A mãe fundadora negligenciada – sociologia e androcentrismo

Por Edmar M. Braga Filho

O silêncio e a ausência costumam ser mais significativos que o dito e o evidenciado. As histórias oficiais são ritualmente contadas, e acabam sendo naturalizadas e eternizadas. Na iminência de se tornarem inquestionáveis, essas histórias são confrontadas por vozes dissonantes que, embora sempre estivessem presentes, nunca foram de fato ouvidas.

Todos os semestres, nas aulas introdutórias de sociologia, mitos relativos à narrativa histórica desta ciência são perpetuados. Temos o conhecido mito da modernidade europeia, da qual a disciplina seria filha legítima; e o mito dos pais fundadores: Marx, Durkheim e Weber, às vezes também Simmel. Sem questionar, aceitamos convenientemente essas narrativas. Mas seria possível imaginar outras? Para Vineeta Sinha, socióloga da National University of Singapore, não é só possível imaginá-las, como também praticá-las

Em seu artigo Lendo Harriet Martineau no Contexto do Pensamento Social e da Teoria Social* (2001), Sinha narra sua experiência de introduzir a obra e a contribuição de Harriet Martineau (1802-1876), ao lado dos “pais fundadores” nas aulas de graduação.  Para ela, essa decisão constitui uma poderosa estratégia de resgate das mulheres pensadoras na história das ciências sociais.

Para Sinha (2001), o androcentrismo é uma forma particular de viés dentro da história e da prática das ciências sociais. Apenas homens são listados, canonizados e lembrados como clássicos e fundadores. Este viés é notado tanto na negligência da situação das mulheres enquanto objeto de estudo, quanto na negligência de identificá-las como teóricas. A autora destaca que há uma preponderância do ponto de vista masculino na definição dos objetos de estudos, dada a posição social que os homens ocupavam no século XIX, influenciando a maneira como eles interpretavam o mundo. Questões da vida privada, a relação entre homens e mulheres, o papel e a localização das mulheres na sociedade, suas condições de trabalho, entre outros temas, não foram sequer problematizados. Além disso, ela argumenta que há evidências históricas que atestam a presença de mulheres que contribuíram para a história das ciências sociais. Todavia, elas foram deixadas de lado.

Com isso, Sinha propõe duas reações ao androcentrismo das ciências sociais: I) sujeitar as obras sociológicas clássicas à crítica e ao escrutínio, a fim de demonstrar como homens e mulheres foram teorizados e conceitualizados (se foram); e II) resgatar as mulheres pioneiras e colocá-las lado a lado dos clássicos. Sinha se ocupou principalmente desta segunda em suas aulas.

Martineau, lembra a autora, ficou famosa por traduzir o livro de 9781406896510_p0_v1_s260x420Comte para o inglês (The Positive Philosophy). Contudo, mais do que
isso, a pensadora britânica logrou sistematicamente e metodologicamente investigar a sociedade e a cultura. Em seu livro How to Observe Morals and Manners, Martineau adianta vários aspectos que seriam posteriormente trabalhados por Durkheim em seu livro As Regras do Método Sociológico.

Diante de tantas evidências, por que as mulheres continuam invisíveis? Sinha enfatiza que há forças estruturais, formas de pensar e mecanismos institucionalizados que produzem a condição de “invisibilidade feminina”. É reducionista e simplista encarar esta invisibilidade como um esforço deliberado dos homens. Se por um lado o ambiente acadêmico do século XIX europeu era dominado por homens, por outro há espaços periféricos em que mulheres, mesmo não recebendo a mesma educação que homens e não possuindo o mesmo estatuto jurídico, pensavam e refletiam sobre a modernidade e a vida em sociedade.

Por fim, Sinha traça um paralelo do esforço em combater o androcentrismo com o discurso contra-eurocêntrico nas ciências sociais, via processo de indigenização. Lembremos que este processo advém da necessidade de ruptura com o passado colonial da sociologia. Sinha propõe que o termo indigenização precisa ser reconceitualizado, abrangendo a crítica ao androcentrismo.

Por meio de Martineau, é possível reconhecer teorizações alternativas, expandindo a multiplicidade dos discursos de indigenização para além da divisão “não-Ocidental/Ocidental”. Para a autora, o exemplo de Martineau mostra claramente que se a historiografia das ciências sociais não encontrou nenhuma mulher pioneira, não é porque elas não existiram, ou porque elas não foram “boas” o suficiente, mas porque os narradores possivelmente estão procurando em lugares errados, ou usando critérios enviesados.

Assim, é adequado que Martineau deva ser reconhecida como uma pensadora social pioneira, e inserida ao lado de Marx, Weber e Durkheim no cânone de nossa disciplina. E, mais importante, seus escritos devem ser submetidos às mesmas críticas que nós submeteríamos às ideias dos pais fundadores. Se a perspectiva sociológica profana o estatuto sagrado e naturalizado das relações sociais, nada mais sociológico que reconstruir os mitos que nos são contados.

 

*Tradução livre

 

Referência:

SINHA, Vineeta. Reading Harriet Martineau in the Context of Social Thought and Social Theory. Akademika. Bangi, nº59 (Julai), p. 75 – 94, 2001

 

Sobre a teórica clássica:

“Harriet Martineau (1802-1876) tem sido chamada a primeira socióloga mulher, mas, como Marx e Weber, não pode ser tomada simplesmente como socióloga. Ela nasceu e foi educada na Inglaterra e foi autora de mais de 50 livros, como também numerosos ensaios. […] Martineau realizou um estudo sistemático MTIwNjA4NjMzOTA4NzkwNzk2original da sociedade norte-americana durante suas extensas viagens através dos Estados Unidos nos anos de 1830, que é tema de seu livro Sociedade na América. Martineau é relevante para os sociólogos hoje por diversas razões. Primeiramente, ela afirmou que, quando se estuda a sociedade, se deve concentrar em todos os seus aspectos, incluindo instituições-chave políticas, religiosas e sociais.  Em segundo lugar, ela insistiu em que uma análise da sociedade deve incluir um entendimento da vida das mulheres. Em terceiro lugar, ela foi a primeira a dirigir um olhar social a questões anteriormente ignoradas, incluindo o casamento, as crianças, a vida doméstica e religiosa, e relações de raça. […] Finalmente, ela afirmou que os sociólogos deveriam fazer mais do que apenas observar, eles deveriam também atuar de forma a beneficiar a sociedade. Como resultado, Martineau foi uma proponente ativa tanto dos direitos das mulheres como da emancipação dos escravos.”

 

Trecho extraído de: GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005. p 33

 

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Uma opinião sobre “A mãe fundadora negligenciada – sociologia e androcentrismo”

  1. Fantástico o texto! Traz uma discussão tão pouco efetuada na graduação! Eu, por exemplo, nunca tinha ouvido falar na Martineau, e sei também de outros teóricos contemporâneos aos clássicos que não são trabalhados e sequer mencionados durante a nossa formação; Acho isso uma falha grave. Tudo bem, entendo que é preciso uma seleção didática no ensino, mas em relação aos clássicos acho que há uma deficiência na quebra desses “mitos” de surgimento e criação que nos são prejudiciais. É estranho que pensar que apenas três caras de repente tiveram a ideia de sistematizar estudos sobre a sociedade… Compreendendo que o conhecimento se constroi de pontos e contrapontos, e também sínteses, é ilógico a ideia de que o surgimento e as bases da sociologia como a conhecemos se dão, necessariamente, nessa tríade Durkheim – Marx – Weber.

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