História da Sociologia no Brasil – PARTE 2

Por Leonel Salgueiro,

     Como a sociologia dialoga com a sociedade? Na segunda parte do artigo “A Sociologia no Brasil: história, teorias e desafios”, do sociólogo Enno Liedke Filho, continuaremos tratando da temática da perspectiva histórica da sociologia no país, com o objetivo de entender as teorias importantes para a construção da disciplina e os desafios analisados a partir dela. Caso não tenha acompanhado a primeira parte do texto, clique aqui e confira.

     Como vimos anteriormente, o autor entende o começo da sociologia no Brasil por meio de dois processos históricos. O primeiro voltado para as questões de identidade nacional e a formação do Estado Nacional e o segundo com a inserção da disciplina nos cursos superiores na América-Latina. Para esclarecer a distinção entre o fazer sociológico e a cidadania por uma identidade nacional originário destes processos, Filho foca dois brasileiros que, segundo ele, são de extrema importância para a concretização do pensamento social brasileiro: Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso.

     Em Florestan Fernandes, o autor apresenta quatro etapas da evolução das orientações teórico-metodológicas e das preocupações temático-políticas que caracterizam sua obra.

A etapa da formação intelectual de Florestan Fernandes estende-se desde seu ingresso na faculdade de filosofia na USP, em 1941, até o momento em que assume a cadeira de Sociologia I em 1953. Destaca-se nessa etapa a reflexão de Florestan Fernandes acerca do “Significado das ciências sociais no Mundo Moderno” (1950, in 1971), na qual argumenta que elas nos abrem perspectivas quase insondáveis de conhecimento e de domínio das forças que operam no meio social em que vivemos. Mas que por outro lado poderão contribuir para a formação do novo tipo de homem, exigido pela civilização científica e industrial em desenvolvimento.

     Uma segunda etapa da obra de Florestan (1952-1967) tem por base a problemática da relação entre razão e possibilidades de construção da ordem social, industrial e democrática no Brasil, cabendo um papel relevante à Sociologia Aplicada. Tendo por característica dominante a preocupação de subordinar os estudos dos fenômenos sociais aos padrões de trabalho científico sistemático.

     A terceira etapa da obra de Florestan Fernandes inicia-se sob o impacto do movimento ditatorial de 1964, quando se realiza uma ruptura radical com a problemática até então vigente na sua produção intelectual. Contendo diversos textos marcantes, como “Em Busca de Uma Sociologia Crítica e Militante” (1977), “Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento” (1967, in 1969) e “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” (1965).

     Em 1986, com a aceitação do convite formulado pelo Partido dos Trabalhadores para concorrer à Câmara dos Deputados, tem início uma quarta etapa. Pelo lugar de destaque nas intervenções de Florestan Fernandes como Deputado Federal Constituinte e membro da Comissão de Educação, a favor de uma educação verdadeiramente popular e democrática, tendo proposto a lei que estabelece um percentual para a educação e ciência.

     Assim como Florestan Fernandes, a obra de Fernando Henrique Cardoso abrange uma variada gama de temas teóricos e pertinentes a história do Brasil, tais como: relações raciais no Brasil; empresariado e desenvolvimento econômico no Brasil; dependência e classes sociais na América Latina; autoritarismo e possibilidades da redemocratização no Brasil.

     Entre as diferentes contribuições de Cardoso citadas no texto, vale ressaltar que em 1966 elaborou, em parceria com o historiador Enzo Faletto, o livro Desenvolvimento e Dependência na América Latina (1973), que veio a alcançar ampla repercussão internacional. O livro propõe um quadro teórico-metodológico para a análise das condições específicas da situação latino-americana e do tipo de integração social das classes e grupos como condicionantes principais do processo de desenvolvimento.

     Filho argumenta pela análise dos processos históricos que rodeiam as obras destes dois autores, em primeiro lugar, que com a perda de iniciativa dos movimentos sociais democrático-populares ao longo dos processos de redemocratização, a Sociologia seguiu um caminho epistemológico e teórico- metodológico muito problemático, com o privilegiamento de abordagens microssociais e uma ênfase exacerbada na questão das identidades, das representações e do imaginário dos agentes sociais.

     Filho ressalta que por quadros estatísticos da disciplina, nos últimos anos, as principais abordagens que se destacam pela influência marcante que vêm exercendo sobre a Sociologia no Brasil são as de Bourdieu, Foucault, Giddens, Elias e Habermas, cujas obras, assim como as releituras de Weber, são debatidas e utilizadas como referências em ensaios e pesquisas. O autor entende que o crescente privilegiamento da teoria do “individualismo metodológico” e da teoria da escolha racional, por parte de alguns cientistas sociais, veio a colocar questões perturbadoras, como se depreende ao enfocarem, por exemplo, temas da sociologia da educação, como a questão das oportunidades desiguais no ensino, o problema das políticas educacionais e a discussão de objetivos das práticas pedagógicas.

     Em resumo, ao longo deste panorama da evolução da Sociologia no Brasil, o autor verifica uma diversidade de respostas para a questão de para que serve socialmente a Sociologia. Instrumento de legitimação de dominação racial; instrumento de dominação de fração de classe; disciplina auxiliar do “progressivismo” pedagógico; instrumento de modernização societária; instrumento da libertação nacional; elemento de apoio aos esforços de democratização da sociedade brasileira. Estas são as principais respostas que o autor propõe em seus dados coletados.

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