Marxismos e autonomia sociológica na América Latina

Por Raphael Lebigre,

É inegável afirmar que no mundo contemporâneo, o capitalismo foi primeiro compreendido em sua complexidade, nas áreas da economia, história e das ciências sociais, por Karl Marx e Friedrich Engels, no século XIX.

Ao citar os autores latino-americanos: Carlos Mariategui, Caio Prado Jr e Florestan Fernandes, proponho que o marxismo teve a importância histórica de contribuir para a readequação epistemológica das ciências sociais do continente. Para tanto, limito-me à geração do final do século XIX e início do XX, que abrange o inicio do desenvolvimento dos Estados Nação na América Latina e algumas experiências de governos nacionalistas no continente.

Saliento que ao ser um instrumento prático e analítico para modificar a realidade, “práxis”, o marxismo é marcado, talvez em seu ponto sociológico essencial ,pela recorrência à história dos meios de produção para compreender as relações sociais na atualidade. Deste modo, nos autores citados estão presentes as questões da construção nacional e das possibilidades históricas de mudanças políticas.

De inicio, embasado em Badiou (1975), friso que o “terceiro mundismo” foi fortemente influenciado por duas fontes: o ensaio de Lênin, “Imperialismo, última etapa do capitalismo” (1916), que representa um marco na compreensão da dependência entre as metrópoles e as colônias. (Wallerstein, 1983); e o livro de Mao Tsé Tung: “Sobre a Contradição” (1937), em que tenta atualizar o marxismo como ferramenta intelectual e política de rebelião no contexto do semi-capitalismo chinês, subordinado pelo colonialismo. 

Carlos Mariategui (1894-1930), escritor peruano, buscou em seu livro “Sete Ensaios” (1928) compreender o desenvolvimento do Peru. Nele, aponta que o motivo do atraso do país está nos modos de produção de uma economia agrária, monopolizada pela fusão dos latifundiários e da burguesia. Se as classes altas estão aliadas por interesses, sobretudo, ideológicos e econômicos, isto tornaria o país não somente atrasado, como subordinado aos ditames dos Estados Unidos e da Europa. O que torna a burguesia local uma classe imatura. Por outro lado, para Mariategui, o país latino-americano possui um campesinato indígena, que representa a força pilar de mudança, junto às demais classes trabalhadoras urbanas. Quando recorre à história do colonialismo, Mariategui faz, talvez, sua maior contribuição intelectual ao reconhecer não somente o contexto de colonização interna do Peru, mas a complexidade da propriedade coletiva indígena “ayllu”. Mariategui, em oposição ao marxismo soviético, acreditava que os modos de produção indígenas seriam o modelo base das novas relações materiais que poderiam ser alcançadas como alternativa ao capitalismo. Não é por nada que alguns autores, como Michael Lowy (2011), consideram Mariategui o maior pensador marxista do continente. 

Junto a Mariategui, Caio Prado (1907-1990) pode ser considerado como o precursor do marxismo na América Latina. (Novais, 1983, apud Reis, 1999). O autor é reconhecido, juntamente com Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda, um dos fundadores das ciências sociais no Brasil. Ao adotar na historiografia nacional o marxismo, o intelectual inaugura um novo meio de entender a realidade brasileira. (Reis, 1999). Durante seu percurso intelectual, precisamente nos livros: “Formação do Brasil contemporâneo” (1942) e “A revolução brasileira” (1966), Caio Prado argumenta que a importação do marxismo no Brasil se faz na condição de primeiro compreender as condições espaciais, históricas e sociais particulares à sociedade brasileira, para depois adaptá-lo à realidade nacional.

Segundo Reis (1999), contrariamente às concepções que enxergavam o Brasil atrasado, devido à sua situação semi-feudal, o autor defende que as origens históricas do Brasil, em contraste com a Ásia, têm suas raízes desde o inicio no capitalismo mercantil da Europa. Deste modo, Caio Prado rompe com a tradição conservadora da historiografia do país, que não levava em conta as formações sociais a partir de um processo de dependência histórico-colonial, perdurado no Brasil contemporâneo.

Florestan Fernandes (1920-1995), cientista social brasileiro, tentou fazer da sociologia um meio de conscientização crítica da realidade social. A disciplina, que pode ser chamada também de “sociologia crítica”, caracteriza-se por pensar a realidade social a partir das raízes históricas do contexto nacional. Contrariamente, por exemplo, à Mariategui e Prado Jr, a ciência social de Florestan seria mais eclética, incluindo clássicos Marx, Durkheim, Weber até Balandier e Mannheim

Como sugere Arruda (1997), Florestan adota no método histórico de Marx a atenção às classes que possibilitaram, por sua exploração econômica, a construção do país. Em seus sucessivos livros, entre eles: “A integração do negro na sociedade de classes” (1964) e a “Organização Social do Tupinambás” (1949), são índios, negros, imigrantes, escravos e trabalhadores que reaparecem no movimento da história no Brasil. Além das classes, Florestan, como os demais autores citados, está atento aos processos políticos existentes. No exemplo do livro:  “A revolução burguesa no Brasil” (1975), Florestan concentra-se na pesquisa e interpretação das condições e nas possibilidades das transformações no Brasil, país marcado, como outros do continente, pela ditadura militar. Por essas vias gerais, o intelectual fez o esforço, em sua trajetória, de fundar uma sociologia  genuinamente nacional, porém aberta as teorias estrangeiras.

Proponho, assim, que cada um dos três cientistas sociais tentou, com o norteio do marxismo, em seu tempo e espaço, compreender a realidade latino-americana; primeiro passo para transformá-la em suas bases materiais, de maneira criativa, original e profunda.

Referências Bibliográficas

BADIOU, A. (1975). Théorie de la contradiction. Paris: Maspero.

FERNANDES, Florestan.(1949). A organização social tupinambá. São Paulo, Ed Progresso .

PRADO JUNIOR, Caio. (1966). A Revolução Brasileira. São Paulo, Ed Brasiliense.

WALLERSTEIN, I. (1983). “Historical Capitalism with Capitalist Civilization”. London: Verso.

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