Renovando a imaginação sociológica: por uma sociologia não exemplar

Por Edmar M. Braga Filho

Por trás de muitas análises sociológicas temos pressupostas as noções de modernidade, Estado, secularização, racionalização, entre muitas outras, norteando a forma como percebemos e interpretamos o cotidiano de nossa sociedade. Mas seria possível trocar as lentes de análise e estudar a realidade social de uma outra forma, que não se identifique com as noções anteriormente citadas? Para Marcelo C. Rosa é possível, por meio de uma sociologia que ele denomina de não exemplar, em seu texto Rumo a uma sociologia não exemplar: modernidade, decolonialidade e lutas por terra na África do Sul e Brasil.

O ponto de partida do autor é a constatação de limites nas narrativas teóricas da sociologia, quando usadas para descrever

O autor em trabalho de campo na Índia: a sociologia exemplar dá conta, com sua narrativa e teoria, de compreender as relações sociais dessas sociedades? Foto do acervo do laboratório de Rosa http://www.naoexemplar.com/?page_id=344
O autor em trabalho de campo na Índia: a sociologia exemplar dá conta, com sua narrativa e teoria, de compreender as relações sociais dessas sociedades?
Foto do acervo do laboratório de Rosa http://www.naoexemplar.com/?page_id=344

processos sociais em países do chamado “sul”. Na realidade destes países ocorreriam fenômenos sociais que prescindiriam de conceitos calcados em processos ocorridos nos chamados países do “norte” (como o de modernização). Para Rosa, quando esses conceitos são utilizados de forma a compreender a realidade de países do “sul”, sempre se dá de forma “comparativa”, ou seja, comparando-se a experiência do sul com a teoria do norte, aprofundando a desigualdade global na produção do conhecimento. A saída, para o autor, deve passar pela formulação de questões, agendas e objetos de estudo que não sejam derivados da sociologia original, chamada por ele de sociologia exemplar.

Com isso, Rosa defende a existência de uma sociologia não exemplar, cabendo a ela estudar aqueles aspectos da realidade social que não são contemplados pelo modelo “exemplar”, ou seja, que se encontram no limiar conceitual e explicativo da sociologia tradicional. Para isso, a sociologia não exemplar não seria constituída de um frame, de “cercas” e limites, construindo, desta forma, seus instrumentos de análise de acordo com seu objeto. São questões de sua alçada responder: “que relações se estabelecem em meus universos empíricos? ”; “como se constroem as grandezas envolvidas nessas relações? ”. Para o autor, a sociologia não exemplar “lidaria com os contextos incomensuráveis nos quais as sociologias exemplares agem como barreiras epistemológicas e para as quais as vidas sociais não brancas e europeias seriam desvios ou aberrações. ” Importante enfatizar que o autor não almeja repudiar e negar as conexões entre norte e sul, ou o método comparativo. Seu ponto é a possibilidade de uma alternativa viável para a constituição de uma sociologia do sul.

Rosa exemplifica um caso de sociologia não exemplar por meio de um estudo empreendido por ele sobre o movimento sem-terra sul africano  Landless People’s Movement (LPM), comparando-o com o MST brasileiro. Este último seria compreendido à luz de conceitos ligados à modernização e à transição rural-urbana, como os de cidadania, identidade e meios de produção – termos exemplares para o estudo da terra na agenda sociológica. Em contrapartida o autor relata um “choque epistemológico” a partir do momento em que verificou que esses conceitos eram inadequados para compreender o LPM. No caso sul-africano a cor da pele é crucial para as pessoas ligadas ao movimento, sendo os sem-terra “Negros”, além do fato de que eles lutam por uma reforma da terra (e não agrária, como no caso brasileiro, que possui um sentido mais restrito), e não cabe na estrutura produtiva e política que organiza as áreas rurais da África do Sul. Essas características fariam do LPM uma narrativa sociológica não exemplar, exigindo outros parâmetros também não exemplares de análise.

Landless People's Movement: um exemplo de narrativa não exemplar
Landless People’s Movement: um exemplo de narrativa não exemplar

A proposta do autor se insere num quadro mais amplo de discussão teórica crítica em relação à sociologia mainstream, colocando-se ao lado de perspectivas pós-coloniais e decoloniais. Todas têm em comum a busca por alternativas ao caráter eurocêntrico, colonial e até imperialista da disciplina, seja em sua formação histórica ou constituição contemporânea. Ao se caracterizar como um esforço para o estabelecimento de uma “sociologia do sul ”, a sociologia não exemplar aqui esboçada não se atenta, a meu ver, para o caráter global da formação da modernidade, uma vez que caracteriza esse processo como alheio aos países e sociedades do sul, contrariamente, por exemplo, ao que argumenta Gurminder Bhambra (2014). Contudo, seu esforço em renovar a imaginação sociológica para novos objetos e agendas de estudos, em certa medida periféricos e não hegemônicos (uma vez que estão à margem da sociologia mainstream), é necessário. Outro ponto a ser destacado e elogiado de seu texto é que seu esforço também passa não pela identificação de uma “unidade” de afinidades entre não exemplares, mas sim pela introdução de novas questões “que coloquem em jogo as escalas teórico-metodológicas de que dispomos para construir nossos problemas de pesquisa. ”

REFERÊNCIA

ROSA, Marcelo C. Rumo a uma sociologia não exemplar: modernidade, decolonialidade e lutas por terra na África do Sul e Brasil. In Crítica pós-colonial: panorama de leituras contemporâneas. Rio de Janeiro: Editora 7 letras, 2013. pp 287 – 300.

A sociologia não exemplar constrói seus instrumentos na medida em que constrói seus objetos: não tem limites e lidaria com contextos incomensuráveis para a sociologia exemplar.
A sociologia não exemplar constrói seus instrumentos na medida em que constrói seus objetos: não tem limites e lidaria com contextos incomensuráveis para a sociologia exemplar.
Anúncios

2 opiniões sobre “Renovando a imaginação sociológica: por uma sociologia não exemplar”

  1. Caro Ed,

    Obrigado pela leitura atenta e pertinente do meu trabalho. A questão que você coloca sobre as modernidades (histórias) conectadas é de fato uma das alternativas que estão em jogo. O fato de não considera-las em minha análise é proposital nesse momento. Como você pode ver em meu site – um dia isso vai virar um texto, eu espero – meu problema com elas é que elas mantém a modernidade como centro da sociologia. Quando pretendo de fato multiplicar os centros. Dizer que a modernidade começou ao mesmo tempo na América, na Índia e na Europa não nos livra do problema da exemplaridade que limita a sociologia aos objetos modernos. Vou te dar um exemplo, há nessa bibliografia e muitas outras que estão a ser publicadas recentemente uma redescoberta da revolução Haitiana com fundante dos ideais da modernidade. Em geral ela é elogiada porque antecipou questões das revoluções Europeias. Porque esteve na frente do tempo de algo que hoje tem valor por ser Europeu. Há dois problemas aqui: a) uma noção linear de história que não muda em nada o método comparado da sociologia (compartilhada, mas linear); b) o Haiti só interessa porque produziu coisas modernas (democracia, liberdade), nessa literatura não há espaço para religião e outros objetos que não cabem na agenda do moderno. Na minha leitura, esse “sul” compartilhado só ganha status de objeto sociologia quando se comunica com a narrativa hegemônica. Talvez a minha questão com o não-exemplar seja contra-hegemônica nesses termos. Eu gostaria que o sul fosse não-exemplar, isso não significa que ele seja, ainda.
    Obrigado por chamar a atenção o ponto e por me fazer escrever esse parágrafo.
    Marcelo

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s