Desprovincializando a Sociologia: orientalismo e a contribuição pós-colonial

Por Joanna Cassiano,

Considerado o manifesto de fundação do pós-colonialismo, o livro “Orientalismo”, de Edward Said (1978), reforça um panorama que se empenhou em descrever o mundo a partir da perspectiva do colonizado. Nesse sentido, Stuart Hall busca generalizar, no livro Modernity: an introduction to modern societies, o caso do Orientalismo, mostrando que a polaridade entre o Ocidente e o resto do mundo (West/Rest) se encontra na base de constituição das ciências sociais. A contribuição da crítica pós-colonial à “desprovincialização” da Sociologia é o eixo central do artigo em questão, de autoria do pesquisador Sérgio Costa, professor titular da Universidade Livre de Berlim.

Os estudos pós-coloniais, embora não constituam uma matriz teórica única, apresentam como característica comum o esforço em esboçar um referencial epistemológico crítico em relação às concepções dominantes de modernidade. Nesse sentido, sua crítica ao processo de produção do conhecimento científico repousa na constatação de que tanto as experiências de minorias sociais quanto os processos de transformação ocorridos nas sociedades “não ocidentais” continuariam sendo tratados a partir de suas semelhanças e divergências com o que se denominou “centro”. Dessa forma, a crítica à produção do conhecimento consiste no fato de que, ao privilegiar modelos e conteúdos próprios às culturas nacionais dos países europeus, haveria uma reprodução, em outros termos, da lógica da relação colonial.

No que diz respeito às ciências sociais e seus binarismos, Costa recorre ao Orientalismo de Edward Said como uma crítica à “episteme” das ciências humanas. Percepção da história moderna que tem como ponto de partida o estabelecimento de uma distinção binária entre Ocidente e Oriente, o conceito de orientalismo expressa uma fronteira entre um “nós” e um “eles”, no interior de uma relação que produz e reproduz o outro como inferior, ao mesmo tempo em que permite definir o nós, em oposição a este outro, cuja representação se dá ora como caricatura, ora como estereótipo.

Nesse sentido, Costa recorre aos escritos de Stuart Hall, teórico cultural e sociólogo jamaicano, que enumera os principais recursos presentes ao longo do processo de expansão colonial, que nutriram e constituíram o discurso West/Rest. São eles: os conhecimentos clássicos, as fontes bíblicas e religiosas, as mitologias e os relatos de viajantes. A partir dessas fontes constituem-se as polaridades entre o Ocidente – civilizado, adiantado, desenvolvido, bom – e o resto – selvagem, atrasado, subdesenvolvido, ruim. Uma vez estabelecidos, esses binarismos se tornam ferramentas usadas para pensar e analisar a realidade.

Segundo Hall, esses binarismos não se apresentam apenas nos primeiros escritos das ciências humanas, mas tornam-se um dos fundamentos da Sociologia moderna, que toma as normas sociais, as estruturas e os valores encontrados nas sociedades denominadas ocidentais como o parâmetro universal que define o que são sociedades modernas.

 Costa reforça ainda que, de acordo com as elaborações de Stuart Hall, alguns exemplos da incorporação desses binarismos pela Sociologia seriam categorias como o patrimonialismo de Max Weber e o modo de produção asiático de Karl Marx. De formas distintas, ambas formulações pautam o movimento interno de sociedades definidas como não ocidentais na gramática implicitamente comparativa que toma as sociedades européias como padrão.

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