As teorias sociais do Sul Global e as clivagens pós-coloniais

No livro “Southern Theory: Social Science And The Global Dynamics Of Knowledge”(2007)Raewyn Connell atenta de maneira pertinente a urgência das ciências sociais, em escala global, serem tecidas tanto pelas experiências dos países periféricos, quanto pelas da Europa/América do Norte.

Em seu oitavo livro publicado, a proeminente intelectual australiana externaliza no campo do saber sociológico o seu acúmulo de experiência científica vinculada à subalternidade, seja ela geográfica ou de gênero. A pesquisadora da Universidade de Sidney, conhecida por seu pioneirismo no estudo da “masculinidade”, está inserida na Austrália, país repartido entre o hemisfério Norte e Sul. A “Terra Nullius”, ou terra de ninguém, nas palavras da autora, tem uma cultura especialmente bifurcada entre a tradição anglo-saxã, tradicionalmente próxima ao Norte-Atlântico, e a outra vinculada ao continente pacífico, mais próxima dos países do Sul Global.

O título do livro, “Southern Theory” sugere de imediato ao leitor a atenção de Connell na produção intelectual dos países periféricos. Para ela, o conceito geográfico traz consigo a relação desigual de poder, entre o hemisfério “Norte” e “Sul”. Isso não impede, porém, que haja desigualdades de poder dentro de cada bloco geográfico. Como sinônimo do adjetivo “Sul”, as periferias pressupõem lugares “subalternos”, e compõem uma maioria territorial.

Diante dessa realidade, Connell aponta duas questões centrais: qual o valor de uma sociologia com pressupostos teóricos gerais, tecida, por exemplo, com Marx, Durkheim e Bourdieu, mas sem intelectuais do Sul Global?  E, principalmente: qual a relação histórica de uma teoria sociológica europeia de cunho supostamente universal com a hegemonia política dos países do Norte Atlântico?

Para tanto, a autora se debruça sobre as origens da disciplina para demonstrar como historicamente o conhecimento sociológico canônico, surgido no século XIX, esteve vinculado ao projeto de dominação ultramarina da Europa/Estados Unidos. Para a sociologia tradicional de Comte, Durkheim e Spencer, a ciência do “progresso” deveria ser universal. Nesse contexto, os dados empíricos recolhidos nas colônias serviria para legitimar uma ciência europeia liberal e evolucionista.

Na primeira parte de seu livro, Connell analisa como sociólogos contemporâneos, a exemplo de Giddens e Coleman, ignoram autores de países africanos, asiáticos, latino-americanos e da Oceania. Ademais, segundo ela, os autores não reconhecem a relação de dominação geopolítica e intelectual de seus países sobre os demais, pois adotam uma imagem da modernidade global sob o reflexo do Norte. Deste modo, a socióloga desvela como alguns dos maiores sociólogos do século XX enxergam uma universalidade que nada mais é do que fictícia. A autora, em nenhum momento, nega a necessidade das ciências sociais terem o caráter de análise geral e serem aplicáveis em vários lugares, o que não remete ao caráter universal da mesma. A partir do momento que toda ciência social é etnocêntrica, já que é fruto de um tempo e espaço específico, isso não impede que a mesma esteja atenta a vários lugares e experiências.

Se Connell faz uma dura crítica às ciências sociais do centro, ela não deixa de resgatar as vozes sufocadas daqueles intelectuais que se manifestaram em contextos periféricos a favor de uma autonomia do saber humanístico. A pesquisadora percorre horizontes áridos e secos que se estendem da Austrália, ao Leste da África, passando pelo Iran, Índia e que desembocam, por fim, na América do Sul. A teórica não se contenta em trazer à luz do presente os diferentes autores periféricos contemporâneos, como Akiwowo e Houtondji no continente negro, ou Al-Shariati no Irã, Ranajit Guha na Índia, Raul Prebisch e Enzo Faletto na América do Sul. A mesma demonstra que desde o século XIX, pensadores como o iraniano Al-Afghani já assentaram, em contexto de subordinação colonial, os pilares de um conhecimento humanístico autônomo do ocidental, composto simultaneamente pelo saber muçulmano local, com as ciências modernizantes da Europa.

Connell, ao fazer um breve panorama do que é produzido em alguns países do Sul Global, considera o conhecimento criado nos países periféricos o meio político de superar alguns dos resquícios do imperialismo ainda vigente. Para além da desigualdade geográfica, o tema das questões de gênero não escapa da socióloga. Como ela denota, se tais estudos já são raros entre os dois tipos de países, mais difícil ainda se tornam os trabalhos, por parte do Norte Atlântico, que articulam autores de ambos os contextos do globo.

Ao longo de seu ensaio, a autora australiana é bem sucedida na defesa de uma “teoria do Sul”. Connell trilha com rigor e por caminhos originais a possibilidade dos laços entre os continentes periféricos se solidificarem em uma agenda de aproximação intelectual. Porém, a cientista social não consegue enlaçar, em suas últimas páginas, toda reflexão sugerida sobre pautas mais solidárias das ciências sociais em escala global.

Todavia, isso não impede a intelectual em contribuir de maneira significativa no tema do pós-colonialismo. Ao elucidar, no presente, os resíduos da dominação histórica entre os dois contextos de países, a pensadora australiana se utiliza do manifesto de autores como Farid Alatas e Paulin Houtondji a favor de uma disciplina sociológica polifônica e mais descentrada.  

No patamar de um mundo globalizado e unificado, Connell consegue nos convencer da necessidade em praticar o exercício antropológico de enxergar não somente o pensamento social do “outro” sobre si, como sobre nós mesmos…

Referências Bibliográficas

CONNELL, Raewyn. (2007). “Southern Theory: the global dynamic of knowledge in social science”. Cambridge, Polity Press.

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