Reflexões de uma mente insubordinável

Por Edmar M. Braga Filho

Falar de imperialismo pode causar certo desconforto para alguns. Por um lado, é visto com ceticismo e pouca seriedade por mentes mais conservadoras; por outro, é demasiadamente proferido por uma certa política high school. Todavia, há aqueles que levam o tema a sério, considerando-o um significativo elemento de compreensão e descrição do mundo, inclusive o mundo intelectual. Mas como isso se dá? Hussein Alatas, influente pensador indonésio, oferece uma análise crítica do estado da arte das ciências sociais empreendidas na Ásia e na África, sugerindo a existência de um “imperialismo intelectual”.

Entendido pelo autor como um fenômeno que engloba diversas esferas da atividade humana, o imperialismo transcende suas dimensões políticas e econômicas. A estrutura de subjugação predominante nas antigas colônias gerou, para Alatas, um paralelo no âmbito acadêmico, no qual as mesmas características são observadas. Definido como “a dominação de um povo sobre outro em seu mundo de pensamento”, o imperialismo intelectual conservaria a exploração, a tutela, a conformação e a racionalidade inerentes ao processo histórico do imperialismo tradicional. A forma permanece, enquanto o conteúdo é distinto. Mas o que isso quer dizer?

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A matéria-prima de agora são dados, coletados nas nações pós-coloniais, e importados para os “impérios”. Lá, convertem-se em teoria, materializam-se em artigos e livros, que são posteriormente exportados para as nações subjugadas. O contrário, contudo, não se observa. Ironicamente, quando pesquisadores periféricos vão para os “impérios” o objetivo é aprender as mais novas tendências teóricas e metodológicas, para realizar seus cursos de pós-graduação e aperfeiçoamento. A tutela é garantida. O sentimento de conformação é preponderante. O império, dessa forma, irradia sua ciência social. Aprende-se domesticamente a teoria social desenvolvida na Europa e EUA – teoria universal. Mas conhecemos as sociedades e as tradições chinesas, indianas, do Oriente Médio, África Subsaariana… O mundo? Os modelos comparativos partem de qual referencial?

Alatas afirma que os pilares que sustentam essa estrutura são, além de históricos, de ordem cognitiva. O pressuposto do funcionamento desse imperialismo é o de que o mundo não ocidental tem um grau limitado de competência e criatividade, necessitando da ajuda dos grandes centros para ampliar suas habilidades e maestria intelectuais – para o autor, praticamente uma compaixão de um senhor para um jovem inexperiente. Além disso, observa-se que, em ciência social, os padrões do mundo não ocidental não são aplicados para estudar o mundo ocidental.

Fonte de grande preocupação do autor é o que ele denomina mente cativa (captive mind). Esta seria a mente aprisionada do intelectual periférico, que se empenharia em imitar o que é produzido nos grandes centros irradiadores de teoria, concentrando-se em categorias e modos de pensamento ocidentais. Como resultado dessa subjugação, os acadêmicos não se tornam criativos, nem sensíveis à realidade ao seu entorno, já que seus parâmetros são unicamente a teoria social produzida nos grandes centros. O problema da falta de criatividade, para o autor, aumentaria a dependência das comunidades acadêmicas periféricas em relação aos grandes centros.

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O ponto de Alatas não é que a teoria “de lá” deva ser descartada, mas sim que as estruturas de subjugação devem ser cada vez mais expostas, como também a utilização das mais variadas fontes empíricas e teóricas. Atenção deve ser dada, para ele, às tradições das próprias sociedades dos intelectuais, já que até então essas são mensuradas apenas com os padrões dos impérios. É necessário, por fim, um espírito crítico na reflexão científica nas ciências sociais, como forma de romper com o cativeiro mental em que se encontram os acadêmicos periféricos. “A emancipação da mente dos grilhões do imperialismo intelectual é a principal condição para o desenvolvimento de uma tradição das ciências sociais criativa e autônoma nas sociedades em desenvolvimento”.

Alatas faz referência sobretudo às sociedades africanas e asiáticas que foram colonizadas pelo imperialismo clássico, que perdurou até meandros do século passado. Suas referências às culturas milenares asiáticas fazem sentido se levarmos em conta a sua preocupação com as tradições. Essa característica pode soar estranha para nós, já que muitos também nos identificamos como ocidentais, termo, a meu ver, problemático e impreciso – ao menos em nosso caso. Sua análise também deixa de lado, penso que intencionalmente, as complexidades das recepções teóricas. Sua descrição revela uma certa passividade quanto à estrutura de exploração desse imperialismo, como se a teoria aqui recepcionada não sofresse também ela interferências, mudanças e rejeições. Contudo, é interessante notar o vetor de recepção teórica – sempre vertical: “de lá, para cá”. Estudamos nas disciplinas teóricas de nossos cursos e nos marcos teóricos de nossas pesquisas autores latino-americanos e periféricos? E quem os influenciou?

Se o leitor ainda não se convenceu da estrutura imperialista delineada pelo autor, ao menos algumas reflexões nela baseadas são válidas. Onde nossos cientistas sociais realizam suas pós-graduações? O que é considerado teoria em sociologia, e qual o contexto de sua formação? De quais realidades ela dá conta? O que sabemos das sociedades além das do “Norte”, e que tenha sido contado por elas mesmas? Quais os marcos teóricos de nossas pesquisas? Que tipo de cooperação estabelecemos internacionalmente, com quem, e quais faculdades privilegiamos? A ciência decerto também é um campo político, e essas questões devem ser feitas, caso pensemos numa ciência social efetivamente universal e global.

Syed Hussein Alatas, além de sociólogo, também é um intelectual crítico periférico que não se subordina às estruturas de dominação que regem a academia na qual está inserido. Penso que sua mente insubordinável é um exemplo de reflexão crítica que falta à ciência.

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