História da Sociologia no Brasil – 1ª parte.

Por Leonel Salgueiro,

Como surgiu e quais foram os principais desafios que a sociologia brasileira encontrou até a atualidade? O sociólogo Enno Liedke Filho responde em seu artigo “A Sociologia no Brasil: história, teorias e desafios”. O autor centra o artigo na história da sociologia brasileira dando ênfase às etapas e ao período de sua institucionalização e evolução como disciplina acadêmica. Na segunda parte do texto, discutirei a situação atual da sociologia e os novos dilemas e propostas, ambos discutidos pelo autor.

Filho interpreta a emergência e evolução da sociologia como disciplina acadêmico-científica no Brasil e na América Latina dividida em dois processos históricos. O primeiro como a herança do conceito histórico-cultural da sociologia, que, segundo ele, divide-se entre o período dos pensadores sociais e o período da sociologia de cátedra.

Filho destaca que o período dos pensadores sociais ou período pré-científico corresponde historicamente àquele que se estende das lutas pela independência das nações latino-americanas até o início do século XX. Neste período, a elaboração da teoria social era desenvolvida por pensadores, sob a influência de ideias filosófico-sociais europeias ou norte-americanas, a exemplo do iluminismo francês, do positivismo de Comte e do evolucionismo de Spencer e Haeckel. Sob a influência desses autores e teorias o objetivo era orientar duas problemáticas centrais – a formação do Estado nacional (liberais X autoritários) e a questão da identidade nacional (com ênfase na questão racial).

Já o período da sociologia de cátedra inicia-se nos países latino-americanos em fins do século passado, quando cátedras da disciplina foram introduzidas nas faculdades de filosofia, direito e economia, com o intuito de divulgar também ideias de cientistas sociais europeus e norte-americanos renomados, tais como Durkheim e Dewey. Ao mesmo tempo, a questão da miscigenação racial no Brasil passou a ser tratada em uma perspectiva otimista como em Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre.

Filho argumenta, citando Azevedo (1962), afirma que a sociologia se consolida no Brasil não devido a única causa determinante, mas a múltiplas causas estreitamente ligadas. “O que nos compeliu a essa revolução intelectual, que nos iniciou no espírito crítico e experimental em todos os domínios, e nos abriu o caminho aos estudos e as pesquisas sociológicas, foi, no entanto, o desenvolvimento da indústria e do comércio nos grandes centros do país e, particularmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.” (AZEVEDO, 1962)

O segundo processo histórico, entendido por Filho como a etapa contemporânea da sociologia no Brasil, tem seu início com a fase de emergência da sociologia científica, que buscava, sob a égide do paradigma estrutural-funcionalista, a consecução de um padrão de institucionalização e prática do ensino e da pesquisa em sociologia, similar ao dos centros sociológicos dos países centrais. A concepção de desenvolvimento desta abordagem teve sua expressão na Teoria da Modernização e em sua análise do processo de transição da sociedade tradicional para a sociedade moderna, sob uma ótica dualista.

A institucionalização acadêmica da disciplina no Brasil ocorreu em meados da década de 1930, com a criação da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (1933) e com a criação da Seção de Sociologia e Ciência Política da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (1934). Mas outros autores, a exemplo de Amurabi Oliveira, argumentam que já em 1892, no Atheneu Sergipense, em Aracaju, teve início a disciplina “sociologia, moral, noções de economia política e direito pátrio” no 6º e último ano do curso de humanidades desta instituição.

Ainda sobre o domínio de uma elite, os cursos tinham o objetivo, como destaca o autor de suprir a falta de uma elite numerosa e organizada, instruída sob métodos científicos, a par das instituições e conquistas do mundo civilizado, capaz de compreender antes de agir o meio social em que vivemos.

Em meados da década de cinquenta, os principais temas enfocados pelas ciências sociais no Brasil eram: população, imigração e colonização; relações étnicas; contatos e assimilação (negro, índio e branco colonizador); educação; história social; direito e ciência política; estudos de comunidades; análises regionais e sociologia rural e urbana. Os anos 50 são recobrados também pelo surgimento da proposta de uma “Sociologia Autêntica”, nacionalista, que buscava contribuir para o processo de libertação nacional.

Já na década de sessenta, a emergência dos “novos” regimes autoritários latino-americanos tiveram impactos negativos sobre a práxis sociológica na região. Vieram a ser interpretados como “obstáculos” à consolidação da sociologia científica. Mas esse assunto ficará para o próximo post em que trataremos, junto com o autor, o impacto dos regimes militares, a reconstrução da sociologia comparativa e os principais dilemas atuais do campo cientifico. Não percam!

 

Bibliografia:

AZEVEDO, Fernando. A Antropologia e a Sociologia no Brasil. In: AZEVEDO, Fernando. A Cidade e o Campo na Civilização Industrial e outros Estudos. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1962.

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