18 teses sobre a irrelevância nas ciências sociais

Por Edmar M. Braga Filho

Esse texto foi redigido seguindo estritamente as ideias delineadas pelo sociólogo Syed Farid Alatas, em seu artigo The Study of the Social Sciences in Developing Societies: Towards na Adequate Conceptualization of Relevance.

  1. As ciências sociais se formaram num contexto de colonização europeia, e foram posteriormente ensinadas em grande parte das áreas colonizadas.
  1. A reflexão acerca da questão da irrelevância nos níveis filosófico, teórico, empírico e aplicado derivou do encontro entre modelos e teorias ocidentais de um lado, e as realidades políticas e culturais colonizadas de outro, e foi realizada por numerosos pensadores localizados nas regiões periféricas do sistema mundial capitalista, inclusive no período pós-colonização.
  1. É irrelevante, por exemplo, procurar compreender o desenvolvimento do capitalismo fora da Europa tomando como parâmetro a tese weberiana da ética protestante, ao tentar aplicá-la às religiões budista e islâmica, ou ao confucionismo. Da mesma forma, é irrelevante analisar a realidade social iraniana de coexistência entre uma sociedade ansiosa por consumo e secularismo de um lado, e uma teocracia de outro, tomando como referência o modelo ocidental de modernidade, que exclui movimentos sociais religiosos.

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  1. Essa irrelevância dos modelos ocidentais foi de tal magnitude que resultou em formulações teóricas diversas a respeito do estado das ciências sociais nas áreas pós-coloniais, tais como as teorias do eurocentrismo, do orientalismo, do pós-colonialismo, da dependência acadêmica e do “cativeiro mental”.
  1. Embora tratassem implicitamente da irrelevância, tais teorias não se preocuparam em definir e categorizar a irrelevância nas ciências sociais.
  1. Dessa forma, uma tipologia das irrelevâncias se faz necessária.
  • Falta de originalidade: caracteriza-se pela forma acrítica que o conhecimento ocidental é assimilado.
  • Não conformidade entre suposições e realidade: muitas observações de Marx e Weber sobre sociedade não europeias são equivocadas devido não apenas a erros factuais, mas a suposições errôneas dessas sociedades.
  • Inaplicabilidade: como exemplo, temos o conceito de Marx de “modo de produção asiático”.

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  • Outros tipos de irrelevância se referem à alienação dos cientistas sociais aos seus contextos; à redundância de termos assimilados de teorias exógenas; à mistificação, por meio do uso de jargões acadêmicos tidos como sofisticados; e à mediocridade, sobretudo de teorias prestigiosas em contextos não europeus e não estadunidenses, mas que são cobertas de irrelevância.
  1. Esses tipos de irrelevância afetam as ciências sociais em quatro níveis: o da meta-análise, o da teoria, o dos estudos empíricos e o das ciências sociais aplicadas.
  1. O contexto de dependência acadêmica, eurocentrismo e de cativeiro mental perpetuam a irrelevância. A ausência até então de uma conceitualização da irrelevância por meio de tipologias, como também a ausência de análises da mesma nos diferentes níveis anteriormente mencionados, só piora a situação.
  1. Por outro lado, as ciências sociais ocidentais (europeias e estadunidenses) não devem ser rejeitadas. O que é rejeitado são seus aspectos irrelevantes. Rejeição não é baseada no contexto de origem, mas nos critérios de relevância.
  1. Deve ser pontuado que alguns aspectos da irrelevância não são restritos a contextos não ocidentais. Todavia, esses aspectos aparecem de forma distinta. Nas sociedades não ocidentais, a irrelevância aparece sob a conjuntura do pós-colonialismo e da dependência acadêmica, fato que não acontece nas sociedades ocidentais (em específico nos EUA e na Europa Ocidental)

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  1. Esse contexto capacita os cientistas sociais ocidentais, suas instituições acadêmicas, agências de fomento e  seus estudantes, em detrimento dos cientistas sociais do chamado “Terceiro Mundo”, ou sociedades “em desenvolvimento”, bem como os grupos subalternos por quem eles falam.
  1. Tomemos por exemplo a irrelevância da não concordância entre ética protestante e religiões não ocidentais. Poderia se afirmar que essa tese não se aplica à própria Europa, da mesma forma que não se aplica à Ásia. Contudo, o significado dessa irrelevância difere entre as ciências sociais ocidentais e não ocidentais, dado o contexto de dependência acadêmica. As segundas dependeriam das teorias da primeira para se compreenderem.
  1. Para reverter esse quadro, faz-se necessário uma operacionalização da relevância, derivada das tipologias anteriormente feitas acerca da irrelevância.

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  1. Em todos os níveis – meta-análise, teoria, estudos empíricos e ciências sociais aplicadas – a relevância se refere ao trabalho de restaurar a originalidade, a concordância (entre teorias e modelos com a realidade), a clareza, a desmistificação, o rigor e a afinidade (ou seja, uma ciência social que não aliene seus cientistas de suas realidades).
  1. Além disso, a relevância se dá na revisão histórica das ciências sociais, que não seja orientalista (nem ocidentalista). Também deve ser atenta às relações entre poder e conhecimento a nível geopolítico. Deve questionar o papel dos intelectuais na sociedade civil. A nível teórico, a relevância requer o estudo crítico de conceitos, importados ou gerados, para serem posteriormente usados como referência na análise de dados empíricos de cada sociedade.
  1. A ciência social relevante contribui para a universalização de teorias. No nível mais simples, isso consistiria na aplicação cautelosa de teorias ocidentais a contextos locais. Num alto nível de universalização, tanto o conhecimento não ocidental quanto o ocidental seriam aplicados, quando não combinados.
  1. Esteticamente, as ciências sociais contemporâneas podem ser vislumbradas como constituídas de muitas lacunas culturais. A prática da ciência social relevante em todos os seus níveis preenche essas lacunas, observando as várias filosofias, culturas e experiências históricas não ocidentais como fontes de inspiração, insights e conceitos.

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  1. As ciências sociais não se resumem ao que é produzido, teórica e conceitualmente, na Europa e nos EUA. Uma ciência social é relevante porque, além de crítica e pluralista, é universal.

*Imagens de intervenções artísticas do chinês Liu Bolin que, entre outras coisas, procurava retratar a irrelevância do indivíduo frente às transformações globais a nível cultural.

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