A antropologia frente a um novo mundo

Por Edmar M. Braga Filho

A produção do conhecimento científico não é imune às relações de poder de ordem histórica e sociológica. Isso se mostra verdadeiro na medida em que exploramos a constituição das disciplinas, intrinsecamente ligada com processos geopolíticos como o colonialismo e o nacionalismo. Contudo, essa relação entre saber e poder não é restrito ao passado. A produção global do conhecimento ainda se vê imersa em estruturas que privilegiam determinados contextos, em detrimento de outros. É o caso da antropologia, como nos mostra o antropólogo Gustavo Lins Ribeiro, em seu livro Outras Globalizações: cosmospolíticas pós-imperialistas.

A constituição histórica da antropologia ocorreu intricada com os interesses do Estado de várias maneiras. Seja por meio da expansão dos impérios via administração colonial, seja na formação dos Estados-nação, ou até mesmo fornecendo conhecimento do inimigo para formulação de estratégias bélicas. Em todos esses casos, “os nativos eram vistos principalmente por uma perspectiva moderna como povos que precisavam ser conhecidos a fim de propiciar sua integração ao Estado-nação ou ao Império”.

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Com isso, após a Segunda Guerra Mundial, num período que se estendeu até meados da década de 1960, a antropologia hegemônica (sobretudo a dos países anglo-saxões) passou por uma grande crise de representação. Os nativos, que até então eram tidos como sujeitos passivos da produção do conhecimento antropológico, reagiram à altura, denunciando a antropologia como um instrumento do colonialismo. A “era da inocência” da antropologia chegara ao fim. “Todos aqueles outros exóticos e subalternizados precisavam ser vistos como sujeitos de seus próprios destinos”. A antropologia passava pela sua primeira crise de auto representação: será ela corresponsável pelos males criados pela expansão ocidental, ou será um instrumento para melhor entender a humanidade?

Como se não bastasse essa primeira crise, as novas configurações geopolíticas do sistema mundial após o fim da Guerra Fria trouxeram novos desafios para a disciplina. O mundo conhecia os efeitos de uma globalização exacerbada, de ordem transnacional. Houve uma intensificação dos fluxos de mercadorias, pessoas e informações. A distinção entre o que é local e o que é global está a cada dia mais diluída e pouco precisa. Além disso, o ciberespaço “propiciou um aumento enorme do intercâmbio global de informação e a emergência de uma comunidade transnacional imaginada-virtual”. Os trobriandeses, enquanto povo-exótico-intocado-aguardando-a-chegada-do-antropólogo, foram relegados a mito, ensinado a graduandos sobre o passado da disciplina. Os nativos não vivem a milhares de quilômetros da casa dos antropólogos: são seus vizinhos.

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Além dessa crise sobre a relação com o seu objeto, ou, melhor, seus “sujeitos-objetos”, a antropologia encontrou, e ainda encontra, um novo desafio: a presença internacional de antropologias não hegemônicas e sua importância na produção e na reprodução do conhecimento. A polifonia tem um papel crucial aqui, abrangendo três pontos para a produção mundial da antropologia:

  • Reconhecimento de uma enorme produção em diferentes locais do sistema mundial, precisando ganhar visibilidade, se for levado a sério o papel da diversidade na construção de discursos;
  • Compreensão das trocas desiguais de informação dentro do sistema mundial de produção acadêmica;
  • Crítica intelectual e ação crítica sobre os mecanismos que sustentam tais trocas desiguais, dentro e fora do cenário acadêmico.

Essa desigualdade é descrita em termos como antropologias centrais e periféricas, antropologias do Sul, e hegemônicas e não hegemônicas. Contudo, Ribeiro vê a necessidade de ir além dessas dualidades, adequando a produção do conhecimento dentro de uma ordem transnacional. Para isso, além de superar as relações colonialistas e nacionalistas da disciplina, necessita-se da criação de uma comunidade transnacional heteroglóssica, com participação de antropólogos de diversas partes do mundo. Para entender como essa comunidade transformaria a produção global do conhecimento antropológico, faz-se necessário entender a noção de “ignorância assimétrica” ou, nos termos de Ribeiro, cosmopolitismo provinciano e provincianismo metropolitano. O primeiro se refere ao conhecimento da produção que os centros não hegemônicos têm dos centros hegemônicos, como também a sua exigência de saber outros idiomas além do falado em seu país, em muitos casos (como é no Brasil). Já o segundo se refere ao desconhecimento que os centros hegemônicos têm do que é produzido nos centros não hegemônicos, além de dominarem o idioma hegemônico da ciência. A proposta polifônica e heteroglóssica de Ribeiro busca subverter essa desigualdade, em muito análoga à proposta de subverter a dependência acadêmica da forma delineada por Syed F. Alatas. No esquema abaixo procurei dar uma representação estética para essa mudança político-epistemológica das antropologias mundiais.

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O primeiro, um modelo com apenas um centro, representando o centro hegemônico da disciplina. Ao lado, o modelo multicêntrico das antropologias mundiais

O autor procura fugir de uma visão supostamente “nativista”, ao defender uma visão abertamente dialógica e heteroglóssica da disciplina. Ele descarta qualquer visão essencialista que a ideia de “periferia” possa conter. Como ele mesmo afirma, seu objetivo no texto foi “mostrar que mudar as relações e os fluxos de informação internos de uma comunidade global de antropologia ainda a ser plenamente desenvolvida é, hoje, uma forma poderosa de mudar orientações teóricas”.

É importante destacar a iniciativa coletiva Redes Mundiais de Antropologia, da qual Ribeiro faz parte. Essa iniciativa pretende examinar criticamente a disseminação internacional da antropologia, contribuir para o desenvolvimento de horizontes plurais de antropologias não hegemônicas e mais abertas possíveis ao potencial heteroglóssico da globalização, e encorajar o intercâmbio entre antropólogos de diversas regiões do mundo a fim de avaliar as relações entre a disciplina e o poder.

Referência:

RIBEIRO, Gustavo Lins. Antropologias mundiais. In Outras Globalizações: cosmopolíticas pós-imperialistas. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2015. pp 91 – 119. capaglobalizaçõesarte      *Ilustrações artísticas de M. C. Escher

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