Crise do Ensino e Movimentos Sociais.

Por Leonel Salgueiro,

Em meio a paralisação por conta da greve discente em algumas unidades da UFRJ, o professor da Universidade de Berkeley (EUA), Michael Burawoy, foi convidado pelo IFCS a apresentar suas ideias sobre a crise do ensino superior no Brasil e a precarização dos movimentos sociais. Os eventos foram divididos ao longo da semana e o Circuito os cobriu. Você pode acompanhar abaixo uma compilação das principais ideias do professor Burawoy, e que nos ajuda a entender o contexto em que se encontram estas universidades brasileiras.

Na apresentação de quarta-feira (03/06) o professor levantou um apanhado geral das crises no ensino superior, que se manifestam no contexto atual em diferentes partes do mundo. Contendo expressões variadas, às vezes dando início a greves ou até desaparecendo com diferentes universidades da história, essas crises formam uma rede mundial de influências múltiplas entre os movimentos sociais que as combatem. Mas para analisar este panorama, primeiro é preciso entender em que se baseia o professor para afirmar essa visão universalista.

Utilizando o livro de Karl Polanyi, “The Great Transformation”, o professor argumenta que a história moderna caminha em diferentes ondas de crises, que podem ser analisadas por diferentes processos de mercantilização. Para o professor, o que Karl Marx entende como passagens dos modos de produção são, na verdade, crises e contra-crises iniciadas pelos modos de mercantilização. Burawoy analisa o intercâmbio de mercado como modificador dos pilares da história e responsável pelas crises financeiras, sociais, trabalhistas, no ensino e muitas outras. São três os processos definidos por Polanyi que, segundo Burawoy, sofrem impacto mercantil:

Mercantilização das terras – O que leva a expropriação de trabalhadores de suas terras de cultivo. A terra passa a valer dinheiro que somente o detentor do meio de produção terá para compra-la.

Mercantilização do dinheiro – Definida pela relação das novas formas de se fazer dinheiro (capital financeiro) com as novas formas de contrair dívidas.

Mercantilização do trabalho – Questões de privatização, contrato de trabalho e terceirização.

Mas o professor argumenta que há um quarto processo de mercantilização não previsto por Polanyi. É este o processo no qual ele irá se deter ao longo do discurso. O processo no qual todos nós conhecemos e vivenciamos, a mercantilização do conhecimento. Para Burawoy cada vez mais o conhecimento é produzido em relação aos ricos e poderosos, e a universidade passa a assumir um caráter empresarial e privativo neste processo, importando apenas o lucro.

Em dados apresentados pelo professor, o Brasil tem 75% de suas universidades pertencentes ao ensino privado, perdendo somente para o Chile, com 77%, em todo o cenário global. Em dados amostrais, o número de estudantes matriculados em universidades públicas vem caindo proporcionalmente em relação ao crescimento das matriculas em universidades privadas. Ele argumenta que estamos acompanhando um processo de expansão do ensino superior, como ocorre ao redor do mundo, mas que, por conta de crises orçamentárias, retomam o conceito de mercantilização do ensino superior.

Burawoy argumenta que há quatro formas de crises universitárias em todo o contexto mercantil. A primeira delas, a crise orçamentária, tem como lema reduzir custos. Como ela é enfrentada? Aumentando a renda recebida por empresas privadas que financiam as pesquisas destas instituições de ensino, reduzindo os custos com os professores e outros funcionários, terceirizando e contratando horistas ou aumentando a mensalidade dos alunos. No Brasil, a nossa constituição não permite que universidades públicas cobrem mensalidades dos alunos, mas o professor diz em tom pesado: “veremos até quando”.

A segunda crise é de caráter administrativo, que no Brasil se manifesta de forma interna a instituição quando se pensa quem recebe os valores repassados dentro da universidade. Diferentemente das universidades americanas não existe uma discrepância de salários entre cargos no Brasil. Como brinca Burawoy, enquanto o reitor de Berkeley tem um saldo bancário de 1 milhão de dólares ao ano, o reitor recém-eleito da UFRJ, Roberto Leher, terá mais trabalho do que dinheiro.

A terceira crise assume uma identidade universitária, definida por questionamentos diversos que demonstram caráter crítico, tais como: o que é a universidade hoje? É pública ou privada? São locais ou globais? São para pesquisa ou ensino? Visa a equidade ou a excelência?

A quarta crise é de legitimação, responsável por pensar como a universidade percebe as pessoas fora dela. Tal crise nos faz pensar se o conhecimento produzido tem um real impacto no mundo externo ou somente circula pelos muros universitários e não transcende a elite do ensino.

Burawoy entende quatro funções sociais para a universidade: A política, a profissional, a crítica e a pública. De acordo com tais funções, as universidades se adaptam em: modelos de mercado cada vez mais importante e com participação política crescente; modelos regulatórios presentes nos países europeus baseados nos ranks por pesquisa e ensino, reduzindo a universidade a um único critério crítico; modelos de engajamento crítico que dialogam com os diferentes ramos do saber e modelos de democracia deliberativa que visa não apenas o lado de dentro, mas também o lado de fora da universidade.

Burawoy finaliza dizendo acreditar nesse papel mais amplo como o processo para expandir os debates em direção a sociedade. Mas também nos diz que a cada dia torna-se mais difícil, pois fica a dúvida. Como podemos nos engajar com as universidades e sustentar seu papel profissional?

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