Entre o engajamento político e a vocação sociológica, Balandier, cientista social da emancipação africana.

Por Raphael Lebigre

Georges Balandier, hoje um dos maiores cientistas sociais vivos da atualidade, foi atuante na luta pela emancipação dos países africanos e abriu os horizontes teóricos de uma disciplina sociológica africanista. Diante de todas as contribuições do etnólogo, hoje irei apresentar sumariamente algumas de suas concepções sobre as relações coloniais de dominação da França com a África, durante 1950-60; assim como abordar as realizações que fizeram do antropólogo uma figura central na divulgação das ciências sociais da África francofônica.

 
Combatente na ocupação francesa e militante pan-africanista, Balandier engajou-se enquanto intelectual durante a égide da supremacia europeia, na qual o imperialismo vigente representava um tema de cunho dogmático. Durante seu percurso, o intelectual conciliou a atuação sociológica e política não somente no meio acadêmico, mas na realidade social como um todo, diante das injustiças presentes.

Até quando Balandier parte para o Congo, em 1946, a antropologia africanista, em geral, esteve atenta em compreender o funcionamento das organizações nativas. O cientista social tenta romper com essa tradição ao tomar para si a postura de uma disciplina sociológica engajada não somente com a independência dos respectivos países africanos, mas com a emancipação dos nativos presentes, ao torná-los sujeitos políticos e não meramente objetos de análise. Curiosamente hoje em dia para nós, Balandier, apesar de fornecer um peso maior a antropologia durante seu caminho de intelectual, utiliza-se igualmente da sociologia como meio de aprofundar sua análise sobre as transformações sociais dos indígenas africanos. A sociologia incorporada pelo cientista social francês teria permitido, assim, um alcance crítico maior na dinâmica das comunidades estudadas que a antropologia até então não possuía.

Em um de seus primeiros artigos “Aspect de l´evolution social des Fang du Gabon” (1950), o intelectual concebe a situação colonial como o atrito de civilizações sob a dominação imposta pela minoria estrangeira. Para ele, a colonização traz consigo uma coerção externa, pois as formas de sociabilidade nativas estiveram em confronto com formas sociais radicalmente heterogêneas. Tal contato provocou uma ruptura brusca com as estruturas sociais existentes. Deparada com as mutações violentas e rápidas das sociedades africanas, acarretadas pela dominação estrangeira, a disciplina sociológica teria por dever de revelar as transformações das estruturas sociais locais, de suas relações sociais, em contato colonial. Em solo africano, Balandier percebe uma nítida reação nativa contra os interesses da administração colonial em fragmentar as estruturas sociais indígenas. Diante da imposição de um sistema religioso, econômico e político externo, a sociedade aborígine “Fang” se apropria criativamente da modernidade colonizadora a seu favor. Se a situação colonial provoca primeiro o movimento de atomização da comunidade local, ela depois permite o movimento inverso de reagrupamento.

Em contexto de problemas genuínos da sociedade colonizada, o etnólogo francês (1951). aponta a necessidade de o cientista social estar atento não somente a realidade local em que o pesquisador se insere, mas a reciprocidade de relações sociais de dominação entre a sociedade metropolitana e a colonizada.

Balandier (1962) desvela que em nome da superioridade racial e cultural, os colonos estabelecidos nas colônias se utilizam de um jogo ideológico de sistemas dogmáticos para justificar uma ordem social mútua, de esfera nacional e internacional. Na visão do antropólogo, a situação colonial não teria somente a necessidade em manter a dominação através da violência física, mas por meio de um sistema de valores simbólicos tornar impenetrável o “status quo” daquele país na idealização do Norte-atlântico. .

Tal qual é afirmado em seu artigo de 1952, intitulado “Contribution à une sociologie de la dépendance », longe da crise das colonizações não representar o desaparecimento dos novos efeitos de dominação surgidos, a sociologia deveria dar conta dos novos laços da colonização e de dependência. Ao assimilar a relação metrópole-colônia com o capital-trabalho, o etnólogo (1954) acredita que a sociologia deveria estar suscetível igualmente com as classes sociais recém-formadas.

O “sociólogo” africanista (1962), inquieto pela “situação colonial”, acreditava que uma das possíveis soluções para o “subdesenvolvimento” implicaria, em particular, na reorientação do dinamismo interno nativo. Isto seria somente possível por meio de uma considerável mobilização ideológica promovida por condições históricas que permitissem amadurecer as experiências sociais de cada comunidade africana; cada uma escolhendo autonomamente o modelo político a ser tomado.

Na esfera acadêmica, o cientista social teve o desempenho chave de ter criado (1957) o “Centro de Estudos Africanos da França” (dirigido por ele até 1984) e na África o “Instituto de Estudos Centro-africanos em Brazzaville” (1946) que assumiu até 1951. Em paralelo, Balandier dirigiu o “Cahiers Internationaux de Sociologie” (1966 -1996), estimulando a atenção da revista as produções sociológicas africanas. Ademais, assumiu o comitê de redação de várias outros periódicos com olhar na África, como a emblemática revista do continentePrésence africaine” , fundada por Alioune Diop (1947), uma das figuras mais importantes da negritude e o “Cahiers d´Études Africaines”.

Referências Bibliográficas

BALANDIER, Georges.  (1951).“La situation colonial”. In Cahiers Internationaux de sociologie. XI, pp.44-79.

__________.(1954). « Sociologie de la colonisation ». In Cahiers Internationaux de sociologie.Vol XII, pp.17-31.

_________. (1962) . “Mythes politiques de la colonisation”. In Cahiers Internationaux de sociologie.Vol XXXIII, pp.85-96.

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