Restabelecendo as conexões: globalização, universalismo e o rejuvenescimento da sociologia

Por Edmar M. Braga Filho

A ciência pode ser caracterizada pelo seu universalismo e sua recusa a argumentos de autoridade, utilizando-se de critérios objetivos de análise. No caso da sociologia, tais caracterizações se tornam profundamente problemáticas. Como tornar universal um corpo de conhecimento que, em sua constituição, vincula-se à modernidade europeia, procurando compreender e explicar as transformações daquela sociedade? Como falar em parâmetros impessoais e objetivos se há uma divisão global do trabalho acadêmico (ALATAS, 2003), que reproduz assimetrias e desigualdades na produção e circulação do conhecimento? Alguns autores fornecem possíveis soluções para essas questões.

Para Alatas (2010), o processo de universalização e internacionalização não eurocêntrica e sem dependência cultural das ciências sociais só serão efetivos se as teorias sociais atuais forem complementadas com os chamados “discursos alternativos”. Estes seriam baseados em práticas culturais e tradições de conhecimento que se “colocam em contraste e em oposição ao que consideram ser os discursos dominantes, em sua maioria euro-americanos”. Eles seriam, desta forma, fontes de teorização e conceitualização complementares ao conhecimento ocidental. A “boa ciência social” deveria, segundo o autor, levar em conta tais discursos, pois eles são “conscientes da relevância dos contextos locais e dos problemas derivados do controle discursivo do poder pelas ciências sociais”. Todavia, o autor diz que se deve ter cautela para não cair num “ocidentalismo”, tampouco num “auto-orientalismo”, dado que ambos são essencialismos e reducionismos.  Ele exemplifica os estudos do mulçumano Ibn Khaldun (1332 – 1406) e o confucionismo como fontes de teorização alternativa.

“O nível mais alto de alternatividade e universalidade refere-se à aplicação de teorias geradas localmente, integradas tanto a teorias não ocidentais quanto a ocidentais, para realidades locais e extra-locais.”

Criticando a proposta acima descrita, Bhambra (2014) faz uma análise do impacto das percepções da natureza globalizada do mundo na sociologia, fornecendo outras leituras e propostas. A autora defende dois percursos analíticos: um retrospectivo, através do entendimento histórico das relações entre modernidade, sociologia e o mundo não ocidental; e outro reconstrutivo, pois reformularia categorias e conceitos por meio de outra perspectiva. Ela mostra, desta forma, como a nossa compreensão da constituição da modernidade é equivocada, uma vez que a compreendemos como um fenômeno sui generis, circunscrita na Europa. Bhambra elucida como o caráter global da colonização foi essencial no processo, tendo a participação de outras culturas e povos.

BASF_Werk_Ludwigshafen_1881
A industrialização é tida como um fenômeno estritamente europeu. Todavia, o algodão é uma planta nativa da Índia, bem como sua tecnologia; foi cultivado em plantações no Caribe e ao sul dos EUA por seres humanos escravizados de origem africana

A autora afirma que essa abstração e o consequente isolamento do resto do mundo na constituição da modernidade (logo, da sociologia) ainda permanecem na crítica pós-colonial. Ela discorda da ideia defendida anteriormente por Alatas (2010) de que devemos valorizar os discursos alternativos, argumentando que tal prática pressuporia uma exclusão de diferentes povos e culturas na constituição da modernidade. Segundo a autora, há também pouca discussão acerca de como essas tradições originais poderiam contribuir para uma sociologia verdadeiramente global. O conhecimento dominante ainda permaneceria servindo como um espelho para outras formulações teóricas alternativas. Em suma, ela propõe que uma sociologia verdadeiramente global, com intenções universais, “derivar-se-á da reconstrução dos entendimentos atuais à luz de novos conhecimentos do passado e do presente”.

Embora sem referências diretas a Alatas, Costa (2013) também faz uma crítica à incorporação de discursos alternativos ao saber dominante das ciências sociais, afirmando que a “expectativa de que isso possa provocar mudanças substanciais no campo da ciência” parece, para ele, “exagerada”. Ele sai em defesa de um programa de pesquisa pós-colonial “moderado”, que não rejeite a ciência enquanto forma de conhecimento, nem saia à procura de “novas formas de conhecimento” visando a sua complementação ou substituição. A mudança, segundo ele, deve ser interna, “evidenciando as relações materiais e simbólicas entre o Ocidente e o ‘resto do mundo’”, ou seja, a proposta retrospectiva e reconstrutiva de Bhambra (2014).

Por fim, concordo com Costa (2013), para quem a ciência não deve ser descartada enquanto ferramenta de compreensão e explicação da realidade, como apregoam outros críticos mais enfáticos. Seria no mínimo, a meu ver, um paradoxo dispensar os valores científicos fazendo sociologia. Entender a globalização como processo constituinte da modernidade e das ciências sociais abre novas possibilidades de reconstruções teóricas para uma “sociologia global”, crucial para uma efetiva universalização da disciplina, bem como, para usar os termos de Alatas, o estabelecimento de uma “boa ciência”, que seja autoconsciente das suas desigualdades vigentes na produção e circulação do conhecimento, e que se empenhe para subvertê-las.

Referências

ALATAS, Syed Farid. Academic Dependency and the Global Division of Labour in the Social Sciences. Current Sociology. London: Sage Publication v 51 nº 6, 2003 pp 599 – 613.

_________________. A definição e os tipos de discursos alternativos. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v. 23 nº46, 2010 pp 225 – 245.

BHAMBRA, Gurminder. As possibilidades quanto à sociologia global: uma perspectiva pós-colonial. Sociedade e Estado. Brasília: v 29 nº1, 2014 pp 131 – 149.

COSTA, Sérgio. (Re)Encontrando-se nas redes? As ciências humanas e a nova geopolítica do conhecimento. In Crítica Pós- Colonial. Panorama de leituras contemporâneas. Rio de Janeiro: 7 letras, 2013 pp 257 – 274.

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