Globalização e as Ciências Sociais – Por uma Sociologia dos BRICS

Por Joanna Cassiano,

A emergência dos nossos parceiros nos BRICS – Rússia, Índia, China e África do Sul, traz à tona novos atores e novos temas de pesquisa que passam a desafiar a imaginação sociológica nacional. Segundo Tom Dwyer, professor titular de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), os efeitos da globalização e a transformação do papel do Brasil no mundo fazem com que novos fatores externos reforcem a necessidade de uma transformação da Sociologia brasileira. Nesse panorama, surge o desafio de construção de um processo de compreensão a respeito de nossas possíveis relações com a Rússia, índia, China e África do Sul.

No que diz respeito ao diálogo inicial entre os BRICS, Dwyer afirma que tradicionalmente, os sociólogos indianos, por exemplo, são pouco lidos no Brasil. Um primeiro livro de Ciências Sociais sobre a relação entre os dois países foi editado somente em 2003, com o título de “Diálogos Tropicais – Brasil e Índia no Brasil”.  Os organizadores da obra se dedicaram à busca pela ruptura da “dependência quase crônica – marcada pela colonialidade do poder – das percepções acadêmicas recíprocas, com relação aos espelhos europeus e norte-americanos (teorias, bibliografias e línguas)” que demarca a distância entre os dois países.

Sobre a relação entre Brasil e China, Dwyer ressalta, em referência ao sociólogo Teixeira Leite, que “o nome China há de, por certo, suscitar noções confusas e de qualquer modo significar muito pouco a 99,99% de nós brasileiros, acostumados a associá-lo a um país nebuloso, tão desconhecido e quase tão remotos quanto Marte ou a Lua”.  Dessa forma, em Abril de 2010, na ocasião da celebração dos 40 anos do Instituto de Sociologia da Chinese Academy of Social Sciences (CASS), Li Peilin, diretor do instituto, organizou uma discussão entre os presidentes e ex-presidentes das associações nacionais de sociologia dos países BRIC. O intuito era averiguar se de fato fazia sentido incentivar um intercâmbio acadêmico da China com o Brasil e com a Índia, para complementar o já existente entre Rússia e China.

Estas discussões têm levado uma abordagem fértil, a qual Dwyer denomina de Sociologia dos BRICS, onde se examinam processos sociais em cada um dos países do bloco, com o intuito de produzir compreensões comparativas, e, ao mesmo tempo, de aprofundar o conhecimento e a capacidade dos estudiosos construírem hipóteses de trabalho. O autor enfatiza que a importância da Sociologia dos BRICS se dá, entre outras razões, pelo fato de que juntos, Brasil, Rússia, Índia e China representam quase a metade da população mundial. Para Dwyer, a intensificação das relações científicas e acadêmicas entre os BRICS está envolvida em um processo de diálogo que requer um alto grau de elaboração e compreensão mútua entre as nações.

No que diz respeito à cooperação científica bilateral do Brasil com a Rússia e com a China, o processo vem se intensificando desde o final do regime militar. A cooperação científica com a Rússia é concentrada no uso pacífico do espaço, da energia, da tecnologia militar, e uma área de alcance que é tanto tecnológica quanto científica. Atualmente, a cooperação bilateral com a China gira em torno dos biocombustíveis e da agricultura, e acordos foram assinados em diversas áreas como: engenharia florestal, hidroelétricas, materiais novos e engenharia biológica, assim como nas áreas de saúde e energia nuclear. No ano de 2003, o Ministério de Ciência e Tecnologia da Índia assinou um acordo de cooperação com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) contemplando principalmente as áreas de biotecnologia, oceanologia, materiais e tecnologias de construção, e metrologia. Mais recentemente, a “Declaração de Brasília” identificou a área de Ciência e Tecnologia como uma das principais áreas para incrementar tanto a interação como a cooperação trilateral, e sua implementação deve ser guiada pelos ministérios da Ciência e Tecnologia da Índia, do Brasil e da África do Sul.

Segundo o autor, esse panorama configura uma agenda de pesquisa que poderia ser absorvida com mais vigor pela Sociologia da Ciência. Isso porque, sabe-se que o campo das ciências é dominado por relações de poder. Dessa forma, Dwyer afirma que ao examinar a agenda de cooperação científica entre os BRICS, nota-se que o governo brasileiro não apresentou grandes esforços para apoiar pesquisas relacionadas às Ciências Sociais. Tendo em vista que a globalização é um processo que inclui também a esfera cultural, uma vez que o desenvolvimento tecnológico e científico é entrelaçado à cultura, aos valores e à mudança social, esta falta de apoio aparece, nas palavras do autor, como um extraordinário silêncio.

Para Dwyer, no campo da Sociologia internacional, o impacto do reconhecimento da Sociologia dos/nos BRICS a longo prazo depende da ambição teórica e da capacidade de ajudar a interpretar o mundo – e nossas interações – de uma outra maneira. Ao conhecermos melhor os trabalhos dos sociólogos dos outros países, ao entendermos melhor os processos sociais em curso nos outros países, propostas de pesquisas devem surgir, permitindo-nos a produção de conhecimento com novas ambições teóricas.

Artigo completo disponível em: http://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/ideias/article/view/1867/1333

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