“Harvard deveria ter mais brasileiros”: Internacionalização e geopolítica do saber

Por: Joanna Cassiano

Atualmente, 104 brasileiros compõe o total dos 21 mil estudantes de Harvard, considerada a segunda melhor Universidade do mundo, segundo o ranking Times Higher Education World 2014-2015. O número é um recorde na história da relação entre o Brasil e a instituição de Massachusetts, nos Estados Unidos, e representa um crescimento de 70% quando comparado aos índices dos últimos oito anos. Mas segundo Jorge Dominguez, vice-reitor de Relações Internacionais da Universidade, ainda é pouco. Em entrevista(*) concedida ao jornal Estadão, Dominguez afirma que: “Se me perguntarem quantos brasileiros devem estudar em Harvard, a resposta é simples: mais. O motivo também é simples: eles são bons”.

Na entrevista, o vice-reitor ressalta que, atualmente, o Brasil é um dos dez países com maior representatividade discente na instituição, mas que a presença de brasileiros ainda é baixa se comparada a de estudantes de outros países emergentes, como Índia e China. Por outro lado, Dominguez salienta que existem, por exemplo, mais alunos brasileiros que franceses ou japoneses na universidade.

O vice-reitor destaca ainda o desempenho destacado dos alunos brasileiros: “Os estudantes brasileiros que recebemos, em diferentes partes da universidade têm feito um trabalho extraordinário e estudam muito”. Dominguez acredita que o período de crise na economia do Brasil pode significar um atrativo a mais para que alunos brasileiros busquem uma vaga na universidade americana. Segundo ele: “Ao invés de bater minha cabeça na parede e ficar nervoso, posso tentar uma pós-graduação. Com as parcerias entre o governo brasileiro e Harvard, há a possibilidade de financiamento para alunos de mestrado e doutorado. É uma questão de usar o tempo e se preparar para a próxima fase, quando houver recuperação financeira do país”.

Sobre o processo de internacionalização do ensino superior brasileiro, Dominguez é enfático: “O Brasil precisa entender que o futuro do país depende de um esforço de enviar mais alunos para o exterior. Quando voltarem, essas pessoas serão mais eficientes em qualquer profissão que seguirem”. O vice-reitor afirma ainda a importância da internacionalização do nível superior enquanto possibilidade de formação de uma rede de contatos científica ao redor do mundo.

Sobre os atuais programas de internacionalização do governo brasileiro, Dominguez, que também é professor de Política e História da América Latina na instituição, elogia o programa Ciência sem Fronteiras, mas reconhece como uma questão emergencial a necessidade de formulação de outros programas que incluam as demais áreas do saber, já que em seus atuais moldes, o programa Ciência sem Fronteiras se destina exclusivamente a alunos das chamadas “ciências duras”.

A pauta da internacionalização e do estímulo ao intercâmbio de alunos, professores e pesquisadores entre academias do Sul e do Norte global é um assunto que divide opiniões e se encontra no cerne do debate sobre a chamada geopolítica do saber. Isso porque, se de um lado ressalta-se a potencialidade da internacionalização como ferramenta de construção de uma rede global de contatos científicos, do outro questiona-se o fato desse fluxo está majoritariamente pautado na procura por universidades do Norte, em especial países como Estados Unidos, França e Inglaterra. De fato, a internacionalização é uma realidade necessária e valiosa para a comunidade acadêmica, porém, precisamos refletir sobre como ela é feita. Ainda que o aumento do número de brasileiros em Harvard seja um fato importante, é preciso pensar também nas razões que levam, por exemplo, a maior parte do número de universidades de destino dos alunos do programa Ciência sem Fronteiras serem no Norte global. Pensar internacionalização é necessariamente pensar em um movimento que de fato integre, comunique e considere as diferentes partes do mundo através de suas diferentes formas de produção do saber.

(*) Entrevista na íntegra: http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,harvard-deveria-ter-mais-brasileiros-diz-vice-reitor-imp-,1676476

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