O CLAPCS e o Diálogo entre os Aparentados de Família Ibérica.

Por Leonel Salgueiro,

Você já ouviu falar do Centro Latino Americano de Pesquisa em Ciências Sociais? Talvez você o reconheça pela sigla CLAPCS, mas vale ressaltar qual foi a importância desta organização para a construção de um diálogo entre países latino americanos. No artigo “El Centro de la Periferia: Internacionalización de las Ciencias Sociales y Redes Académicas Latinoamericanas.” o antropólogo argentino Ezequiel Grisendi analisa o processo de institucionalização das ciências sociais na América Latina a partir do CLAPCS, sua importância internacional e as críticas que surgem contra a teoria do desenvolvimento neste cenário periférico.

Em 1957, acolhendo uma recomendação da Conferência Geral pela UNESCO (IX Reunião, Índia) para aumentar a propagação científica e cultural entre os países latinos, os países membros estabeleceram duas unidades conduzidas por um mesmo comitê diretivo: uma especializada em docência de pós-graduação, a FLACSO, em Santiago, Chile, e outra dedicada à pesquisa social comparada, o Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais (CLAPCS), no Rio de Janeiro. Essa estrutura dual manteve-se por toda uma década, prazo final da ajuda programada da UNESCO (que financiou integralmente a operação das duas unidades no período 1957/68). A partir dessa data a FLACSO manteve o caráter original de Organismo Intergovernamental, enquanto o CLAPCS adotou o caráter de “instituição nacional com vocação internacional” até o seu fechamento, em fins da década de 70. ¹

Grisendi sugere que com o fim da Segunda Guerra Mundial, se originou um movimento de institucionalização das ciências sociais na América Latina sustentado por agências governamentais, principalmente pela UNESCO. Este seguimento ocorre por conta do processo de urbanização dos países periféricos. Foi consagrado, nessa época, um discurso no qual o mundo rural era identificado como atrasado, velho, passado, enquanto o mundo urbano seria visto como adiantado, novo, moderno. Estávamos de fato em um tempo cultural acelerado, marcado pelo espírito do “novo” e pela vontade de mudança. Tudo é novo: cidade nova, cinema novo, bossa nova.

Neste sentido a socióloga Lúcia Lippi Oliveira argumenta em seu artigo Diálogos Intermitentes: relações entre Brasil e América Latina.” que o foco da analise neste período é a Mudança Social. O Rio de Janeiro, sede do CLAPCS, passa a ser centro para tais pesquisas de desenvolvimento na América Latina, formando e consolidando vínculos acadêmicos com esta região. O que podemos entender como a formação de um centro, identitário do Norte em um conglomerado de países do Sul, tema já tratado pelo Circuito que você pode conferir clicando aqui.

Subjacente a essa ideologia do desenvolvimento havia uma filosofia da história e o Brasil era visto como dividido em dois campos: o lado moderno, dinâmico, produtivo, que se contrapunha ao tradicional, estático, parasitário. E o nacionalismo de então que era pensado como a ideologia capaz de vencer as forças do atraso e a exploração das massas. Ou seja, essas formulações serviam para explicar a realidade, mas, acima de tudo, serviam para convencer grupos e classes a lutar para alcançar uma nova realidade social, como evidencia Oliveira.

Grisendi complementa que diante de uma perspectiva decididamente comparativa e com representantes dos diferentes países da América Latina, o CLAPCS se torna um veículo de proximidade para as pesquisas desenvolvidas entre eles, mesmo que guiado por uma ordem política de mudança social.

Tanto Oliveira, quanto Grisendi concordam que a iniciativa foi pioneira em sua abrangência ao tomar como objeto de estudo a América Latina. Segundo Oliveira, é o processo de modernização que irá, inclusive, consolidar a sociologia como disciplina cientifica na América Latina. Por estar pautada em um modelo universalista e globalizado as formas de comparação permitem que acompanhe e se oriente pelos padrões do centro.

Para os autores, políticas que privilegiem o diálogo entre os países “aparentados de família ibérica” são necessárias para a formação de laços científicos. O CLAPCS exerceu um papel importante até o começo da ditadura. É uma história dos anos 60, como ressalta Oliveira, mas que deve servir de apoio para pensarmos os esforços para um mercado comum de bens simbólicos entre os países da América Latina. Assim pergunto, seriam as medidas atuais suficientes para facilitar o diálogo entre estes países? Se levarmos em consideração que fomos precedidos pelo fim das ditaduras militares no cone sul; estamos inseridos em uma economia mais globalizada, carimbada com o nome de neoliberal e vivemos estruturas políticas razoavelmente democráticas, o que não nos falta são meios para assim o fazer.

¹ Paragrafo retirado do site da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

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