Geopolítica e Internacionalização das Ciências Sociais

 Por Raphael Lebigre,

Seria possível no mundo contemporâneo uma internacionalização das ciências sociais que reconhecesse as autonomias intelectuais do Sul Global? A socióloga Wiebke Keim tenta responder à pergunta.

No artigo: “Social sciences internationally: The problem of marginalisation and its consequences for the discipline sociology” (2008), a autora trata da marginalização da produção e pesquisa acadêmica em ciências sociais, em especial da sociologia, no Sul Global perante o Norte Atlântico.

A cientista social parte da hipótese de que o modelo de centro e periferia é uma ferramenta válida para a descrição e compreensão dos processos de produção acadêmica e suas circulações em nível internacional.

Keim argumenta que, historicamente, a sociologia como disciplina europeia foi exportada aos demais continentes apenas tardiamente, dentro do sistema colonialista. A socióloga denota que mesmo após as descolonizações afro-asiáticas, durante 1950-80, as estruturas de dependência acadêmica entre o Sul Global e o Norte Atlântico se mantiveram. Segundo ela, ainda hoje os Estados Unidos e a Europa possuem uma grande influência nas produções das ciências sociais na África, Ásia, América do Sul e Oceania. Dentre os dois locais geográficos de hegemonia, a cientista social frisa que os Estados Unidos tiveram um impacto considerável no Sul Global devido à sua estratégia na Guerra Fria em influenciar ideologicamente as ciências sociais dos países periféricos.

Wiebke Keim discorre no decorrer de seu artigo quatro aspectos das desigualdades entre o Norte Atlântico e o Sul Global que se mantêm atualmente:

A falta de estrutura material: ela acarreta uma das maiores causas do status periférico da sociologia em alguns países. No revés, uma sociologia nacional integralmente desenvolvida requer alto nível de institucionalização, o que exige fundos para pesquisa, comitês, revistas científicas, publicações, entre outros.

A dependência acadêmica: nas instituições do Sul Global a carência de ferramentas de ensino, pesquisa e formações acadêmicas de ponta traz consigo, igualmente, a necessidade de se absorver um conjunto de teorias e conceitos do Norte Atlântico, local de referência acadêmica.

Mesmo reconhecendo que as disciplinas sociológicas se desenvolveram nos continentes periféricos, principalmente em políticas de pesquisa, isso não é suficiente, segundo ela, para fazer com que o Sul Global supere sua dependência acadêmica. Com efeito, para a pesquisadora, diante dos padrões de produtividade internacional, os cientistas sociais periféricos são levados a valorizar prioritariamente as comunidades de sociólogos estrangeiros, e não as locais, redes estruturadas por moldes dos países centrais.

– Marginalidade versus Autonomia: além das desigualdades materiais e teóricas, na comunidade internacional das ciências sociais haveria uma relação de exclusão entre as instituições do Norte Atlântico e suas produções com as dos países periféricos. Para a socióloga, a centralidade estabelece o que poderia ser conhecido como escolas, paradigmas e ideologias nas ciências sociais. Como decorrência da divisão internacional do trabalho sociológico, isso faz com que o Sul Global produza principalmente conhecimento em níveis locais, com uma baixa proporção de abstração e generalização, enquanto que a Europa e os Estados Unidos possuem o monopólio de pesquisas comparativas de prestígio e na construção de teorias gerais.

Keim denota que até mesmo as pesquisas de países periféricos beneficiadas com programas de cooperação são submetidas a agendas estreitas. No exemplo dos professores palestrantes do Sul Global, convidados pela instituição francesa EHESS (“Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais”), no período 2001-2003, entre eles, a maioria dos pesquisadores africanos eram especialistas regionais e não cientistas sociais que tratavam de temas abrangendo igualmente outros contextos, além da África. Por outro lado, os demais pesquisadores, principalmente do Norte Atlântico, abordaram temas mais gerais.

– Evolucionismo no pensamento social: Keim defende que as disciplinas do centro dominante ainda consideram hegemonicamente os países do Sul Global como contextos alinhados no mesmo fio da história que o Norte Atlântico, composta por várias fases, nas quais seu ápice consistiria na modernidade da Europa e da América do Norte.  Como consequência, devido à dependência intelectual remanescente entre as periferias e o centro, é comum por parte de autores do Sul Global o comportamento de resignação quanto às alternativas de não alinhamento metodológico com as ciências sociais do Norte Atlântico, o que a autora chama, calcada em Syed Hussein Alatas, de “mente cativa”. Ademais, em alinhamento, por exemplo, com o livro da socióloga australiana Raewyn Connell: “Southern Theory” (2007), a pesquisadora defende que os modelos universais nas ciências sociais do centro reconhecem, principalmente, a África e a América Latina como lugares para a aplicação de suas teorias e não lugares detentores de suas interpretações locais e autônomas.

Wiebke Keim sugere, portanto, que o problema das desigualdades acadêmicas entre o centro e a periferia não representa somente um obstáculo para o desenvolvimento autônomo das ciências sociais no Sul Global, mas um problema epistemológico no núcleo da disciplina. Na opinião da socióloga, as tentativas recentes de “internacionalização das ciências sociais” estão fundadas, em sua essência, na tentativa do Norte Atlântico manter sua hegemonia intelectual num mundo cada vez mais polarizado e, ao mesmo tempo, interligado.

Referências Bibliográficas

CONNELL, Raewyn. (2007). “Southern Theory”: The Global Dynamic of Knowledge in Social Science, Cambridge, Polity Press.

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