Sobre a desigualdade global na produção e circulação do conhecimento

Por Edmar M. Braga Filho

Um centro pode ser definido como um lugar de onde se irradia influência, e em torno do qual gravitam outros lugares dele dependentes. Esta relação demonstra a sujeição dos últimos pelo primeiro. Manifestando-se de várias formas, este continuum centro-periferia estrutura também o mundo da ciência. É o que nos mostra o sociólogo malaio Syed F. Alatas, em seu prestigioso artigo Dependência Acadêmica e a Divisão Global do Trabalho nas Ciências Sociais*.

Contrapondo-se à crença de uma ciência empreendida de forma equânime, Alatas nos apresenta um conhecimento que é produzido e circulado de maneira desigual entre determinados países e comunidades de cientistas sociais. Para ele, esta desigualdade se estrutura por meio de uma relação de dependência, historicamente constituída e constantemente reproduzida. Ele situa as comunidades científicas dos EUA, Grã-Bretanha e França como as atuais grandes potências das ciências sociais, em torno das quais são sujeitadas comunidades periféricas e semi-periféricas. Em sua análise, três conceitos são basilares: imperialismo acadêmico, dependência acadêmica e divisão global do trabalho nas ciências sociais.

Para o autor, as ciências sociais possuem historicamente uma estreita ligação com o imperialismo. Este, em seu sentido lato, pode ser definido como a dominação política e econômica de algumas nações sobre outros territórios. O caso específico do imperialismo acadêmico seria uma forma de herança do controle das antigas potências colonialistas sobre as atuais ex-colônias. Se num primeiro momento este fenômeno se deu de forma direta, por meio do controle de instituições educacionais e científicas exercido pelas nações imperialistas dos séculos XIX e XX, atualmente o “neoimperialismo” acadêmico se dá de forma indireta, dispondo das seguintes características por parte das nações centrais:

  • Geram extensa produção da pesquisa em ciências sociais, na forma de livros, artigos, papers;
  • Possuem a habilidade de influenciar as ciências sociais de outros países devido ao consumo de seus trabalhos;
  • Possuem um alcance global de ideias e informações contidas nesses trabalhos;
  • Dominam grande parte do reconhecimento, respeito e prestígio, tanto internamente quanto mundialmente.

No entanto, para sua eficácia e permanência, o neoimperialismo acadêmico necessita de condições específicas de funcionamento. Para isso, torna-se central o conceito de dependência acadêmica, definida como a condição na qual as ciências sociais de certos países são condicionadas pelo desenvolvimento e crescimento das ciências sociais de outros países, aos quais os primeiros estão sujeitados. Este fenômeno acontece quando algumas comunidades de ciências sociais (localizadas nas grandes potências anteriormente mencionadas), podem se expandir de acordo com determinados critérios de desenvolvimento, enquanto outras comunidades científicas (sobretudo as localizadas nos chamados países do “Terceiro Mundo”) podem apenas fazer isso como um reflexo desta expansão. A dependência acadêmica, nesses termos, possui seis dimensões, segundo o autor:

  • Dependência das ideias;
  • Dependência dos meios de veiculação das ideias;
  • Dependência da tecnologia educacional;
  • Dependência dos auxílios para pesquisa e ensino;
  • Dependência de investimentos em educação;
  • Dependência dos cientistas do Terceiro Mundo em recorrerem ao Ocidente para se especializarem.

Destaco aqui as duas primeiras dimensões. A primeira diz respeito à metateoria, teoria, pesquisa empírica e aplicada. Não há, para o autor, metateoria ou teoria emergindo do chamado “Terceiro Mundo”. Há, por outro lado, um significativo trabalho empírico gerado pelos países periféricos, tomando a agenda de pesquisa do centro como modelo, bem como seus métodos e perspectivas teóricas. Já a segunda dimensão diz respeito à dependência de livros, periódicos científicos, conferências, papers e artigos dos meios do centro, por meio dos quais as comunidades periféricas necessitam para obter reconhecimento e se desenvolverem.

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No modelo proposto pelo autor, os países de cor vinho seriam os grandes centros mundiais das ciências sociais, enquanto as comunidades científicas dos países em vermelho seriam exemplos de semi-periferias, ou seja, conservam características tanto do centro quanto da periferia.

Até o que fora aqui exposto, identificamos o neoimperialismo acadêmico como um fenômeno existente definidor do relacionamento entre comunidades científicas do “Primeiro e Terceiro Mundos”, e é mantido por condições de dependência acadêmica. Depreende-se com isso que há uma relação desigual no âmbito da produção e circulação do conhecimento científico. A natureza dessa desigualdade pode ser compreendida pela análise da chamada divisão global do trabalho nas ciências sociais. Originalmente concebida pelo modo colonial de controle das práticas científicas nas atuais ex-colônias, esta divisão se dá em três níveis:

  • Divisão entre trabalho intelectual teórico e empírico;
  • Divisão entre estudos de outros países e estudos do próprio país;
  • Divisão entre estudos de caso e estudos comparativos.

O autor enfatiza que os países centrais, em comparação com os periféricos, tenderiam a empreender estudos tanto de seus países, quanto de outros, além de realizarem mais pesquisas comparativas e trabalhos de teoria e metateoria.

Por fim, Alatas sugere algumas ações para a reversão desta relação desigual existente entre comunidades científicas mundiais. Segundo ele, deve haver um reconhecimento por parte dos cientistas periféricos da necessidade de reforçar laços entre si, por meio do intercâmbio acadêmico. O esforço para essa reversão também passa pela ação de comunidades e professores em abordar o problema em sala de aula e realizar pesquisas sobre o seu estado de dependência. A nível teórico, o autor sugere a busca e a valorização de alternativas que não se centrem na agenda definida pela atual relação desigual. Desta forma, a elaboração de um conceito não imperialista de desenvolvimento é fundamental.

 *Tradução livre

Referência

ALATAS, S. F. Academic Dependency and the Global Division of Labour in Social Sciences. Current Sociology. Vol 51 (6), novembro 2003.

eliza-stamps
Por uma produção e circulação global do conhecimento científico em ciências sociais equânimes, descentralizadas e igualitárias
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