Bourdieu e a dependência acadêmica na América Latina

Por Raphael Lebigre

Bourdieu, sociólogo reconhecido por seus méritos acadêmicos, provocou impacto nos círculos políticos, notadamente em sua denuncia aos efeitos de rapina do neoliberalismo. Dentre o seu arsenal bibliográfico, o texto: “Sobre as Artimanhas da razão imperialista” (1998), escrito em parceria com Loic Wacquant, foi primeiro traduzido para o português e depois para o espanhol. Mesmo assim, não teve uma circulação importante no continente latino-americano.

A socióloga chilena, Fernanda Beigel, em seu artigo “Sur les tabouls Intellectuels Bourdieu and Academic Dependence” (2009), sugere algumas respostas.

Beigel, que já vem analisando a dependência do conhecimento sociológico institucional, no exemplo de seu livro Autonomia y dependência acadêmica. (2010), debate sobre a tendência de dominação do Norte Atlântico sob o véu da universalidade como categoria para decifrar as condições sobre as quais “As artimanhas das razões imperialistas” foi lida na America Latina.

De inicio, a socióloga aponta que para Bourdieu é no campo intelectual que os intelectuais devem principalmente combater, pois na maioria das vezes as tecnocracias se impõem no campo científico. Para tal empreendimento, os intelectuais devem dotar significados de expressões autônomas, libertas da demanda pública e privada, e organizando-se coletivamente para utilizarem em comum suas ferramentas a favor da progressiva critica. Bourdieu não pretende fazer com que exista a neutralidade acadêmica, mas o esforço reflexivo de distanciamento com os centros de poder. Com esse intuito, “Sobre as artimanhas” desvela, na metade dos anos 1990, os mecanismos do neoliberalismo na esfera acadêmica.

Beigel denota que o fenômeno de dominação acadêmica ou “imperialismo universal” por parte dos Estados Unidos teria como origem a internacionalização da produção de conhecimento, na década de 1950, período em que as fundações privadas contribuíram em especial para a difusão do pensamento estadunidense nas ciências sociais. A socióloga analisa a circulação do artigo de Bourdieu e Wacquant primeiro no mundo anglo-saxão, através do SSCI (“Social Science Citation Index”) , portal que permite a avaliação da circulação dos jornais de maior relevância e da seleção internacionalizada dos enclaves situados na periferia. Nele, a procura do artigo de Bourdieu “On the cunning of Imperialist Reason” indica um pequeno impacto e relata versões publicadas em inglês, com 83 citações. Apesar de o número parecer relevante, a circulação do texto nas academias dos EUA foram quase nulas. No total de 5 citações  encontradas, há somente 4 criticas sociológicas com impacto maior no SSCI.

Na Argentina, Beigel se utiliza da SCIELO (“Scientific Eletronic Library Online”), uma rede criada no Brasil que inclui criticas de textos completos em inglês, espanhol e português. No site, há quatro entradas e todas correspondem ao artigo de Bourdieu publicado em 2002 pela revista da Cândido Mendes, “Estudos Afro-Asiáticos”. No LATINDEX (“Latin American Index of Serial Journals”), não há o texto em nenhuma língua. Por último, na JSTOR, no meio de poucos jornais latino-americanos, somente uma citação foi encontrada.

Ao pesquisar a circulação do artigo de Bourdieu e Wacquant no Brasil, as fontes de dados: SSCI, SCIELO, LATINDEX e JSTOR só fornecem um artigo em português e uma citação. O que indica um impacto fraco. No país, segundo os autores franceses, a exportação da universalização/americanização das políticas de ações afirmativas e a imposição do conceito de “raça” nos estudos nacionais foram feitas por fundações americanas para substituir o mito da ”democracia racial” prevalecente no contexto local. Não suficiente, na perspectiva das “Artimanhas”, o lugar acordado ao campo brasileiro é passivo e dependente.

A socióloga chilena denota que a teoria da “dependência intelectual” consolidou-se nos anos 1960. Época em que as ciências sociais atingiram um reconhecimento de desenvolvimento institucional e liberdade intelectual. Essa fase ficou marcada pela produção do conhecimento com uma redução significativa de referencias estrangeiras e estabeleceu conceitos voltados, sobretudo, ao local, além de aproximações metodológicas, principalmente entre os países da América do Sul. Beigel aponta de maneira pertinente que o desenvolvimento sociológico foi interrompido primeiro pelas ditaduras militares. Não obstante, após a abertura dos países latino-americanos, nos anos 1990, a difusão do neoliberalismo fez com que países como o Brasil tivessem que submeter suas pesquisas institucionais ao financiamento de fundações privadas americanas, tais como a Ford e a Rockfeller. Para ela, a diferença entre campos periféricos e academias centrais não está necessariamente na falta de fronteiras nacionais ou pensamentos que dão ênfase ao local, mas na instabilidade histórica que acarreta a possibilidade de autonomia ou dependência institucional acadêmica; principalmente com a mudança do Estado e a relação entre a pesquisa e o ensino na educação superior.

Em complemento à investigação das citações, Beigel entrevista acadêmicos na USP envolvidos com os estudos raciais brasileiros. Dentre os entrevistados, o efeito provocador das “Artimanhas” é descrito por Livio Sansone como silenciado no Brasil, em 2002, pelos estudos Afro-Asiáticos, que denunciou em tal artigo o desprezo dos intelectuais franceses em conceber a especificidade dos estudos raciais brasileiros. Segundo Sansone, brasileiros precisam de ajuda financeira e as fontes de financiamento são algumas vezes mais flexíveis que o suporte burocrático oferecido pelo Estado, além da ideia do Brasil como um efeito revertido espelhado no racismo americano ter mudado. Junto a Sansione, outros acadêmicos refutam o artigo de Bourdieu por desprezar a tradição intelectual do país já existente e auto-afirmada envolvendo a “democracia racial”.

Diante dos dados recolhidos, Beigel aponta que por trás do reconhecimento acadêmico da distância de Bourdieu com a realidade sócio-racial brasileira, esconde-se a carência de reflexão critica dos cientistas sociais locais sobre a repercussão que o financiamento de fundações americanas possui na pesquisa institucional.

Referências Bibliográficas

BEIGEL, Fernanda. (2009). “Sur les tabouls Intellectuels Bourdieu and Academic Dependence” in Sociologica, n-2 e 3.

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