa, colonizasse – se me permitem o jogo de palavras – o espaço vazio criado pela ausência de cosmopolíticas latino americanas e se tornasse um discurso de produção do conhecimento sobre o Outro latino-americano.”

Historicamente, o período pós-colonial latino-americano aconteceu no início do século XIX, diferentemente do ocorrido nas ex-colônias africanas e asiáticas, cujo imperialismo perdurou até a década de 1970. Com o último suspiro do imperialismo moderno, o mundo passou por transformações das ordens política e econômica que alteraram as configurações imperiais vigentes até então: paradoxalmente à criação dos últimos Estados-nação, o “nacionalismo começou a sentir a presença de tendências transnacionais ainda mais fortes”. O capitalismo flexível, a intensa compressão do espaço-tempo, o papel das corporações multinacionais e o pós-fordismo mudaram a conjuntura mundial, agora unipolar, tendo os EUA como potência hegemônica.

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Pós-imperialismo seria, para o autor, essa situação atual, em que que os Estados-nação são obrigados a lidar “com um nível superior de integração: o transnacionalismo”. Aqui entra a América Latina. Nos Estados-nação latino-americanos predomina o pós-imperialismo, exigindo outras necessidades interpretativas e de pesquisa. Ele enfatiza que, se para o pós-colonialismo deve haver uma agenda de “provincialização da Europa”, nos termos do pós-imperialismo é crucial “provincializar os EUA”. Além de caracterizar esse período de supremacia norte-americana, o termo “pós-imperialismo” também designa as reverberações políticas do termo “imperialismo” na atualidade, como também aproveita as ressonâncias críticas associadas à expressão “pós-colonialismo”, e todas as suas ambiguidades. Por fim, Ribeiro quer fomentar a ideia, um tanto irônica, de que o pós-imperialismo é o lado latino-americano da moeda na qual se encontra o pós-colonialismo”.

Uma pesquisa pós-imperialista requer, entre outras coisas, a compreensão sobre a “sociedade norte-americana a partir de uma perspectiva latino-americana, uma inversão de um fluxo quase colonialista que prevalece na vida acadêmica e científica”. Entender a ligação de nossas elites ao capitalismo transnacional e a apropriação dos subalternos no mundo econômico e cultural dos EUA torna-se central.

Enquanto cosmopolítica contra-hegemônica, o pós-imperialismo necessita de articulação com outras cosmopolíticas para ser efetivo. Essa é uma grande característica que o autor quer frisar. Seu ponto não é que o pós-colonialismo deve ser descartado, mas sim que um diálogo crítico deve ser estabelecido e redes transnacionais criadas. O que é inaceitável, para Ribeiro, é a “pretensão imperial de universalismo, venha do Norte Global ou do Sul Global”.

A última crítica de Ribeiro à perspectiva pós-colonial reside no fato de que ele considera haver outros macroprocessos estruturadores além do colonialismo, como o indigenismo e o nacionalismo, além daqueles advindos do globalismo. O colonialismo não deve ser a principal força histórica, o que geraria um determinismo e uma “panaceia interpretativa”. Ironicamente, vale lembrar que os EUA são uma ex-colônia britânica também. Para Ribeiro, a partir do momento em que colocamos o colonialismo, e não o capitalismo, como o foco de análise, “subestimamos a importância atual dos Estados-nação e suas elites”. Além disso, outras forças atuam na configuração de um Estado-nação, e seus diversos impactos sociais, como o nacionalismo, conforme observado no Brasil em meados do século XX. Observa-se, assim, uma nacionalidade do poder, paralela à colonialidade do poder, e à globalidade do poder.

A construção de Brasília e a transferência da capital brasileira para o interior do páis representou um projeto pós-imperialista marcado por outras forças históricas, como o nacionalismo
A construção de Brasília e a transferência da capital brasileira para o interior do país representaram um projeto pós-imperialista marcado por outras forças históricas, como o nacionalismo

No cenário das elites políticas e economias atuais do Brasil, o autor defende que deve haver uma necessidade de horizontes utópicos pós-imperialistas. Particularmente, acho frutífero o diálogo entre a epistemologia crítica do pós-colonialismo no âmbito das ciências sociais, e a agenda de pesquisa pós-imperialista delineada pelo autor.

REFERÊNCIA

RIBEIRO, Gustavo Lins. Outras Globalizações: cosmopolíticas pós-imperialistas. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2014.

Ilustração da capa: pintura de René Magritte, Not to be reproduced

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