Ciências Sociais do século XXI: Incertezas, desafios e transformações

Por Raphael Lebigre,

Qual panorama as ciências sociais podem ter no século XXI? Immanuel Wallerstein, renomado historiador, economista e cientista social estadunidense, propõe discorrer sobre o histórico da disciplina, no seu texto: “Social Sciences in the Twenty-first Century” (2004).

Pesquisador atento, desde a década de 1960, aos fenômenos perversos da globalização na África, Wallerstein ganhou notoriedade por ter sido um dos precursores do movimento altermundialista junto ao brasileiro Theotonio dos Santos e ao egípcio Samir Amin. Em meio à sua extensa bibliografia, um de seus livros de referência é o “The Modern World-System” (1974), no qual, em palavras breves, o capitalismo é apresentado como fenômeno que desde o seu surgimento, no século XVI, teria estruturado o mundo em regiões periféricas, semiperiféricas e centrais.

O autor denota que no patamar de um mundo contemporâneo, cujo sistema acadêmico se universalizou, o conhecimento produzido seria bem diferente de outrora. Se no passado distante, todo o saber se considerava unificado nas bases do conhecimento, não havia uma ideia de restrições disciplinares no campo acadêmico. Como aponta o intelectual, na prática, a filosofia e as ciências sociais eram uma só. No processo de um século (XVIII-XIX), os dois tipos se desvincularam, aos poucos. Como consequência dessa separação em áreas afins, o sistema universitário do século XIX ficou repartido em duas faculdades: a de artes (ciências humanas e filosofia) e as das demais ciências.

Apesar de o autor não citá-lo, ao levarmos em conta o percurso das ciências sociais, percebe-se, realmente, que os clássicos da disciplina dialogam por caminhos distintos com a filosofia, no exemplo de Durkheim (“Sociologia e Filosofia”), Weber (“Metodologia das Ciências Sociais”) e Marx (“Teses Sobre Feuerbach”).

Wallerstein aponta que já no término da segunda guerra mundial, dentre as várias disciplinas humanísticas que surgiram somente seis se consolidaram: a ciência política, a sociologia, a economia, a antropologia (estudo das sociedades “tradicionais”), a história e os “estudos culturais” (estudo de civilizações não ocidentais). Em paralelo ao fenômeno de consolidação das áreas de conhecimento, o sistema acadêmico se expandiu da Europa e da América do Norte ao restante do mundo. O que trouxe consigo a criação de novas subáreas nas ciências sociais, com campos de estudos interdisciplinares para dar conta de novas manifestações que surgiam, como gênero e etnia.

Ademais, com a criação, nas palavras do autor, das “ciências da complexidade”, originárias das ciências naturais e as da “cultura”, derivadas das humanas, houve a crítica de ambas na forma de conhecimento embasada na física de Newton; da qual, por sua vez, as ciências sociais beberam no método e em seus pressupostos teóricos. Os dois tipos de ciências, e em particular o das “culturas”, tiveram como papel questionar a noção de universalismo, tão cara às ciências humanas, ao enfatizar que os textos escritos são produtos de um tempo e espaço particular, não podendo, portanto, ser aplicados integralmente a outras realidades.

Por esses caminhos, para o intelectual, as ciências sociais se viram diante de uma crise epistemológica em seu seio, estendendo-se às suas fronteiras aparentes com outras “supercategorias” de conhecimento, a saber, as ciências humanas e as naturais. Segundo o mesmo, o grande problema das “ciências culturais” e “complexas” é que ambas não estão realmente preocupadas em elaborar uma epistemologia comum e nova, que dubiamente o mesmo, talvez por ironia, qualifica por ser nem universalista, nem particularista, nem relativista e tampouco determinista.

Wallerstein afirma que a falta de contato entre os dois tipos de saber não se deve somente a um tipo de divergência intelectual, mas institucional. As disciplinas, vistas por ele como organizações, são responsáveis por conferir uma hierarquia de certas universidades pela supremacia de cada tipo de conhecimento. No limiar de uma lógica de concorrência, as mesmas são veladas por medidas de protecionismo. Tendo como exemplo os programas de pós-graduação, que o autor não especifica, é típico que as instituições de ensino estejam afinadas em determinadas áreas particulares, coordenadas em departamentos e representadas por associações em âmbito local e internacional, como a Sociedade Brasileira de Sociologia. Mesmo se o historiador não o assinala, quando afirma o uso da legitimação de determinadas áreas de saber sobre outras, isso reflete a noção de Pierre Bourdieu do “campo científico”, solo em que vários indivíduos e comunidades científicas disputam a hegemonia econômica, política e cultural de uma determinada vertente do saber.

Na situação atual do ensino superior, o historiador altermundialista sustenta que o neoliberalismo vigente trouxe sérias consequências no sistema acadêmico. Várias comunidades científicas moldaram suas pesquisas para arrecadar recursos de financiamento. Na vida cotidiana dos docentes, a situação também é problemática, visto que a carga horária de aula e pesquisa aumentou, dificultando as produções de qualidade. Ainda, o corte de verbas trouxe consigo a reestruturação de programas de ensino, eliminando, por exemplo, algumas disciplinas e áreas afins que não “interessam”. No caso do Brasil, a CAPES já anunciou em público o corte de uma ampla parcela dos fundos dedicados à educação.

Num século cujas transformações se fazem catalisadas e incertas, Wallerstein propõe que um dos principais desafios da disciplina sociológica, tributária das “ciências complexas” e “culturais”, consiste em retribui-las estabelecendo formalmente as fronteiras que as separam dos demais saberes. O autor não se ilude que mesmo sendo um campo de disputa importante, as lutas da sociedade civil não somente transcendem a esfera das ciências sociais, legitimadas pela academia, como as fazem se moverem adiante…

Referências Bibliográficas WALLERSTEIN, I. (2004). Uncertainties Of Knowledge. Temple University Press.

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2 opiniões sobre “Ciências Sociais do século XXI: Incertezas, desafios e transformações”

  1. Olá Raphael!
    Gostei da resenha sobre o texto do Wallerstein. Acredito que ele pauta a discussão sobre dois pontos importantes do campo cientifico (em particular da sociologia) e sua interação com seu objeto (a sociedade em sentido geral). Contudo, a discussão trazida pelo autor não é tão nova e quiça um dia superaremos, mas considero importante não só reforçar e criar subsídios para o papel da sociologia dentro da sociedade, mas o seu dialogo com as demais áreas do saber no universo acadêmico. Me questiono se a especialização do conhecimento em áreas e sub-áreas deu-se exclusivamente pelo desenvolvimento do sistema econômico capitalista, ou como demonstra a teoria dos campos de Bourdieu em que determinadas comunidades científicas disputam a hegemonia de um campo específico do conhecimento. Onde será que está o desenvolvimento disso no próprio processo histórico? Certamente uma coisa ficou clara (espero que tenha entendido correto) a sociologia necessita extrapolar seu muro acadêmico. Com tanta especialização no mundo do trabalho e consequentemente no mundo da ciência (será um o reflexo do outro?), a de se fazer uma reflexão crítica da validade, e principalmente, da qualidade do que está sendo produzido, e para quem ou para quê? Talvez seja essa nossa maior crise. E se o conhecimento ainda reserva alguma autonomia devemos busca-lá e assegura-lá. Enfim, mas uma vez parabéns pelo post! E parabéns pelo espaço e a iniciativa de todos. Ótimo trabalho!

    1. Caro João Paulo, obrigado por seus comentários! Sim, realmente, creio que falta no texto do Wallerstein uma atenção ao processo histórico do capitalismo na estruturação de uma instituição acadêmica e do conhecimento que o mesmo acarreta. No artigo dele, quando se fala de maneira geral das ciências sociais, parece às vezes que as mesmas são universais, já que o autor não faz nenhum recorte espacial preciso. Quanto à especialização do conhecimento acadêmico produzido, concordo contigo que com o desenvolvimento dos meios de produção, a realidade tornou-se bem mais complexa que no passado; em consequência, creio que o saber sociológico (acadêmico em geral), enquanto “prática” no mundo, reflete as especializações do mundo do trabalho. Por fim, diante dos desafios que nos reserva a socialização do conhecimento sociológico, proponho, caso não conheça, ler Burawoy sobre uma sociologia pública. No nosso blog há inclusive um post sobre o mesmo. Segue o link https://circuitoacademico.com.br/2014/12/09/a-favor-de-uma-sociologia-publica/. Abraço e contamos de novo com sua presença!

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