Qual a importância dos clássicos nas ciências sociais?

Por Raphael Lebigre

Por que existe nas ciências sociais uma relação com os clássicos?

Para tentar responder à pergunta, Jeffrey Alexander e François Dubet discorrem a favor dos clássicos na disciplina.

De inicio, Alexander,  sociólogo estadunidense, no artigo “A importância dos clássicos” (1999),  considera que as obras são consideradas clássicas por darem uma contribuição singular e permanente à ciência da sociedade. Ao afirmar a relevância dos clássicos, Alexander contraria as formulações de dois autores.

Para Skinner, historiador britânico, a ciência natural e a social seriam no fundo a mesma coisa.  Ao beber da linguística do filosofo Ricoeur (1913-2005), o autor acredita que não haveria a necessidade de estudar um texto em si, pois cada fonte dos clássicos seria não interpretada cientificamente, mas absorvida de maneira objetiva através de como o texto é estruturado. Convergindo com Skinner, Robert Merton (1910-2003), sociólogo estadunidense, defendia também uma teoria social embasada nas ciências naturais, voltada para a explicação da realidade por leis sociológicas. Para ele, ao invés de interpretados, os textos antigos deveriam ser utilizados de maneira utilitária.

Em oposição, Alexander, embasado em Thomas Kuhn (1922-1996), filósofo da ciência estadunidense, aponta que as ciências sociais contrariamente às naturais, não são fundamentadas em modelos, mas clássicos. Isso faz com que elas não possam ser aprendidas pela mera imitação de uma forma de resolver problemas empíricos, pois a  área abarca não só o lado racional, mas também o lado criativo do investigador.

“portanto, apela para qualidades de sensibilidade pessoal – estéticas, interpretativas, filosóficas, observacionais, que não são progressivas” (ALEXANDER, 1999, p. 48).

Na prática, defende o intelectual estadunidense, os dados empíricos da ciência são construídos antes de tudo pela análise do investigador. A partir da interpretação cria-se o discurso sociológico que representaria um argumento teórico e não apenas a explicação. Esse é o motivo pelo qual são os próprios cientistas sociais, por consenso, que tornam os textos clássicos.

Por vias diferentes, François Dubet, em sua publicação “ Why Remain ‘Classical’? (2007), concorda com Alexander sobre a importância dos clássicos. Para tanto, o sociólogo francês questiona como as ciências sociais podem adequar-se a novos estudos.

Dubet argumenta que a manutenção dos clássicos permite um significado de união das ciências sociais, frente a sua pluralidade teórica. O intelectual traça o panorama histórico da disciplina que surge no século XIX, abordando o problema da ordem e do conflito em torno do Estado Nação, peculiar ao Norte Atlântico. Influenciado fortemente pelo sociólogo Alain Touraine, o autor defende que não haveria mais um núcleo social baseado na ordem, como apontaram Durkheim e Marx, por exemplo, mas vários subsistemas (cultura, mercado, etc), cada um envolvendo tipos plurais de ações individuais, movidas por três eixos: “mecanismos de integração”, “estratégia racional” e “relação subjetiva”. Isso faz o sociólogo ser crítico às teorias de autores como Latour e Thevenot, que precisam, segundo ele, recorrer a outras teorias, pois não incorporam os clássicos. Com uma visão que demarca o conhecimento sociológico da França e dos Estados Unidos, Dubet aponta as deficiências das teorias de inspiração estadunidense, centradas nos atores motivados economicamente em Becker e Coleman; e individualmente em Goffman.

Contudo, o sociólogo francês converge com Alexander sobre a necessidade da pluralidade teórica nas ciências sociais, unidas em torno dos clássicos: Marx, Weber, Durkheim, Simmel. E ainda, na necessidade da disciplina se desvencilhar das ciências naturais, ao ter como vocação descobrir e demonstrar como a sociedade funciona e não suas leis.

Pode-se afirmar que ambos os artigos possuem duas visões pertinentes sobre a base de conhecimento contemporâneo das ciências sociais. Todavia, os autores caem na visão etnocêntrica do Norte, ao não citarem exemplos de sociólogos do Sul Global que experimentaram e reformularam os clássicos e teorias de caráter geral/ universal.

Referências bibliográficas

ALEXANDER, Jeffrey. (1999), “A importância dos clássicos”. Em: GIDDENS, Anthony; TURNER, Jonathan (orgs). Teoria social hoje. São Paulo, Unesp, pp. 23-89.

DUBET, François. (2007), “Why Remain ‘Classical’?”.European Journal of Social Theory, vol. 10, n. 2, pp 247–260

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