“Você sabe a resposta da dois?” – Comportamentos ilícitos por alunos e professores na educação superior.

Por Leonel Salgueiro,

“Mais de 40% dos alunos e 20% dos professores já testemunharam atividades ilícitas realizadas por colegas em universidades brasileiras.” Estes foram os resultados da pesquisa de nome “A Face Oculta da Universidade Brasileira: Percepções de Comportamentos Ilícitos na Educação Superior por Alunos e Professores” realizada pelo psicólogo, professor aposentado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), José Augusto Dela Coleta em parceria com o educador, professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Luiz Roberto Gomes.

Os autores definem a pesquisa com o intuito de construir instrumentos de medida, e obter parâmetros de percepção de existência de condutas ilícitas emitidas por professores e alunos universitários. A pesquisa foi realizada com 610 pessoas, sendo 463 estudantes dos últimos períodos de diversos cursos de graduação (Administração, Direito, Engenharia, Fisioterapia e Psicologia), 73 professores de diferentes especialidades, de quatro Institutos de Ensino Superior (IES) particulares e duas públicas das cidades de Uberlândia, Anápolis e Uruaçu, do interior dos estados de Goiás e Minas Gerais, um grupo de 22 coordenadores de cursos de graduação de uma IES particular, e ainda 52 professores e alunos de cursos superiores mantidos por uma Escola Agrotécnica Federal (EAF), ambas do interior do Estado de Minas Gerais.

A partir de entrevistas com grupos focais, os autores definiram tópicos centrais de comportamentos ilícitos, que representariam o cotidiano de alunos e professores nas instituições de ensino superior. Sendo 10 situações para alunos e 18 situações para professores, os entrevistados categorizavam em percentuais os comportamentos que averiguavam ser mais ou menos perceptíveis em seus colegas de classe ou profissão. Destes 28 tópicos, vale indicar que a presença nas aulas, apenas nos momentos próximos à chamada; fotocopiar cadernos, resumos e anotações elaborados pelos colegas; colar na prova em pelo menos uma disciplina e colar na prova em pelo menos metade das disciplinas são atitudes testemunhadas por quase metade dos alunos entrevistados. Enquanto que para os professores, ações como terminar as aulas pelo menos 10 minutos mais cedo do que o horário previsto; utilização de auto avaliação dos alunos como critério para atribuição de notas e o favorecimento, na nota, dos alunos mais próximos, mais conhecidos são presenciados por 20% do corpo docente destas instituições. Além disso, é importante ressaltar que dos comportamentos analisados, foi evidenciado uma maior probabilidade de ocorrência em instituições de ensino público.

Segundo os resultados analisados, não há dúvidas por parte dos autores de que este tipo de comportamento comprometa o que se entende por ensino-aprendizagem, além de que utilizando autores como Habermas (1989), definem que danifica o próprio desenvolvimento das ações humanas e da cultura organizacional da IES e, por extensão, toda a sociedade, uma vez que esta poderá ser a grande vítima das consequências nefastas de uma formação deficitária no seio da universidade.

Logo, os autores nos deixam a pergunta: Afinal, quais perfis de cidadãos estão sendo formados por estas instituições, se condutas desta natureza são emitidas ou permitidas no interior das IES? Podemos complementar utilizando uma análise sobre a produção do conhecimento científico: se formamos cidadãos incorretos no seio universitário, posteriormente, como tais práticas poderão afetar a qualidade das pesquisas, uma vez que elas fazem parte da rotina universitária?

Para concluir, os autores definem que talvez seja a hora de tratar cientificamente a educação, investigando criteriosamente o paradigma educacional que tem norteado a cultura das IES, a fim de propor objetivamente uma verdadeira revolução no ensino. Segundo eles, estamos suscetíveis a encontrarmos estas práticas nos ambientes universitários, mas se não utilizarmos critérios que definam melhor qual a importância do ensino superior no país estaremos não só permitindo a prática, como tornando esta forma de trapacear rotineira e aceitável.

Bibliografia:

HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Tempo brasileiro, 1989.
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