Algumas notas sobre a sociologia da música

Por Raphael Lebigre

As ciências sociais, criadas no século XIX, se aventuraram no estudo de vários fenômenos da vida humana, como a religião, proposto em parte por Max Weber, o suicídio, com Émile Durkheim, o dinheiro, em Georg Simmel e finalmente a economia, principalmente por Karl Marx. Dentre os autores, que em seus percursos únicos tiveram interesses multifacetados, talvez nenhum deles tenha tido como Weber uma paixão tão particular da música. Segundo Leopoldo Weizbort, o texto “Os fundamentos racionais e sociológicos da música”, compilação recolhida pela esposa de Weber dez anos depois de seu falecimento, em 1920, marca a origem do estudo sociológico da música. Apesar de não ser discorrido aqui sobre o livro do sociólogo alemão, proponho traçar as principais características da sociologia contemporânea da música, apresentadas pelo cientista social Howard Becker, em seu artigo “Uma carreira como sociólogo da música” (2013).

O autor, conhecido pelo livro “Outsiders” (1963), forneceu ao subcampo da sociologia da música e da arte uma contribuição significativa, tendo escrito igualmente: Art Worlds (1982) e em parceria com outros autores “Do You Know…?” The Jazz Repertoire in Action, Chicago and London (2009). Para Becker, a sociologia, ao contrário da filosofia, não deveria conceber o que seria a essência de qualquer tipo de arte, pois esse questionamento estaria calcado na opinião valorativa pessoal e não, ao contrário, na visão objetiva do investigador. O motivo é que, segundo ele, para a sociologia, sendo uma ferramenta analítica empírica, o que importa é tentar compreender o trabalho de produzir música.

O elo que permite uma ponte de estudo entre a música e a sociologia estaria no que Becker chama de “dispositivos convencionais da música”. Em outras palavras, os músicos compartilham “convenções” de uma linguagem técnica que não são somente artísticos, mas sociais. É interessante frisar que Becker, assim como a maioria dos sociólogos da música, tem uma formação musical sólida. O que abrange saber ler uma partitura até compreender as estruturas harmônicas ou ainda as variações rítmicas.

Para Becker, no campo das artes em geral, a música, ao contrário, por exemplo, da literatura e das artes cênicas, não fabrica imagens que podem ser analisadas explicitamente por variáveis, como classe, gênero, raça, contexto histórico, etc. Ela produz uma linguagem abstrata, arregimentada por instrumentos, acompanhada ou não de letras. Isso dificulta o estudo para aqueles sociólogos que não são músicos. Howard Becker, notório pela originalidade de seus trabalhos de campo, enxerga o domínio básico da música como um meio de inserção no circulo musical estudado. Ponte essa que abre o entendimento da linguagem utilizada pelos atores e suas ações musicais na vida social cotidiana. Este aspecto é, a meu ver, talvez aquele mais genuíno do subcampo da sociologia. Dentre as principais perguntas que se colocam ao investigador da música, duas são caras para Becker: como uma música é escolhida para ser tocada? e em que meio social essa opção é feita?

O sociólogo estadunidense denota, igualmente, que para se estudar a música sendo ela um tipo de arte compartilhada por vários contextos, de maneira transnacional, é necessário que a investigação acompanhe a atenção ao que é produzido artisticamente no estrangeiro. No caso, por exemplo, da trajetória do autor, seu interesse pelo jazz da América do Norte o levou até a Bossa Nova, nos anos 1960 e depois até a MPB.

O intelectual aponta que a atenção ao que é produzido musicalmente no estrangeiro traz consigo igualmente a necessidade da sociologia beber de fontes de fora. Ou seja, é preciso que o cientistas social estudioso da música reconheça as diferenças musicais e como elas são estudadas em contextos diversos. Becker, ao ter conhecido o Brasil quando foi convidado ao Museu Nacional e tendo realizado algumas pesquisas na França, esteve em contato com uma pluralidade cultural importante. Segundo ele, nos Estados Unidos, país em que vive, a maioria dos cientistas sociais não estudam outras línguas estrangeiras e, como consequência, não dão muita relevância ao que é produzido nas universidades estrangeiras.

Ademais, o autor afirma com relevância a importância de se analisar a música como uma produção social inter-relacionada entre vários lugares, sendo problemático, portanto, conceber um tipo de produção rítmica como algo puro, “nativista”. No caso do livro de Hermano Vianna, referido pelo autor sucessivas vezes, é demonstrado, por exemplo, que alguns dos DJs de funk do Rio de Janeiro viajam regularmente de avião para Nova York para comprar os discos que não estão disponíveis no Rio.

Na sociabilidade mútua que ocorre na pesquisa de campo entre o investigador e o objeto/sujeitos estudado, Becker não deixa de vincular o saber sociológico ao interesse dos próprios músicos. Se os músicos possuem os meios para analisar sua vida cotidiana, eles não possuem os instrumentos para compreender de maneira abstrata e geral suas dinâmicas artísticas. Por esse caminho, Howard Becker sugere socializar o conhecimento sociológico adquirido.

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2 opiniões sobre “Algumas notas sobre a sociologia da música”

  1. Excelente texto. Meu olhar acadêmico de estudante das Ciências Sociais me fazem refletir sobre o estreitamento cultural que a música faz ao indivíduo. As trocas são feitas sem fronteiras de maneira livre. A música ouvida, mostra muito do lugar onde habita o compositor, isso nos faz viajar pelo mundo sem sair do lugar…Sensacional!

    1. Obrigado Eliane! Sim, não de pode deixar de analisar a música pela sociologia. Engraçado como na Universidade é incomum haver cursos de ciências sociais que tenham uma abordagem com a arte em geral. Por isso o intuito de ter feito o atual post. Sinta-se à vontade para comentar mais vezes.

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