Iniciação Científica e a Permanência em Ciências Sociais.

Por Leonel Salgueiro,

Seria a Iniciação Científica uma das maneiras de aproximar os estudantes à universidade e também evitar a evasão dos cursos científicos? Segundo a socióloga Glaucia Villas Bôas, em seu artigo “Currículo, Iniciação Científica e Evasão de Estudantes de Ciências Sociais” a prática de Iniciação Científica (IC) não só tem aproximado os estudantes do fazer sociológico, ou seja, a prática do campo científico em si, como também diminui consideravelmente o número de desistências no curso de Ciências Sociais ao longo dos 50 anos pesquisados em seu artigo.

Vale ressaltar que o artigo em questão é um relato dos primeiros anos que sucederam o encerramento do curso de Ciências Sociais pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (FNFI) no Rio de Janeiro, em seguida inaugurado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1939, comparando à implementação do Programa de Iniciação Científica (1988-1997) aplicado pelo Laboratório de Pesquisa Social (LPS) nesta mesma instituição. Sendo debatido no artigo o impacto das diferentes mudanças nas grades curriculares desta disciplina ao longo destes anos e as medidas de IC como fatores contribuintes para a permanência dos graduandos nos cursos de Ciências Sociais da UFRJ.

A autora leva em consideração que fatores, como as medidas políticas desta época (Reforma Capanema) interferiram na escolha e formação destes estudantes. Mas argumenta, também, que os obstáculos de ordem econômica e financeira no decorrer dos anos de formação, bem como as perspectivas sombrias com relação ao mercado de trabalho foram enfrentados por tantos outros que aspiraram ao título de bacharel/licenciado em Ciências Sociais, ao longo dos anos de 1939 a 1988, influindo ora na demanda do curso, ora no seu abandono. As peculiaridades sociais e econômicas, contudo, não são suficientes para explicar o desempenho acadêmico dos estudantes, o aumento da procura ao curso em determinados períodos, os percentuais de evasão e a posição ocupada pelas mulheres no quadro do corpo discente. O que, no conjunto dos dados da autora, chamam atenção não somente para o grau de evasão dos alunos, mas também o desempenho das mulheres que escolheram o curso. Segundo as amostragens de Bôas o percentual de mulheres que se formam nestes anos supera em todas as vezes o percentual de homens formados.

A autora argumenta que tais fatores econômicos, raciais ou de gênero não denotam uma explicação direta a evasão destes alunos, embora sejam contribuintes em diferentes casos. Sendo assim, a reforma curricular passa a ser o ponto pesquisado por Bôas como uma possível explicação para a desistência, ou não, destes.

Ela indica quatro reformas curriculares desde o ano de criação do curso, em 1939 até a quinta e última*, em 1989. Segundo sua análise, durante cinquenta anos, as mudanças de currículo acompanharam as mudanças de ordem social e política, mas não tiveram nenhum êxito sobre o desempenho acadêmico dos estudantes. O grau de evasão dos alunos com o curso não sofre grandes alterações com o decorrer do tempo e uma média de 50% dos ingressantes se formam.

Em 1986, foi criado o LPS, com o objetivo de melhorar a qualidade da formação em Ciências Sociais, integrando alunos em estágios e pesquisas. Mas foi somente em 1988, com a implantação do Programa de Iniciação Científica, que a iniciativa se consolidou. O programa funcionou durante dez anos (1988-1997), abrigando 25 professores e 400 alunos. Segundo os dados coletados por Bôas, dos estudantes pertencentes aos programas de IC o índice de abandono era de 2%. Nos anos de 1988 a 1993, ingressaram 604 alunos no curso de Ciências Sociais, formando apenas 215 (36%). Dos 215 graduados, 146 tinham bolsa de estudos e participavam do LPS.

Os estudantes do programa vinham em sua grande maioria das classes médias urbanas cariocas. No conjunto de 130 jovens entrevistados, 12% autodeclararam-se negros, 66%, brancos, e 22%, pardos. O número de mulheres (60%) era mais alto do que o de homens (40%), acompanhado a tendência observada ao longo dos anos. Tanto homens como mulheres moravam em sua maioria com a família (87%). Parte considerável tinha casa própria em bairros da zona sul e norte da cidade do Rio de Janeiro. A moradia, entretanto, concentrava-se na Tijuca, Vila Isabel, Meier e Andaraí. A experiência de vida desses estudantes era urbana/suburbana e carioca por excelência.

A experiência para estes estudantes foi um profundo acréscimo no conhecimento sobre a área que vão atuar e um forte motivador de interesse com o curso. Eles julgavam ao final da experiência que o conhecimento crítico da realidade brasileira era o maior bem que adquiriram.

Por fim, mesmo que o artigo de Bôas relate acontecimentos encarados já como distantes ao nosso tempo, a prática da Iniciação Científica continua sendo aplicada pelas universidades brasileiras e encarada como um forte incentivo a formação destes estudantes, seja em Ciências Sociais ou outros cursos. Seja o contato com as atividades da profissão, as pesquisas individuais, a orientação dos professores, ou inúmeros outros motivos, fica evidente o forte número de formandos bolsistas nestes primeiros anos e quiçá atualmente.

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